cine | Compramos um zoológico

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Alguns meses depois da morte da esposa, Benjamin Mee resolveu mudar de rotina: o americano abandonou a carreira de repórter e comprou um zoológico, onde passou a viver com os dois filhos. O lar da bicharada de forma foi reativado de forma tão admirável que o pai viúvo se tornou um herói local. Quando perguntavam a ele sobre a razão de ter se metido num ramo profissional tão exótico, o homem respondia sempre do mesmo jeito: “Por que não?”.

Talvez as pessoas tenham feito essa pergunta tantas vezes que Benjamin decidiu escrever um livro sobre a experiência. A autobiografia inspira este Compramos um Zoológico.

Admiro a bravura do jornalista. Mas desconfio que o livro me irritaria. Se o filme de Cameron Crowe foi minimamente fiel às intenções de Benjamin, aquelas páginas podem ser usadas como slides em palestras de motivação para funcionários em crise. “Seja como Benjamin: proativo, corajoso, gente que faz”.

Não sei se o livro é uma obra de autoajuda (não li, não quero ler). O filme o é. E sem culpa, sem vergonha, com uma vibe tão alegremente cafona quanto a de Comer Rezar Amar. A diferença é que Cameron Crowe sempre foi um sujeito alegremente cafona. Também sinceramente alegre, otimista e jovial – qualidades que o apartam dos muitos ghostwriters que produzem livros sobre como se tornar um bom gerente ou como agir quando alguém mexe no nosso queijo.

Reconheço com facilidade Cameron Crowe nos filmes que ele dirige. As trilhas musicais sugerem um fã quarentão de música pop tentando forçar amizade com os mais novinhos (reúne canções dos anos setenta combinadas a uma ou duas novidades elogiadas pela revista Rolling Stone), as tramas são sentimentais e afetuosas (mas nunca impessoais, já que Crowe parece ser, de verdade, um cara sentimental e afetuoso), os personagens nos lembram pessoas que conhecemos (são tipos sentimentais e afetuosos, mais ou menos como Crowe deve ser) e, nessas narrativas de bom coração, cinismo é palavra feia, vetada.

Qualquer um dos filmes de Crowe (talvez à exceção de Vanilla Sky, que era um remake) cabe nesse padrão de dramaturgia/temperamento, que Compramos um zoológico segue com muita naturalidade. Mas me pergunto se, a esta altura, e talvez por ter visto todos os longas do diretor, Crowe não estaria simplesmente procurando desculpas para fazer os filmes que sempre fez.

Talvez sim. Compramos um Zoológico é, simultaneamente, um filme-de-Crowe e um filme-autoajuda – e me impressiona como podemos dividi-lo em duas partes, que podem ser analisadas separadamente. O filme-de-Crowe se mostra gentil, sempre digno e correto; já o filme-autoajuda é chantagista e manjado, um veículo pobretão para astros que não querem se esforçar muito (Matt Damon e Scarlett Johansson). O filme-de-Crowe é o tiozinho que se emociona com Bon Iver e Neil Young, que preza (honestamente) os valores familiares e que acredita num amor ingênuo, primaveril. O filme-autoajuda, em contrapartida, é uma armação de marketing programada para nos ensinar o que já sabemos – e patrocinada pela Apple.

Acontece que, se Crowe está em Compramos um Zoológico (e são muitos os pontos de contato entre este filme e Jerry Maguire e Quase Famosos), Compramos um Zoológico mostra que a sensibilidade do diretor, quando associada a tramas aborrecidas como esta, serve de papel-de-presente fino para embrulhar objetos banais. Deixei a sessão de Compramos um Zoológico certo de que reencontrei o sujeito boa-praça de sempre; mas o homem, dessa vez, não tinha quase nada de inteligente a dizer.

(We Bought a Zoo, EUA, 2001) De Cameron Crowe. Com Matt Damon, Scarlett Johansson e Thomas Haden Church. 124min. C+

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