Dia: dezembro 19, 2011

cine | Adeus, primeiro amor

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Numa das cenas, uma adolescente (estudante de arquitetura) lê em voz alta, para a classe, um texto que compara casas a obras de arte. A arte, diz o livro, é uma expressão individual, que não tem o dever de agradar, que pode não servir para coisa alguma — por isso, geralmente incomoda as pessoas. Enquanto que uma casa, em oposição, é desenhada para confortar e cumprir as expectativas do consumidor. A arte é livre; a casa, projetada para satisfazer.

Não que essa cena resuma o filme (ele trata de uma série de outros assuntos) — mas é como se, nesses minutos em que se dirige ao espectador, Mia Hansen-Love riscasse uma linha de giz entre o cinema que ela admira (arte) e os filmes utilitaristas. Este Adeus, Primeiro Amor não é uma “cinecasa”.

E aqui não estou falando num cinema “de arte” com imagens e sons forçosamente poéticos, que tentam a todo custo — de um jeito deprimente — sensibilizar o espectador (para Mia, isso não é arte; é outra coisa). Mas de um cinema que vai rejeitando naturalmente artifícios já muito manjados, mais ou menos da mesma forma como um bom escritor desvia (também sem esforço) da frase banal, vazia, apelativa.

Mia já fez outros filme assim particulares (O Pai dos Meus Filhos) — quando dirige, hoje ela sabe muito bem o que não quer. Só uma diretora já muito segura das próprias intenções deixaria a câmera flutuar em torno da personagem principal — uma adolescente que não consegue se livrar das lembranças do primeiro amor — como se ela, a lente, não guiasse a narrativa. A sensação é de que o filme chega sempre depois da protagonista, se surpreendendo por uma história de vida cujo roteiro se escreve no decorrer da ação.

O naturalismo de Mia é uma ilusão muito bem construída (repare em como as cenas de idílio, no começo do filme, são sutilmente mais iluminadas e inocentes que o restante do longa), que está sempre permitindo aos personagens algumas liberdades importantes: a contradição (às vezes parecem imaturos, às vezes maduros demais; por vezes comuns, por vezes especiais), as incertezas, o direito de cometer grandes erros (e, depois, talvez de consertá-los) e de, no mais, não saber se tomou a decisão correta. Na poltrona, nós os acompanhamos sem saber pra onde eles vão — na segunda metade do filme, admito que eu estava tão aflito quanto eles.

Não parece ser um filme sobre arte. Mas é com personagens vivos que este filmezinho se manifesta a respeito de todo um cinema meio morto.

(Un Amour de Jeunesse, França/Alemanha, 2011) De Mia Hansen-Love. Com Lola Créton, Sebastian Urzendowsky e Magne-Havard Brekke. 110min. A

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