cine | Margin call – O dia antes do fim

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O título em português deste longa de estreia poderia ser algo como Saiba Como Começa uma Crise Financeira (e Morra de Raiva ao Descobrir). Mas, descontada a ambição de nos explicar didaticamente a verdadeira-verdade sobre os maus hábitos dos poderosos (e taí Oliver Stone fazendo escola na indielândia americana), este thriller corporativo é o filme que David Mamet escreveria em 2011 se já não estivesse tão cansado de escrever filmes de David Mamet.

A metralhada de diálogos cruéis e/ou cifrados – disparados por homens bem sucedidos, vestidos em figurinos caros e genéricos – me lembrou, em alguns momentos, o falatório frenético de Sucesso a Qualquer Preço. O roteiro de J.C. Chandor tem o ritmo de uma comédia de erros shakespeariana; renderia, por isso, um espetáculo teatral muito vibrante – e esse meu comentário não contém nenhuma ironia.

O elenco parece saber disso, e crava os dentes no script com a fúria de quem encena Hamlet. Que boa surpresa ver Kevin Spacey atuando (há quanto tempo isso não acontecia?). E que senhora revelação notar a sensibilidade de um diretor estreante que permite a Jeremy Irons uma interpretação ligeiramente acima do tom, muito condizente com um personagem (o Lúcifer de Wall Street) que paira sobre o filme inteiro como uma sombra medonha.

Chandor talvez admire mais David Fincher que, digamos, Stanley Kubrick. Dirige com a precisão de um técnico aplicado, de um engenheiro, mas dirige – a encenação azul-cinzenta, rasgada por alguns momentos de rápida distenção (é quase surreal a cena em que os funcionários da firma conversam sobre dinheiro no topo do prédio, aliás), está sempre comentando o cotidiano dos personagens, tão cheio de ilusões vazias. O cineasta circula atentamente no escritório.

Só que ele, o diretor, poderia estar apenas expondo uma tese, não poderia? Às vezes parece que faz exatamente isso. Mas enquanto o roteiro destrincha a tragédia de um “sistema” sem conserto, que sempre será demolido e reerguido por uma pequena elite (e taí um filme-irmão de Tropa de Elite 2), a câmera cola nos personagens, se interessa por eles. À exceção de alguns casos (o funcionário deslumbrado, por exemplo), esses tipos não são tratados apenas como vilões ou ingênuos. São isso e aquilo – e também pessoas comuns, como a última cena explica (didaticamente) muito bem.

(Margin Call, EUA, 2011) de J.C. Chandor. Com Kevin Spacey, Zachary Quinto, Stanley Tucci e Jeremy Irons. 107min. B

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