♪ | Undun | The Roots

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Undun, meu pai diria, é um álbum conceitual: como numa narrativa cinematográfica, essas 14 faixas compõem uma trama. Juntas, contam a história de um homem comum, Redford Stevens, que se tornou criminoso e morreu em circunstâncias relativamente banais. No início do disco, o herói fala do além-túmulo: com distanciamento à la American Beauty (o filme de Sam Mendes, não o disco do Grateful Dead), ele contempla os momentos mais importantes de uma existência sem muitos momentos importantes.

Não é um filme muito original. Já vimos esse drama. Mas ainda não havíamos ouvido um disco como este. O mais curioso, no caso, seria descobrir como a banda conseguiu transformar em música os pensamentos e o temperamento do personagem. Porque isto é um álbum, não um audiobook.

O disco me frustra porque percebo nele um descompasso entre o tema central (ambicioso) e uma sonoridade pop apenas eficiente, até um pouco previsível, interpretada de forma correta, mas que não me oferece muitos desafios. Quem não presta atenção às letras pode ficar com a impressão de que ouve apenas mais um álbum do The Roots (um pouco mais introspectivo que os recentes, e só). Sempre defendo os discos que tentam criar um mundo para si, desenhar uma narrativa particular; mas este aqui me parece daqueles casos em que o conceito supera (e muito) a realização.

E a maior prova dessa deficiência está no desfecho do álbum, que cria uma mini-sinfonia ao redor de uma faixa do Sufjan Stevens (Redford). É como se a banda tomasse uma medida desesperada para encontrar a atmosfera melancólica que o som do restante do álbum só consegue sugerir muito sutilmente. E percebam que não estou falando especificamente nos versos – esses explicitam a todo momento o tema do disco.

O roteiro tem lá alguma complexidade (é um fluxo de consciência de 38 minutos de duração), algumas músicas soam desencantadas (ainda que agradáveis, sempre), as canções sobrevivem quando apartadas do conceito, mas sinto falta da figura de um cineasta (de um grande compositor?) capaz de transformar essa trama muito típica num filme/disco singular.

Décimo primeiro disco do The Roots. 14 faixas, com produção de Richard Nichols e The Roots. Def Jam. 62

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