cine | Um dia

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Na contracapa do livro Um dia, lançado no Brasil pela editora Intrínseca, o leitor encontra uma série de elogios: “Inteligente, engraçado, sagaz e, por vezes, insuportavelmente triste” (The Times); “Difícil encontrar uma comédia romântica tão afiada e doce” (The Independent). Há muitos outros superlativos em tons alaranjados – e admito que, quando tentei lê-los de uma vez só, fiquei um pouco tonto.

É o que geralmente acontece com best sellers: eles querem nos convencer de que são eventos importantes, essenciais para o mundo literário. Mesmo quando, na maioria das vezes, servem apenas e simplesmente para mostrar que não devemos levar muito a sério as resenhas do The Times e do The Independent.

Li Um dia e não vejo por que mentir: é um romance divertido. Tão gracioso e sentimental quanto, digamos, os minutos finais de um episódio de Grey’s Anatomy. E movimentado como uma season finale de 24 Horas. Muita coisa acontece na trama. E, antes que eu esqueça, é um livro que me parece ruim, muito ruim.

Ruim, em primeiro lugar, porque não é escrito com muito esmero: David Nicholls, o autor, usa um tom informal e engraçadinho, adotado à rodo por pupilos de Nick Hornby – na maior parte dos casos, para ocultar falta de rigor com a prosa. Quem gosta de literatura sabe que pode ser terrível passar dias, semanas na companhia de um escritor que maltrata as palavras.

Em segundo lugar, ruim porque faz pouco caso de uma premissa instigante. O plano de Nicholls é acompanhar dois personagens durante vinte anos. Mas – eis o pulo do gato – ele pretende destacar apenas as situações que ocorreram a cada 15 de julho. Ano a ano, pois, o leitor reencontrará aquelas duas pessoas.

O desafio me parece grande, enorme. Acredito até que talvez só um bom escritor (e isso Nicholls está longe de ser) seria capaz de resolvê-lo: cada capítulo teria que ser simultaneamente muito banal (um dia, afinal e antes de tudo, é apenas um dia) e interessante o suficiente para prender a atenção de leitores que querem ler a love story bobinha da estação.

O autor, muito malandramente, usa um truque tolíssimo para facilitar esse processo: capítulo a capítulo, ele recorre a uma série de recursos manjados para situar o leitor na trajetória completa dos personagens. Flashbacks, por exemplo. Ou diálogos oportunos, do estilo: “Sabe a Emma? Pois é: nos últimos 11 meses, ela casou, teve três filhos, acampou no Havaí, mudou de emprego três vezes, ensaiou peças de teatro e aprendeu francês.” É como se Nicholls estivesse trapaceando dentro de um jogo que ele próprio inventou.

Mais estranho é quando o 15 de julho subitamente se transforma num dia onde eventos muito especiais acontecem, todos de uma vez só. Uma viagem incrível para o litoral, digamos. Sempre que eu esbarrava num desses capítulos, minha pergunta inevitável era: mas isso tudo não poderia ter acontecido no dia 17?

O filme Um dia, escrito pelo próprio Nicholls, também vai lenta e sorrateiramente ignorando esse ponto de partida e (como o livro) acaba por se transformar numa comédia romântica trivial. No decorrer do longa, cheguei a esquecer de todos os desafios da premissa: a montagem, sempre muito ágil, aplica uma fluência sem tempos mortos a uma narrativa naturalmente fragmentada, que deveria se movimentar aos solavancos (e se, no período de um ano, 90% dos personagens tivessem morrido num desastre aéreo? E se, no dia 15 de julho de 1990, a mocinha estivesse em coma? etc).

Tudo – no filme e no livro – me parece um desperdício. O projeto do romance permitia a Nicholls as aventuras mais imprevisíveis, mais loucos. Charlie Kaufman teria feito estragos. O escritor, no entanto, prefere arredondar a trama com os desencontros mais óbvios do manual de instruções de comédias românticas – no filme, a preguiça se torna aparente (já que ele todo não é difere muito de um típico veículo para Julia Roberts ou para a própria Anne Hathaway).

O filme me parece melhor que o livro porque somos poupados das gracinhas e galanteios de Nicholls (elas se limitam aos diálogos, e taí algo que o homem sabe escrever) e porque a direção de Lone Sherfig (a assepsia em nome de mulher) funciona como uma espécie de resenha para o texto original, resumindo a trama às situações essenciais (e é um resumo eficiente: ninguém precisa ler o romance se ele cair no vestibular) e apontando o defeito principal do livro.

Que é: nessas páginas, faltam personagens complexos e naturalmente cheios de vida, capazes de seduzir o leitor mesmo nos 15 de julho em que nada acontece.

(One Day, EUA/UK, 2011) De Lone Scherfig. Com Anne Hathaway, Jim Sturgess e Patricia Clarkson. 107min. C

4 comentários em “cine | Um dia

    Lau disse:
    dezembro 11, 2011 às 1:20 pm

    Oi, Não li ainda ” Um Dia”, mas a premissa não me animou desde o início. E eu gosto do gênero chick-lit. Mas não adianta , esse tipo de literatura acaba sendo feito para um público bem específico: Mulheres.
    Nós sabemos que aquele príncipe maravilhoso não existe ( desculpe aí meu magnífico namorado), que a vida não vai mudar de um dia para o outro, e tantas outras coisas, repetitivas, que acontecem no gênero. Mas mesmo assim é tão gostoso de ler!
    O filme deve ser água com açúcar, mas se ele serve para o propósito( levantar aquela pontinha de esperança mesmo que só dure até a fila do pagamento do estacionamento), acho que tá bom… afinal quem vai ver o filme realmente espera algo mais profundo?

    E ah Tiago em algum outro post aqui vi vc falando sobre o ônibus guarulhos – tatuapé . Como eu conheço esse ônibus! e 40 minutos? em dia sem trânsito né? rs

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 12, 2011 às 12:47 pm

    Pois é, Lau, acho que o filme não tem grandes ambições mesmo. Mas digamos que ele faça coisas mais apelativas que levantar a pontinha de esperança, hehe. Não vou estragar a surpresa, mas é jogo baixo.

    Dia sem trânsito! Hehe. Hoje fiz o percurso novamente e deu uns 35 minutos. Estou com sorte. :)

    Gabi de Almeida disse:
    dezembro 16, 2011 às 6:42 pm

    Adoro os minutos finais de Grey’s Anatomy :)
    Quanto ao livro, ganhei um exemplar e pretendo começar a leitura em breve. Achei o filme fraco e previsível. Mesmo sem ter lido o livro acredito que eles cortaram partes importantes, sabe? Senti que o principal ficou deixado de lado, achei incompleto. Muitos amigos me disseram que choraram com o livro. Eu não chorei com o filme, por isso fiquei com essa impressão de vazio e decidi ler o livro. Fiquei me perguntando: “Será que eu não chorei porque a história não é lá essas coisas ou porque o livro é muito melhor?”
    Pareço idiota? Pois é, eu sou.

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 16, 2011 às 6:54 pm

    Não cortaram tantas partes importantes não, Gabi. O livro é um pouco mais completo, mas a estrutura é parecida (os capítulos são curtos, a ação tá sempre em primeiro plano…). E não achei o livro emocionante, talvez por ter percebido logo que o truque da narrativa é bem banal.

    E você não é idiota, deixe disso. :)

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