Dia: dezembro 7, 2011

cine | Inquietos

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Este tearjerker adolescente – e, em certa medida, sobre a adolescência – é um filme em conflito: instala uma batalha entre o mais esquemático dos roteiros (escrito pelo estreante Jason Lew; guarde este nome e tome cuidado da próxima vez) e um cineasta que seria capaz de filmar com suavidade & segurança até o episódio mais torturante da, digamos, saga Crepúsculo.

E ninguém precisa trazer para a cena do crime os nomes dos produtores Ron Howard e Brian Grazer. Inquietos é um filme (em grande parte) de Gus Van Sant.

O diretor se deixa notar logo na primeira cena, quando uma câmera leve se movimenta sobre a cidade ao som de Two of Us, dos Beatles (e é notável como essa melodia define a atmosfera do filme). Também aparece na fotografia de Harry Savides, toda ela em tons cinzentos porém amenos, sempre em harmonia com personagens que também parecem flutuar numa dimensão mágica, entre a vida e a morte. São imagens que justificam os adjetivos mais genéricos: bonitas, sensíveis, delicadas, tristes.

Digo mais: o Van Sant de Inquietos me parece mais consciente dos próprios recursos e das próprias limitações que o de Gênio Indomável. Ou o de Encontrando Forrester (para ficarmos em dois outros filmes cujos roteiros ingênuos parecem brigar com o talento do cineasta). O que se vê, hoje, é um diretor adulto: o tom que ele adota diante da narrativa é preciso, corretíssimo, e não imagino uma forma mais digna de se filmar este roteiro (ainda que eu consiga imaginar centenas de opções muito piores).

Este filme, no entanto, não é apenas o olhar de um autor para um determinado tema. Também não é somente um desfile de estilo; uma bela direção de fotografia, uma trilha sonora supostamente de bom gosto (ainda que, aos meus ouvidos, totalmente irritante: uma seleção de indie folk escolhida aleatoriamente na lojinha do iTunes). Não é só isso. Este filme lida com um roteiro que preenche quase completamente a narrativa, e exerce um peso sufocante sobre ela. A trama e os personagens ocupam cada flanco da metragem – não há, como havia em Paranoid Park ou em Elefante, muito espaço para as digressões e aventuras de Van Sant.

O diretor, por isso, trabalha desta vez num ambiente muito compacto, restrito, e se vê obrigado a negociar a cada minuto com um texto que parece ter sido escrito não por um adolescente de 12 anos, mas por um adulto cínico de 55 – um técnico de Hollywood que conhece todas as fórmulas em alta no cinema americano sobre pessoas sensíveis, jovens, especiais, excêntricas, únicas no mundo (e aí entram Miranda July, Juno, Dave Eggers via Sam Mendes, Pequena Miss Sunshine e tantos adoráveis outsiders).

Daí que Inquietos me parece, apesar dos esforços (e da naturalidade) de Van Sant, um filme com espírito calculadamente teen (tanto quanto os episódios da saga Crepúsculo, e não estou forçando a barra), que tenta se aproximar de um público específico apertando, para isso, uma série de gatilhos-clichês de love stories, com um ou outro sinal invertido (os pombinhos da vez são obcecados pela morte; mas o grande filme de Van Sant ainda é Last Days) e muito afeto, muita formosura.

Talvez inconscientemente, Inquietos é, ele próprio, juvenil. Um filme adolescente, como eu dizia no início deste post. Van Sant, tão acostumado a acompanhar seus personagens sem paternalismo e com infinita curiosidade, acaba por abraçar também as infantilidades do roteiro. E, assim, cria um longa-metragem à imagem da dupla principal de personagens (nesse sentido, me lembra muito Eu Matei a Minha Mãe, de Xavier Dolan, outro filme imaturo sobre tipos imaturos).

Para os espectadores que, como eu, não trocariam três palavras com adolescentes tão narcisistas e peculiares quanto esses (e que atores ineptos, meu deus), assistir a esse romance cor-de-rosa-dark pode ser uma experiência agonizante.

(Restless, EUA, 2011) De Gus Van Sant. Com Henry Hopper, Mia Wasikowska e Ryo Kase. 91min. C+

cine | A chave de Sarah

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Minha teimosia (sempre ela) fez com que eu ignorasse os conselhos de amigos e assistisse a este novelão histórico sobre um dos episódios mais maltratados pelo cinema das boas intenções: o holocausto. Sempre ele.

Paguei o preço: como eu esperava, o filme aplica uma série de firulas sentimentais (sem critério algum) para esfregar in our faces os horrores da intolerância francesa contra os judeus. Os flashbacks – numa coloração amarelada e “elegante”, à la Hallmark Channel – fariam Godard ter espasmos.

Kristin Scott Thomas, a dignidade em pessoa, consegue nos convencer de quase tudo: mas não de que exista algo edificante no projeto de usar o horror nazista para aliviar as dores de consciência do público e justificar os padrões de “bom gosto”, já tão limitados, que pautam os cines-bistrô. Da próxima vez, prometo ser menos teimoso.

(Elle s’appelait Sarah, França, 2010) De Gilles Paquet-Brenner. Com Kristin Scott Thomas, Mélusine Mayance e Niels Arestrup. 111min. D+