♪ | El Camino | The Black Keys

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O novo do Black Keys divide com Wasting Light, do Foo Fighters, o título de disco de rock mais eficiente de 2011. Muito bem sucedido em cumprir metas de produtividade (11 hits atléticos e esbeltos, compactados em 37 minutos de duração) e atento aos anseios da clientela (que, como de costume, quer se divertir à beça com as atualizações de um produto testado/aprovado), El Camino soa como um carango oldie & sexy com painel de controle computadorizado: em hipótese alguma vai aquecer/esfriar além do permitido; nunca nos deixará na mão.

Nem nos matará de tédio. Hoje cedo, fiz o test-drive enquanto fazia o trajeto de ônibus entre o Aeroporto de Guarulhos e o terminal de metrô de Tatuapé. Uma viagem de 40 minutos, que me deu a chance de ouvir o disco on the road, entre carros e caminhões, num cenário urbano (mas ainda sem os excessos da região central de São Paulo) que zunia em verde e cinza. Nesse contexto, essa música me pareceu ainda mais mecânica – tão calculadamente sensual quanto as fotografias que apareciam de vez em quando nos outdoors à beira da estrada.

A produção pragmática de Danger Mouse (um Butch Vig com alguma sensibilidade para a soul music) continua a servir muito bem a essa busca por canções exatas, perfeitas – mas cá estamos falando de uma ideia de perfeição acetinada, superficial – que nos remete, por exemplo, ao David Fincher de O Curioso Caso de Benjamin Button (e não ao Fincher de Zodíaco).

Brothers, o anterior, era mais longo, mais aventureiro e um pouco menos previsível. El Camino, o primo caipirão, hiperativo e machinho, nos ataca frontalmente, com um set de canções que fazem com o songbook do White Stripes o que, digamos, o Offspring fazia com o do Nirvana: uma filtragem dos elementos mais comerciais e potentes, à serviço da nossa diversão (sem complicações).

E é um disco divertido. Os chapas do Black Keys, como acontecia nos álbuns anteriores, se comportam como autores competentes de pulp fiction. Em cada verso, eles usam uma série de recursos estilísticos para mostrar que não estão aqui só para reutilizar fórmulas (cada música tem um ou outro detalhe, uma linha de guitarra ou um sintetizador, que nos arremessa a lugares incomuns).

O problema é que esse universo de referências logo se esgota – na verdade, parece ter se esgotado antes do começo do disco. Sei que estou quase sozinho nesta, mas El Camino me parece um retrocesso na trajetória do Black Keys: um álbum mais de conforto (e confirmações) que de aventuras verdadeiras – para mimar os fãs e (este é o último trocadilho automobilístico do dia, prometo) manter os pneus girando.

Sétimo disco do Black Keys. 11 faixas, com produção de Danger Mouse. Nonesuch Records. 58 

11 comentários em “♪ | El Camino | The Black Keys

    Adalberto disse:
    dezembro 5, 2011 às 10:25 pm

    É verdade, Tiago, o disco é redondinho demais para o meu gosto…
    As canções são formulaicas, forjadas para agradar os fãs (eu era um, mas não caí nessa), as letras tem um personagem sem destino específico, onde ele tenta a todo custo se mostrar “cool”, mas sem nada de notável para admirá-lo.

    Flávia Silveira disse:
    dezembro 6, 2011 às 1:33 am

    Gosto muito de Black Keys e ouvi esse disco novo acho que duas, três vezes. Mesmo assim, nessas poucas vezes, me peguei pensando que algumas músicas são perfeitas para trilha sonora de cenas com mulheres com pouca roupa lavando carros em câmera lenta. Sei lá, viu. Sei lá.

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 6, 2011 às 2:09 pm

    Hahaha. Bem observado, Flávia.

    Pois é, Adalberto, também não comprei não.

    Diego Maia disse:
    dezembro 7, 2011 às 12:01 am

    Todos os fãs de Black Keys que conheço ou detestaram ou acharam o disco o mais fraco da banda. Não é disco pra fãs. É disco pra conseguir mais fãs.

    Tiago respondido:
    dezembro 7, 2011 às 12:30 am

    Engraçado, Diego, até agora não li nenhum comentário negativo sobre o disco. E, quando ele vazou na web, as reações de entusiasmo foram quase unânimes… Mas pode ter sido impressão minha, porque realmente não conheço mtos fãs da banda.

    Mas não acho que o disco vá conquistar muitos novos fãs. Quem curtia o gênero possivelmente já conhecia a banda.

    Diego Maia disse:
    dezembro 7, 2011 às 1:17 am

    Eu acho que, por ser um disco mais polido, mais fácil, ele acabará aumentando a popularidade da banda. Parece calculado pra isso até. Por mais que seja anódino, tem bastante apelo pop. Eu era um dos que curtiram bastante quando ouviram da primeira vez, muito porque acho Lonely Boy irresistível, mas o todo não me desce mais.

    Só não me decepcionei. Nunca fui grande fã.

    Pedro Primo disse:
    dezembro 7, 2011 às 1:18 am

    O disco tem boa resposta de público sim. No Rate Your Music o disco está em quadragésimo quarto na lista de 2011, o que é bem alto. O anterior, ficou em décimo oitavo. Dando uma olhada na blogsfera (e naqueles blogs em que acontece de tudo menos crítica) dá pra ver uma boa aceitação do álbum. Sem falar do twitter, onde choveu elogios.

    Acho que ele tem das duas coisas: isca para novos fãs e acomodação pros que já eram fãs do Brothers.

    Felipe Queiroz disse:
    dezembro 7, 2011 às 4:06 pm

    mais do mesmo, e o mesmo é passageiro. não fede e nem cheira

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 7, 2011 às 6:12 pm

    E eu jurando que seria o único a detonar o disco… Olha aí, eu tava enganado.

    Felipe Queiroz disse:
    dezembro 7, 2011 às 7:16 pm

    somos os seus leitores, estamos acostumados a coisas de alto nível ;D

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 8, 2011 às 8:12 pm

    Hahaha, valeu, Felipe!

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