Dia: dezembro 5, 2011

♪ | El Camino | The Black Keys

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O novo do Black Keys divide com Wasting Light, do Foo Fighters, o título de disco de rock mais eficiente de 2011. Muito bem sucedido em cumprir metas de produtividade (11 hits atléticos e esbeltos, compactados em 37 minutos de duração) e atento aos anseios da clientela (que, como de costume, quer se divertir à beça com as atualizações de um produto testado/aprovado), El Camino soa como um carango oldie & sexy com painel de controle computadorizado: em hipótese alguma vai aquecer/esfriar além do permitido; nunca nos deixará na mão.

Nem nos matará de tédio. Hoje cedo, fiz o test-drive enquanto fazia o trajeto de ônibus entre o Aeroporto de Guarulhos e o terminal de metrô de Tatuapé. Uma viagem de 40 minutos, que me deu a chance de ouvir o disco on the road, entre carros e caminhões, num cenário urbano (mas ainda sem os excessos da região central de São Paulo) que zunia em verde e cinza. Nesse contexto, essa música me pareceu ainda mais mecânica – tão calculadamente sensual quanto as fotografias que apareciam de vez em quando nos outdoors à beira da estrada.

A produção pragmática de Danger Mouse (um Butch Vig com alguma sensibilidade para a soul music) continua a servir muito bem a essa busca por canções exatas, perfeitas – mas cá estamos falando de uma ideia de perfeição acetinada, superficial – que nos remete, por exemplo, ao David Fincher de O Curioso Caso de Benjamin Button (e não ao Fincher de Zodíaco).

Brothers, o anterior, era mais longo, mais aventureiro e um pouco menos previsível. El Camino, o primo caipirão, hiperativo e machinho, nos ataca frontalmente, com um set de canções que fazem com o songbook do White Stripes o que, digamos, o Offspring fazia com o do Nirvana: uma filtragem dos elementos mais comerciais e potentes, à serviço da nossa diversão (sem complicações).

E é um disco divertido. Os chapas do Black Keys, como acontecia nos álbuns anteriores, se comportam como autores competentes de pulp fiction. Em cada verso, eles usam uma série de recursos estilísticos para mostrar que não estão aqui só para reutilizar fórmulas (cada música tem um ou outro detalhe, uma linha de guitarra ou um sintetizador, que nos arremessa a lugares incomuns).

O problema é que esse universo de referências logo se esgota – na verdade, parece ter se esgotado antes do começo do disco. Sei que estou quase sozinho nesta, mas El Camino me parece um retrocesso na trajetória do Black Keys: um álbum mais de conforto (e confirmações) que de aventuras verdadeiras – para mimar os fãs e (este é o último trocadilho automobilístico do dia, prometo) manter os pneus girando.

Sétimo disco do Black Keys. 11 faixas, com produção de Danger Mouse. Nonesuch Records. 58 

[orhan pamuk]

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Imaginemos que um autor escreve uma autobiografia na primeira pessoa do singular e o faz com absoluta honestidade, assegurando-se de que todos os detalhes de sua vida, centenas de milhares de detalhes, são fiéis a sua experiência de vida. E imaginemos que um editor esperto lance o livro como um “romance” (existem muitos editores espertos capazes disso). Tão logo esse livro é chamado de romance, passamos a lê-lo de maneira muito diferente da pretendida pelo autor. Começamos a procurar um centro, a perguntar-nos sobre a autenticidade dos detalhes, que parte é real, que parte é imaginada. Assim agimos porque lemos romances para sentir essa alegria, esse prazer de buscar o centro (da narrativa) – assim como para especular sobre o conteúdo real dos detalhes e para nos perguntar quais são fruto da imaginação e quais se baseiam na experiência.

Agora devo dizer que essa grande alegria de escrever e ler romances é dificultada ou ignorada por dois tipos de leitor:

1. O leitor totalmente ingênuo, que sempre lê um texto como uma autobiografia ou como uma espécie de crônica disfarçada de experiência vivida, não importando quantas vezes você diga a ele que está lendo um romance.

2. O leitor totalmente sentimental-reflexivo, que acha que todo texto é constructo e ficção, não importando quantas vezes você diga a ele que está lendo sua mais franca autobiografia.

Devo alertá-los para que mantenham distância dessas pessoas, pois elas são imunes às alegrias de ler romances.

[Trecho do livro O romancista ingênuo e o sentimental, de Orhan Pamuk]