Mês: novembro 2011

Os filmes da minha vida (8)

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Er… Boa noite?

Depois de uma temporada de (sejamos dramáticos) absoluto desencanto com este blog, este redator aflito volta ao ringue para mais um capítulo da incrível, implacável saga dos 100 filmes que… estiveram lá.

Para refrescar as vossas memórias, explico as regras do campeonato: 1. este é um ranking subjetivo, particular, cheio de idiossincrasias, que não reúne os melhores filmes nem os mais importantes/influentes, mas aqueles que acabaram pontuando a minha vida (pro bem e pro mal); 2. a ideia é postar um capítulo por semana, mas (como vocês perceberam) isso nem sempre será possível; 3. Se os amigos leitores quiserem colaborar com links para download dos filmes, a caixa de comentários está aqui pra isso.

Nos próximos dias, vou tentar retormar as atividades deste blog, espantando os ácaros do meu teclado e, quem sabe, escrevendo algo digno de algum respeito. Sei não (estou usando apenas 10% da minha capacidade intelectual, acreditem), mas vejamos.

086 | Não amarás | Krótki film o milosci | Krzysztof Kieslowski | 1988

Os filmes de Kieslowski foram tão importantes para a minha adolescência quanto os episódios de Os Simpsons e os discos do Nirvana (lembro de, no auge da minha rebeldia, ter matado uma aula de inglês para ver A liberdade é azul no cinema), mas, olhando para trás, sinceramente não sei se foi proveitoso ter crescido no período em que o polonês virou astro em festivais internacionais. Na época, não entendi metade dos longas que ele dirigiu (A dupla vida de Véronique ainda me parece um enigma), e acredito que a maior parte tenha sido feita para um público não tão imaturo quanto eu era nos anos 1990. Uma exceção: minha ingenuidade fez de Não amarás uma experiência audiovisual ainda mais inquietante. E o diretor, de algum modo, explicava a forma como eu, um garoto muito tímido, via o cinema: um caso de amor platônico através de janelas indiscretas.

085 | A mosca | The fly | David Cronenberg | 1986

Durante a pré-adolescência, minha fixação por filmes de horror era provocada por slasher movies: Freddy Krueger, Jason – todos os outros maníacos com sérias necessidades especiais – eram meus heróis, talvez porque os mocinhos oficiais não me inspirassem muitos sentimentos além do tédio. Ainda que meu estômago fosse bem resistente, eu não estava pronto para A mosca, que me apresentou um tipo de horror muito mais medonho, mais desagradável – e intenso, já que sem a aparência de uma brincadeira para meninos malcriados. Revi recentemente e ele (ufa) seguiu provocando o bom e velho mal estar, com cenas de degeneração física e psicológica que explicitam boa parte do projeto de cinema de Cronenberg. A partir dele, o cineasta entraria na lista dos meus diretores favoritos, onde permanece firme e forte.

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cine | George Harrison: Living in the Material World

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Já quase na metade deste documentário dirigido por Martin Scorsese, acabei lembrando da revolta de uma espectadora que saiu bufando de uma sessão de Shine a light. “Mas é só um show!”, era o que ela dizia. Pois bem, caro leitor: talvez você encontre alguém esbravejando algo parecido contra este Living in the material world (A). “Mas é só um documentário musical!” (e já consigo imaginar a cena).

É que este filme sobre o beatle George vem com mais um argumento a favor da hipótese (in progress) de que os documentários de Scorsese são mais traiçoeiros – e difíceis, digamos – que as ficções do cineasta. Talvez porque pareçam simplérrimos, tão ou mais didáticos que aquele típico perfilzão jornalístico em que a gente tropeça de vez em quando nos canais de tevê a cabo. Living in the material world, aliás, estreou na HBO americana.

O acabamento do longa é de uma discrição, de uma polidez quase irritantes (adjetivos que também servem aos docs musicais The last waltz e No direction home). Mas se cercar das convenções (muito envelhecidas) de um gênero talvez faça parte de um jogo mais sutil, já que essas narrativas cristalinas estão sempre mirando personagens “embaçados”, complexos, que não se deixam enquadrar.

Daí que, mesmo quando convida uma dúzia de diretores de fotografia para captar os melhores ângulos de uma apresentação dos Stones (em Shine a light), é como Scorsese soubesse que uma química invisível não será captada pelas lentes (no caso, a faísca que provoca a performance mágica de Jagger e Richards).

No retrato de George Harrison, esse olhar bem sóbrio (posso dizer que também pragmático, posso?) faz ainda mais sentido: já que, como um dos entrevistados conta ao diretor, o próprio músico tentava criar no “mundo material” um ambiente tão sublime quanto aquele que imaginava existir no “mundo espiritual”. E não é esse clique-de-ilusão que se dá quando um documentário tão terreno se deixa contagiar por um homem cheio de mistérios?

(E também cheio de contradições: cercado de amigos, mas com fama de recluso; praticante de meditação e corridas de carros; apaixonado tanto pelo pop comercial quanto pela tradição musical-mística dos indianos; respeitoso em relação a assuntos da fé, mas um dos maiores fãs do humor iconoclasta do Monty Python etc)

A imagem que remete mais diretamente a esses paradoxos é o jardim de Harrison, o “paraíso particular” criado pelo compositor. Não é por acaso que o filme abre e fecha em meio a flores. É biografia direta, informativa (e frontal até nos momentos de comoção, porque as colagens visuais que acompanham um Here comes the sun, por exemplo, têm função de catarse mesmo), é só um documentário musical. Só que também transcendental – de uma forma que talvez nem o próprio George Harrison seria capaz de explicar.

[paula fox]

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Desmond curvou a cabeça. Clara se perguntou se ele iria escorregar da cadeira para o chão, desmaiar no tapete. Ele mal parecia estar vivo, curvado na cadeira, o rosto escondido, as mãos de dedos grossos pousadas nas coxas. Ela nunca o tinha visto tão bêbado, tão passado, em nenhum dos restaurantes e quartos de hotel em que o encontrara ao longo dos anos. Mas a mãe, afora uns poucos apartes musicais sobre a incrível “confusão mental” dele, não prestava muita atenção a Desmond. Talvez fosse aquilo o que ela chamava de “ser melhor” com ele. Assim tinha dito a Clara por volta de um ano antes numa conversa telefônica. Oh, ela estava ficando melhor, dissera, mais sensata do que jamais tinha sido com Ed e suas bebidas, aprendendo a deixar os homens em paz. “Você não pode salvar um bêbado da bebida”, ela havia dito, “você não pode salvar ninguém de coisa alguma.”

Clara supunha que não se podia salvar quem quer que fosse, não em quartos de hotel, lugares que não pertenciam a ninguém, lugares de interrupção, de imunidade diante da vida comum, onde o espírito se abate, fica desolado, gélido, mas a carne se inflama, incandescente, excitada pelo odor da licenciosidade que parece emanar da cama, do banheiro, do travesseiro de qualquer um, do abrigo espúrio de todo mundo.

Trecho do livro Os filhos da viúva, de Paula Fox

Mixtape! | Finest worksongs

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Este blog passa por um período complicado, vocês devem ter percebido. Não sei muito bem o que fazer dele. Deve ser uma crise passageira – talvez este blogueiro esteja passando por uma fase de cansaço, não é um período muito tranquilo na vida do sujeito. Todo post que tento escrever me parece uma bobagem. A única medida a ser tomada neste momento, creio eu, é ter paciência.

Estive pensando que seria melhor se este blog voltasse a ser um pouco o que era no início: um sitezinho muito pessoal, pros amigos. Uma espécie de caderno de notas, e nada além disso. Vamos ver o que acontece.

Ouvi muitos CDs, mas acho até que perdi um pouco o ritmo das resenhas – talvez eu escreva um post juntando todos eles, mas ainda não sei como ou quando. Um desses discos que ouvi foi a coletânea do REM. É um álbum duplo, muito longo, muito bom, mas que me deixa um pouco com preguiça. Além disso, senti falta, no repertório, de algumas das minhas canções preferidas da banda.

Quando eles anunciaram a separação, há alguns meses, não me abalei muito. Mas, depois que li algumas entrevistas com a banda e ouvi a coletânea, comecei a sentir falta deles. Acho que sempre foi um dos meus grupos prediletos (os acompanho desde os 10-11 anos de idade), ainda que eu tenha tentado me convencer do contrário quando ouvia os discos mais recentes que eles lançaram.

Hoje, na véspera de viajar novamente para São Paulo (onde vou passar um fim de semana), resolvi preparar uma mixtape muito improvisada (e não tão exaustiva) para ouvir no aeroporto, com 12 faixas que me conectam ao REM, que me deixam com saudade do quarteto. O plano é simples, e é esse – as minhas Finest worksongs: uma viagem pessoal ao vasto-vasto mundo do REM.

Como costuma acontecer nessas minhas coletâneas domésticas, o CDzinho talvez diga mais sobre mim do que sobre as músicas que foram reunidas. Dei preferência aos discos de que mais gosto, e ignorei outros tantos. A ideia não é mapear coisa alguma – e, para quem quiser conhecer um pouco mais sobre o grupo, sugiro o disco duplo que eles acabaram de lançar.

Por se tratar de uma banda grande, que lança discos por uma gravadora poderosa, sugiro que os interessados no mix não esperem para fazer o download. A lista de músicas está na caixa de comentários.

Prometo voltar logo mais com o top de Filmes da Minha Vida e outras atrações (só não me pergunte o que).

Faça o download da mixtape aqui.

[michael stipe]

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Se vocês tinham quase certeza de que a turnê de 2008 seria a última da banda, então sabiam que Collapse into now seria o último disco?

Bem, agora finalmente podemos falar sobre o tema do disco e sobre o que estava acontecendo. Teve um crítico de música que disse: “Sinto falta de alguma coisa neste disco, mas não sei o que é”, e ele estava falando sobre temas. Acho que ele estava dizendo, consciente ou inconscientemente, que os discos do R.E.M. sempre têm um tema – fogo e água; sexo em Monster, e eles são óbvios. Mas o tema daquele disco não tinha ficado claro imediatamente para ele. Eu sempre penso que sou incrivelmente óbvio, e não sou (risos). Para mim, tematicamente aquele era a despedida mais grandiosa, e a mais óbvia.

Olhando para o disco agora, você está acenando adeus na capa.

Estou dando adeus, sim. Mas nós estamos na capa! O R.E.M. nunca havia aparecido na capa de um disco. E tem a canção All the best

O desfecho de Blue, que se conecta a Discoverer, fecha um círculo que nos leva de volta a começo do disco.

Sim, e faz referência a Fables of the reconstruction. É aquela história cíclica: o fim é o começo, o começo é o fim. Discoverer é uma canção autobiográfica sobre as minhas experiências em Nova York aos 19 anos de idade. E fecha com Patti Smith, que foi onde tudo começou. Espero que tenha deixado a impressão de uma despedida muito bonita, o disco.

Entrevista de Michael Stipe ao Salon.com. Íntegra aqui.

Os filmes da minha vida (7)

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Após um intervalo angustiante (para mim, é claro), voltamos a acompanhar o bonde dos 100 filmes que, por um ou outro motivo, marcaram a vida deste blogueiro (ligeiramente) saudosista.

Mais duas belezinhas para a sua mesa de cabeceira, portanto. Só agora me dei conta da coincidência que existe entre os longas-metragens deste capítulo: um fala sobre o início de um amor; o outro, sobre o fim.

088 | A primeira noite de um homem | The graduate | Mike Nichols | 1967

Não é um filme que eu veria novamente – porque, quando o vi pela primeira vez, aos 17, me parecei muitíssimo familiar. Era como se eu tivesse assistido àquelas imagens desde pequeno, picotadas e reordenadas em outros filmes, em seriados, em anúncios de tevê. Mas, além da naturalidade como filma um tema que me deixava hipnotizado naquela época (a adolescência, o tema preferido de 90% dos adolescentes), lembro principalmente de um filme que corria na tela com uma leveza graciosa; tão adorável que, após a última cena, voltei o DVD para sentir um pouco daquela alegria novamente. Mas eu era um garoto na época; minha opinião sobre o que vi, portanto, não é lá muito confiável.

087 | Nós não envelheceremos juntos | Nous ne vieillirons pas ensemble | Maurice Pialat | 1972

Um filme que vi há pouco tempo, num período complicado de separação, e que veio a mim não como um espelho – apesar de ser um longa sobre um caso de amor degenerado, condenado -, mas como a imagem de sujeito velho, muito experiente, que precisava me dizer algumas palavrinhas cruéis sobre a forma como as pessoas às vezes se relacionam. A secura da trama me perturbou por algum tempo, tanto que acabei cancelando a ideia de uma revisão. As atuações me impressionam sempre que lembro delas. Hoje, depois do turbilhão, talvez eu veja um filme diferente daquele que vi: menos sobre a minha vida, mais sobre algo que diz respeito a mais gente, talvez a muitos de nós.

mostraSP | Dias 11 a 14

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Aqui termina o meu diário da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Infelizmente (ou felizmente, dependendo do seu ponto de vista), são curtos os parágrafos sobre os últimos filmes que vi no festival. Tenho muito a dizer sobre cada um deles, mas pouco tempo. No mais, começo a achar que os posts desta série provocam certo cansaço até no leitor mais dedicado deste blog.

Portanto, rapidinho: as cotações ainda vão da letra D (de desagradável, digamos), à letra A+ (de absolutamente mágico, digamos). Além dos filmes que estão neste post, ainda assisti à cópia restaurada de Despair (1978), de Fassbinder, e à cópia encardida de Meu amigo Ivan Lapshin (1986), de Aleksei German. Não escreverei sobre esses filmes porque me sinto pequeno/burro perto deles. Logo após os comentários vocês encontram a meu top 10 da Mostra.

Fausto | Faust | Alexander Sokurov | A | Na primeira hora de projeção, a lenda de Fausto é narrada com a agilidade de uma aventura medieval. Parece o filme mais direto de Sokurov. Mas, ao enevoar progressivamente a trama, o cineasta nos mergulha no pesadelo do personagem – e, para quem não estiver disposto às comparações com a obra de Goethe, o filme pode ser visto simplesmente como uma caminhada para a perdição (por trilhas cada vez mais estreitas e difíceis), na companhia de um diabo cínico e encenada dentro de algums das imagens mais delirantes, mais impressionantes, que o cineasta já compôs. Mais ou menos como acontecia com o Tarantino de Bastardos inglórios, Sokurov cria o filme com a intenção quase declarada de compor uma obra-prima. Não acredito que chegue a tanto, mas não dá para acusar o diretor de negar fogo diante de ambições tão gigantescas. Resultado da odisseia: um filme acessível como nenhum outro do cineasta – e misterioso, estranho como qualquer um que já dirigiu. Escolha corajosa do júri de Veneza.

Caverna dos sonhos esquecidos | Cave of forgotten dreams | Werner Herzog | B | Um bom doc do History Channel, que cresce quando Herzog se livra das amarras do formato e divaga sobre as origens da arte. A exibição em 3D, adequada ao tema do longa, transformou o filme numa das atrações principais da Mostra de SP. Mas não é para tanto: ele não me parece singular ou forte, por exemplo, como um Homem-urso.

Um mundo misterioso | Un mundo misterioso | Rodrigo Moreno | B | Nada importante acontece, quase sempre graciosamente. Mais bem humorado e menos frustrante que O guardião, o anterior do cineasta.

Tudo pelo poder | The ides of march | George Clooney | B | Um conto político à americana: ágil, fun, um tanto simplório (e o título em português poderia ser Tudo por uma boa reviravolta de roteiro), but it works, it does. No elenco, todos os homens de Steven Soderbergh.

O dominador | Cho-neung-nyeok-ja | Kim Min-suk | B | Um super-herói boa-praça, um supervilão estressadíssimo, Coreia scores again.

Os contos da noite | Les contes de la nuit | Michel Ocelot | C+ | Animação com estilo (e Ocelot, tal como Sokurov, é dono de uma ilha visual absolutamente particular), mas o tom professoral/pedante da narrativa me afastou um pouco da brincadeira. E o gosto pelo exotismo, raso desse jeito, me parece uma boa intenção apenas superficial.

Projeto Nim | Project Nim | James Marsh | C+ | O diretor de O equilibrista acompanha a dura vida de um chimpanzé (submetido a pesquisas científicas e, por fim, abandonado) num doc cujo tema interessa mais que o formato: domesticado, quadradíssimo.

Periferic | Bogdan George Apetri | C | Um romeno especialmente romeno, sob medida para festivais de cinema. Na trama, tragédia pouca é bobagem.

Kaidan horror classics | Ayashiki bungo kaidan | Hirokazu Kore-eda, Masayuki Ochiai, Shinya Tsukamoto e Lee Sang | C | Combo televisivo (produzido pela NHK) cheio de limitações. O episódio do Kore-eda é o único que se salva.

País do desejo | Paulo Caldas | D | Momento vergonha-alheia da Mostra. Que diálogos são esses, Brasil?

Os 3 | Nando Olival | D | Cinema publicitário sem culpa (e sem rumo, sem graça, sem brio, sem razão de ser). Felizmente, dura apenas 80 minutos.

Desapego | Detachment | Tony Kaye | D | Um drama sobre o cotidiano em escolas públicas americanas que tenta chocar, tenta emocionar, mas só consegue ser tosco e infantil. Kaye, diretor de American history X, grita ao espectador lições que já conhecemos. Duas opções: encarar o filme como um Entre os muros da escola from hell. Ou abandonar a sala após a cena em que estudantes matam um gatinho a marteladas.

Top 10: Meus favoritos da Mostra de São Paulo

01. Isto não é um filme, de Mojtaba Mirtahmasb e Jafar Panahi
02. The day he arrives, de Hong Sang-soo
03. Fausto, de Alexander Sokurov
04. Histórias da insônia, de Jonas Mekas
05. Habemus papam, de Nanni Moretti
06. O garoto da bicicleta, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
07. Irmãs jamais, de Marco Bellocchio
08. Era uma vez na Anatólia, de Nuri Bilge Ceylan
09. Girimunho, de Clarissa Campolina e Helvecio Marins Jr
10. Las acacias, de Pablo Giorgelli