Dia: novembro 30, 2011

Mixtape! | Novembro, noite e dia

Postado em Atualizado em

Nem estou acreditando, meus amigos: a mixtape de novembro sobreviveu à temporada silenciosa/sangrenta do blog e está aqui, inteirinha, entre nós. E ela é imprevisível, é incrível, é uma guerreira.

E é (tcharam!) diferente das outras.

Talvez vocês não lembrem, mas a coletânea de outubro era (reparem a ambição do blogueiro) uma trilha sonora pra um filme que não foi feito. A deste mês é mais, digamos, convencional: um apanhado de músicas que alegraram meu curto recesso por tempo determinado. 10 faixas, e só.

Tá, não é só isso: também é mais uma das minhas mixtapes lynchianas. É!

Porque, quando reuni todas as músicas, percebi que elas formariam dois EPs – um mais rebolandinho, puxado pro pop/hip-hop, e outro mais guitarrístico. Decidi, então, unir costurar as duas faces da moeda num CD que começa de um jeito (noturno), termina de outro (diurno) e nos surpreende com um solavanco estranho lá na metade. Vocês viram Estrada perdida? É um pouco assim.

Curto muito essa mixtape, de verdade – e acho que vocês deviam fazer o download das musiquinhas em MP3 para ouvi-las nos headphones enquanto caminham no parque. Por isso, desta vez não existe a opção de ouvir o disco aqui no site, em altíssima tecnologia e baixíssima fidelidade. Back to basics, certo?

Dentro do arquivo compactado vocês encontram, nesta ordem, Katy B, Childish Gambino, Thundercat, Drake (que está na foto do post), Beach Boys, Atlas Sound, Los Campesinos, Dum Dum Girls, Charlotte Gainsbourg e Real Estate. A lista de músicas está na caixa de comentários.

Por falar em comentários, não vou ficar pressionando ninguém a escrever opiniões gentis (ou não) sobre a mixtape. Todos estamos muito ocupados com as nossas vidinhas complicadas, né mesmo?

(Tô brincando: tentem comentar qualquer coisinha, ok? Abraço)

Façam o download da mixtape de novembro.

cine | Terraferma

Postado em

O italiano Emanuele Crialese me surpreendeu com Respiro — que é uma masterclass sobre filmar com leveza —, mas foi descendo a montanha com filmes maiores, mais “importantes”, mas que se curvam aos pés dos Grandes Temas. Nos dois casos, a pauta é o drama da migração na Europa.

O anterior, Novo mundo, nos distraía com firulas fellinianas — quando penso nele, tudo o que lembro é de legumes gigantes e de gente boiando numa enorme piscina de leite. Em Terraferma, que competiu em Veneza, nem isso: o que resta é um cineasta bem intencionado, “engajado”, que apela a um sentimentalismo grosseiro para mostrar o sofrimento de africanos que chegam de barco a uma ilha turística perto da Sicília.

Há cenas de beleza gritante, BONITAS (tudo em maiúsculas), com água e barcos. E há sequências que forçam a barra para nos comover. Numa delas, um homem louro enxota com um remo os negros que tentam se salvar de um afogamento. Imagino os produtores do filme usando essas imagens para convencer a Academia de Hollywood a selecionar o longa, que representa a Itália na disputa do Oscar.

Crialese adota o ponto de vista de um rapaz inocente (talvez ingênuo demais), que vive na região e talvez não tenha ainda refletido sobre a truculência como os imigrantes são tratados ali. No filme, africanos são mostrados por um filtro exótico, quando não simplesmente pueril (são anjos caídos numa terra cruel). Talvez o personagem os veja assim. Ou talvez o filme seja tão infantil quanto esse herói.

Eu queria acreditar que o garoto não é apenas um veículo para os comentários sociais (óbvios, óbvios) do diretor. Será que não? Aos 20 minutos de projeção, minha vontade era de mandar um SMS para o Crialese com o seguinte texto: “sim, eu conheço o problema e sim, concordo que a situação não é fácil; você tem o direito, portanto, a não ser assim tão didático na próxima vez.”

(Itália/França, 2011). De Emanuele Crialese. Com Filippo Pucillo, Donatella Finocchiaro e Beppe Fiorello. 88min. C