Dia: novembro 26, 2011

Os filmes da minha vida (8)

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Er… Boa noite?

Depois de uma temporada de (sejamos dramáticos) absoluto desencanto com este blog, este redator aflito volta ao ringue para mais um capítulo da incrível, implacável saga dos 100 filmes que… estiveram lá.

Para refrescar as vossas memórias, explico as regras do campeonato: 1. este é um ranking subjetivo, particular, cheio de idiossincrasias, que não reúne os melhores filmes nem os mais importantes/influentes, mas aqueles que acabaram pontuando a minha vida (pro bem e pro mal); 2. a ideia é postar um capítulo por semana, mas (como vocês perceberam) isso nem sempre será possível; 3. Se os amigos leitores quiserem colaborar com links para download dos filmes, a caixa de comentários está aqui pra isso.

Nos próximos dias, vou tentar retormar as atividades deste blog, espantando os ácaros do meu teclado e, quem sabe, escrevendo algo digno de algum respeito. Sei não (estou usando apenas 10% da minha capacidade intelectual, acreditem), mas vejamos.

086 | Não amarás | Krótki film o milosci | Krzysztof Kieslowski | 1988

Os filmes de Kieslowski foram tão importantes para a minha adolescência quanto os episódios de Os Simpsons e os discos do Nirvana (lembro de, no auge da minha rebeldia, ter matado uma aula de inglês para ver A liberdade é azul no cinema), mas, olhando para trás, sinceramente não sei se foi proveitoso ter crescido no período em que o polonês virou astro em festivais internacionais. Na época, não entendi metade dos longas que ele dirigiu (A dupla vida de Véronique ainda me parece um enigma), e acredito que a maior parte tenha sido feita para um público não tão imaturo quanto eu era nos anos 1990. Uma exceção: minha ingenuidade fez de Não amarás uma experiência audiovisual ainda mais inquietante. E o diretor, de algum modo, explicava a forma como eu, um garoto muito tímido, via o cinema: um caso de amor platônico através de janelas indiscretas.

085 | A mosca | The fly | David Cronenberg | 1986

Durante a pré-adolescência, minha fixação por filmes de horror era provocada por slasher movies: Freddy Krueger, Jason – todos os outros maníacos com sérias necessidades especiais – eram meus heróis, talvez porque os mocinhos oficiais não me inspirassem muitos sentimentos além do tédio. Ainda que meu estômago fosse bem resistente, eu não estava pronto para A mosca, que me apresentou um tipo de horror muito mais medonho, mais desagradável – e intenso, já que sem a aparência de uma brincadeira para meninos malcriados. Revi recentemente e ele (ufa) seguiu provocando o bom e velho mal estar, com cenas de degeneração física e psicológica que explicitam boa parte do projeto de cinema de Cronenberg. A partir dele, o cineasta entraria na lista dos meus diretores favoritos, onde permanece firme e forte.

cine | George Harrison: Living in the Material World

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Já quase na metade deste documentário dirigido por Martin Scorsese, acabei lembrando da revolta de uma espectadora que saiu bufando de uma sessão de Shine a light. “Mas é só um show!”, era o que ela dizia. Pois bem, caro leitor: talvez você encontre alguém esbravejando algo parecido contra este Living in the material world (A). “Mas é só um documentário musical!” (e já consigo imaginar a cena).

É que este filme sobre o beatle George vem com mais um argumento a favor da hipótese (in progress) de que os documentários de Scorsese são mais traiçoeiros – e difíceis, digamos – que as ficções do cineasta. Talvez porque pareçam simplérrimos, tão ou mais didáticos que aquele típico perfilzão jornalístico em que a gente tropeça de vez em quando nos canais de tevê a cabo. Living in the material world, aliás, estreou na HBO americana.

O acabamento do longa é de uma discrição, de uma polidez quase irritantes (adjetivos que também servem aos docs musicais The last waltz e No direction home). Mas se cercar das convenções (muito envelhecidas) de um gênero talvez faça parte de um jogo mais sutil, já que essas narrativas cristalinas estão sempre mirando personagens “embaçados”, complexos, que não se deixam enquadrar.

Daí que, mesmo quando convida uma dúzia de diretores de fotografia para captar os melhores ângulos de uma apresentação dos Stones (em Shine a light), é como Scorsese soubesse que uma química invisível não será captada pelas lentes (no caso, a faísca que provoca a performance mágica de Jagger e Richards).

No retrato de George Harrison, esse olhar bem sóbrio (posso dizer que também pragmático, posso?) faz ainda mais sentido: já que, como um dos entrevistados conta ao diretor, o próprio músico tentava criar no “mundo material” um ambiente tão sublime quanto aquele que imaginava existir no “mundo espiritual”. E não é esse clique-de-ilusão que se dá quando um documentário tão terreno se deixa contagiar por um homem cheio de mistérios?

(E também cheio de contradições: cercado de amigos, mas com fama de recluso; praticante de meditação e corridas de carros; apaixonado tanto pelo pop comercial quanto pela tradição musical-mística dos indianos; respeitoso em relação a assuntos da fé, mas um dos maiores fãs do humor iconoclasta do Monty Python etc)

A imagem que remete mais diretamente a esses paradoxos é o jardim de Harrison, o “paraíso particular” criado pelo compositor. Não é por acaso que o filme abre e fecha em meio a flores. É biografia direta, informativa (e frontal até nos momentos de comoção, porque as colagens visuais que acompanham um Here comes the sun, por exemplo, têm função de catarse mesmo), é só um documentário musical. Só que também transcendental – de uma forma que talvez nem o próprio George Harrison seria capaz de explicar.