cine | Não tenha medo do escuro

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Não consigo lembrar de outro remake de horror recente que tenha nascido de um projeto tão pessoal: Não tenha medo do escuro é uma tentativa de recriar um telefilme de 1973 que despertou em Guillermo del Toro, então com nove anos de idade, o desejo de se realizar filmes de fantasia. A proximidade entre o cineasta e o longa-metragem era (e é) tão intensa que, talvez por isso, del Toro tenha preferido delegar a função de diretor a um estreante, Troy Nixey, e tomar para si a responsabilidade pelo roteiro (escrito também por Matthew Robbins) e pela produção. Entendo o receio do diretor: o excesso de nostalgia e sentimentalismo, no caso de reencontros com filmes que amamos, pode ser mesmo fatal.

No mais, se era esse o plano, ele funciona: não é uma refilmagem excessiva, extravagante. Pelo contrário. Parece ter sido dirigida por um calouro que passou o semestre estudando o estilo de del Toro – acima de tudo, a cumplicidade como vai à imaginação infantil, sem encarar os personagens com ar de superioridade. A câmera de Nixey (como acontecia em O labirinto do fauno, por exemplo), está até um pouco aquém da protagonista, uma menina que responde às ameaças medonhas com reações valentes, curiosas, que nos surpreendem (e às vezes nos fazem pensar: eu não teria a coragem). Uma menina talvez frágil, inocente demais para ser considerada uma super-heroína; mas vítima, nunca.

O filme posiciona essa personagem num mundo que é também típico de del Toro, um cineasta que prefere um horror mais, digamos, mitológico (povoado por fábulas, lendas) às fórmulas de slasher movies (as fitas de serial killers monstruosos) ou dos thrillers assombrados por espíritos malvados (os dois maiores clichês do gênero, e os que estão mais em voga atualmente). Não tenha medo do escuro não é uma coisa nem outra e, por isso, parece até datado, errado. Quando os vilões finalmente se revelam às câmeras, o espectador é obrigado a tomar uma decisão: ou abandona o filme por completo (sem pipoca nem fé), ou entra (receoso, porque não há outro jeito) no parquinho temático de del Toro.

O que parecia um joguinho singelo de horror, a partir daí, se transforma numa experiência um pouco mais sofisticada, já que alterna dois pontos de vista (o do diretor, mais pragmático, e o de del Toro, mais lúdico) e duas formas de lidar com o gênero (uma “caduca”, B, outra mais contemporânea, toda demarcada por efeitos grosseiros de som e CGI). E são essas tensões que deixam o espectador sempre às escuras, mesmo quando ele deixa de acreditar no que vê na tela e passa a assistir ao espetáculo como uma criança já crescida, sem tantas ilusões e já familiarizada a muitos dos lugares-comuns do gênero. De uma forma ou de outra, este aqui tem minha defesa: uma pequena fábula de terror para crianças corajosas de nove anos de idade.

13 comentários em “cine | Não tenha medo do escuro

    Ailton Monteiro disse:
    outubro 18, 2011 às 2:17 am

    Belo texto. Eu fui assistir ao filme sem saber nada. Não sabia nem que se tratava de um remake e muito menos da relação de carinho de Del Toro para com o original, que agora eu fiquei interessado em ver.

    Mas que o filme é a cara do Del Toro, não há como negar. E quando penso em O LABIRINTO DO FAUNO, eu fico pensando: será que o filme não seria ainda melhor se ele tivesse assumido a direção? De todo modo, do jeito que ficou, tá bom demais.

    Tiago respondido:
    outubro 18, 2011 às 2:54 am

    Acho que o filme é a cara dele sim, Ailton. Mas acho bem curiosa a decisão dele de tomar um certo distanciamento (mas distanciamento relativo, já que ele escreve o roteiro e produz) de um projeto que diz tanto a ele. Mas acho que foi a opção correta, viu, porque o diretor mantém o filme “com os pés no chão”, por assim dizer, dentro de limites que são típicos do telefilme que inspirou o del Toro. A ideia era ser um filme “pequeno”, talvez o del Toro na direção tivesse o deixado grande demais

    Ailton Monteiro disse:
    outubro 18, 2011 às 3:38 am

    É.. Talvez… Mas sei lá: o Del Toro sempre se sai melhor em projetos mais ambiciosos artisticamente do que nos filmes de encomenda.

    Marcelo (@marcelosgb) disse:
    outubro 18, 2011 às 5:46 am

    os bonecos dos filmes de terror do anos 80 conseguem ser mais assutadores que esses feitos digitalmente.
    O caseiro todo fudido e mesmo assim os personagens tratam isso como uma coisa normal.
    A garota enche o saco do pai durante todo o jantar e quando esmaga um bicho ela simplesmente esquece de contar isso. E diante de umas 10 pessoas.
    Cade a camera digital dessa família?????
    tem como isso ser bom não…hehehehe

    Tiago Superoito respondido:
    outubro 18, 2011 às 10:55 am

    Sobre o caseiro e a cena do jantar (que, aliás, eu acho ótima; tem um humor ali que aparece de surpresa, mais um dos traços inusitados do filme): acho que você tá cobrando um lance realista que o filme não quer oferecer.

    Ailton Monteiro disse:
    outubro 18, 2011 às 11:18 am

    Dessas coisas que ela citou, a única que me incomodou foi mesmo o lance do bicho esmagado, que serviria como prova. Mas o filme quer mesmo deixar as criaturas no campo do mito, longe de qualquer evidência científica.

    Ailton Monteiro disse:
    outubro 18, 2011 às 11:18 am

    Digo, dessas coisas que ele (o Marcelo) citou…

    Tiago Superoito respondido:
    outubro 18, 2011 às 11:19 am

    Sim, Ailton, também acho que é por aí.

    rafagoom disse:
    outubro 20, 2011 às 1:09 am

    Não deveria ter lido esse texto, mas né? A visita semanal ao blog é inevitável!
    E que saco que só vou conseguir vê-lo no outro domingo :((

    Adalberto disse:
    outubro 20, 2011 às 1:50 am

    Estou baixando, e taí o link…

    http://www.multiupload.com/IC70NQSXZX

    Adalberto disse:
    outubro 20, 2011 às 2:10 am

    Tiago, adoro este tipo de filme, e com esse texto, você me deixou com água na boca para assisti-lo.
    Na minha cidade, nem sei quando vai estrear.Ai então, não resisti, procurei para baixar e o achei…
    Não vou deixar de ve-lo, quando chegar no cinema da minha cidade.
    Mas, valeu por nos deixar tão ansiosos, Tiago…kkkkkkk…

    Adalberto disse:
    outubro 20, 2011 às 3:25 pm
    Isidoro H Jr. disse:
    outubro 31, 2011 às 11:44 am

    Eu tenho o filme original em VHS, preciso procurar nas catacumbas da minha garagem – a fala sussurada é igual e a frase final também : Nós temos todo o tempo do mundo! Belo tributo a um dos melhores filmes de supense que já assisti

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