Enough thunder | James Blake

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No “day after” do fim do R.E.M., li uma entrevista com a banda que explicou praticamente tudo o que eu precisava saber sobre a fase final do trio. Eles explicaram (à Rolling Stone americana) que o grupo pretendia encerrar a carreira após o lançamento de Around the sun, de 2004. Mas a reação negativa da maioria dos críticos serviu de estímulo para que a banda se desafiasse a voltar ao estúdio e a concluir a narrativa num tom menos decadente.

Eu não diria que Accelerate (2008) e Collapse into now (2011) são grandes discos, mas eles estão aí para nos mostrar como, para certos artistas, as expectativas do “júri qualificado” (e aí incluo não só jornalistas, mas blogueiros, fãs mais dedicados, tuiteiros com centenas de milhares de seguidores) podem se tornar determinantes para a criação. Os últimos discos do R.E.M., agora ficou ainda mais claro, tentam reafirmar um status, uma posição de prestígio; como quem, após um fracasso de bilheteria, cobra para si um Oscar pelo conjunto da obra.

Me pergunto: o que teria acontecido se o R.E.M. (e isso também vale para outras bandas preocupadíssimas em se manter “elogiáveis” e populares, como o U2 e o Coldplay) tivesse decidido seguir um itinerário autônomo, particular, sem se importar exageradamente com a opinião de quem entende (ou acha que entende) de arte? Desconfio que teríamos discos talvez errados e estranhos, sem os confortos de um Collapse into now – e talvez discos mais duráveis, que guardaríamos na memória por mais tempo.

Talvez eles teriam saído mais ou menos como Enough thunder, um EP de seis faixas que (perdoem a heresia) soa mais instigante que qualquer álbum gravado pelo R.E.M. desde New adventures in hi-fi, de 1996.

James Blake, o inglesinho insolente de 23 anos, vai compondo uma trajetória (formada por obras pequenas e grandes) que pode ser lida como um argumento muito decidido, defendido com convicção, a favor de uma arte que se deixe guiar quase exclusivamente pelos desejos e pela sensibilidade de quem a cria – e não pelas vontades de um “júri qualificado”.

A maior parte das resenhas que li sobre o EP de Blake compra uma briga com o músico que, a meu ver, parece inútil. Ao cobrar que o compositor volte a compor faixas mais psicodélicas e cinzentas, com mais “cheirinho de dubstep” (como as que encontramos nos EPs The bells sketch e CMYK), eles se portam como a mãe zelosa, bem intencionada, que tenta convencer o filho de que o curso de engenharia pode ser uma opção mais segura que artes plásticas.

O ponto de vista de Blake me parece menos conservador, e me lembra de um período em que exigiam do Radiohead canções com mais guitarras e menos barulhinhos esquisitos. Em vez de pedir mais músicas com guitarras, mais músicas similares às que foram feitas no passado, não seria mais prático (ao fã, ao crítico) voltar aos discos antigos e ouvi-los novamente? Sempre vale lembrar, portanto, que continua fácil fazer o download de The bells sketch e de CMYK.

No primeiro álbum “completo” da carreira, lançado em janeiro, Blake optou por, em vez de repetir o que havia feito, abrir um capítulo novo. Em vez de se aprofundar num breu dub (mas sem abandoná-lo totalmente), ele preferiu ressaltar a própria voz (triturada por efeitos de estúdio) e melodias escritas ao piano. Enough thunder não apenas confirma essa tomada de posição como evita quase tudo o que se cobra de Blake. É o EP de um singer-songwriter, e não (ou pelo menos não tanto) de um geniozinho da eletrônica.

Com um pouco de atenção, se nota que Blake continua a tratar com detalhismo impressionante toda uma soma de efeitos sonoros que envolve as melodias – as faixas de abertura, Once we all agree e We might feel unsound, nos transportam imediatamente para uma madrugada chuvosa. Aos poucos, no entanto, o disco vai se despindo dessa mise-en-scene, até se mostrar pele-e-osso, numa interpretação vazia (de propósito) para A case of you, de Joni Mitchell.

O único momento em que Blake nos entrega aquilo que queremos dele é também o que soa mais deslocado dentro do EP: a colaboração com Bon Iver em Fall Creek Boys’ Choir. Um single potente, sem dúvida (e mais por “culpa” das interferências sutis de Blake que dos maneirismos de Iver), mas que acaba abalando a atmosfera azulada, à la In the wee small hours, que as músicas anteriores criaram.

As últimas faixas, felizmente, recuperam o tom inicial, de um lento entorpecimento (de um romantismo fora de moda). Not long now se conecta ao disco anterior como uma espécie de cordão umbilical: é uma construção de vidro, que deixa a impressão de uma estrutura simultaneamente frágil (não tem nada lá dentro, acusam os detratores de Blake) e sutil. É aí que Enough thunder dá o adeus definitivo aos clichês do dubstep: o caminho que se toma é outro (e, goste ou não, este som é só dele).

O que me parece tocante nessa história toda é que, mesmo quando nos frustra ao deixar a impressão de que grava esboços de ideias, Blake está seguindo um roteiro à prova de testes de audiência. Fico aqui torcendo para que, nos próximos discos, ele insista nesse plano louco, suicida, de se apresentar ao mundo da forma como bem entende.

EP de James Blake. Seis faixas, com produção de James Blake. Lançamento Atlas Records. 74

4 comentários em “Enough thunder | James Blake

    Adalberto disse:
    outubro 12, 2011 às 5:52 pm

    Taí, porque digo que os teus texos se diferem de todos os outros que existem por aí.
    Mesmo não concordando com alguns parágrafos escritos sobre o R.E.M.(talvez por eu ser um fã bem chato e antiquado), não dá para não ficar impressionado com a querência com o que você descreve este optimo ep do James Blake.
    Já tem pessoas cobrando demais do moléque, e encontro em teu texto um teor que parece paternalista, mas sei que não é.

    Adalberto disse:
    outubro 13, 2011 às 1:41 am

    Me desculpe a falta de COERÊNCIA…kkkkkkkkkkkk…

    Tiago Superoito respondido:
    outubro 13, 2011 às 5:45 pm

    Valeu, Adalberto, obrigado.

    Ricardo disse:
    outubro 14, 2011 às 9:04 pm

    Muito bom o texto e o disquinho! Só discordo, como vc mesmo sabe que haveria discordâncias, com a parte lá do REM, acho o Up ainda bem instigante, um disco lindíssimo, ainda longe da ‘zona de conforto’ que entrariam com força a partir do Reveal.

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