Mês: setembro 2011

[st. vincent]

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Pitchfork: Críticos geralmente apontam o segundo disco como o momento do “agora ou nunca mais”, mas eu sempre achei que os terceiros discos são mais catárticos, porque o artista de repente se vê livre das pressões.

Annie Clark: É, acredito que é parecido com a forma como as pessoas falam sobre os filhos pequenos. Com o primeiro filho, você administra cada detalhe, quer ter certeza de que nenhum fio de cabelo está fora do lugar quando o menino vai à escola. Mas, com o terceiro filho, é mais como “oh, você quer usar essa camisa do Hard Rock Café por sete dias seguidos e não pentear o cabelo? Faça isso. Seja quem você quiser ser.”

(entrevista completa aqui).

express | 43

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Mirror traffic | Stephen Malkmus & The Jicks | 72 | Pode não ser o melhor disco da fase solo de Stephen Malkmus, mas talvez seja o mais sinuoso (mesmo que, à primeira audição, pareça simples): por um lado, a produção de Beck tenta retomar o formato/espírito do Pavement de Wowee Zowee, com uma coleção longa de musiquinhas relaxadas (mas, aluno de Nigel Godrich, ele dá ao disco um polimento soft-rock à la Terror twilight); por outro lado, Malkmus escreve o autorretrato de um roqueiro de 45 anos – canções sem falsas ilusões, irônicas porém desencantadas (como se não acreditasse mais no efeito cômico provocado por um comentário blasé e muito esperto). Um álbum criado sob tensão criativa, portanto – e uma tensão muito saudável, que vai abrindo conotações inesperadas nas canções. O estica-e-comprime não produz um disco-síntese do Pavement (que talvez Beck quisesse), muito menos um disco totalmente pós-Pavement (que Stephen Malkmus tenta provocar), mas um jogo de reflexos entre o passado e o presente do músico. E isso com algumas das canções mais perfeitas que ele escreveu, como Asking price e Share the red (mas eu viveria bem sem Senator; a charge política não é, e não mesmo, o metiê do sujeito).

Past life martyred saints | EMA | 67 | Quando estou de muito bom humor, isto soa como uma versão em miniatura para um dos discos enfezados da PJ Harvey. Quando penso mais uma vez, começo a desconfiar que Erika M. Anderson tomou os discos de Courtney Love como cartilha e, olhos mareados e pulsos rasgando, foi à batalha (e algumas das confissões da moça me deixam mais constrangido que comovido). De uma forma ou de outra, as comparações com Kim Gordon me parecem um exagero: Erika está só no início, engatinhando, ainda modelando a forma de uma sonoridade que, nos próximos discos, pode até começar a soar arenosa e assustadora como ela pretende. Lembra um pouco o disco da Lykke Li, só que sem o senso de humor: uma mulher perdida no deserto, sem destino definido, mas pronta para desabafar horrores com o primeiro andarilho que passar pelo caminho. “Tenho só 21 anos. Não me importo com a morte”, ela avisa, em California. Te entendo, guria, mas grande pop não é só isso.

La liberación | CSS | 58 | Admito que não era o disco do CSS que eu estava esperando: depois de uma temporada que deve ter sido infernal – de crise, chiliques em revistas bacanas, apocalipse e ressurreição – a banda me sai com uma continuação direta (e “profissional”) para Donkey, o disco anterior. Ora. La liberación inverte a ordem dos sabores (desta vez, o electro docinho&facinho&safadinho vem antes da guitarrada abafada), mas o provoca efeito de reprise: as intenções arruaceiras e engraçadinhas do grupo (tipo: música em portunhol, música sobre mina que sai pra night com os “gay friends”, indiepop de Ibiza com participação de Bobby Gillespie) são amortecidas por uma produção que tudo controla e arredonda. A sensação é de ver um roteiro absolutamente ZONEADO dirigido por, digamos, Breno Silveira ou Cláudio Torres. No idioma deles, pois: it hits me like a pillow.

In the grace of your love | The Rapture | 49 | O tédio que bate quando penso em escrever sobre o disco só é comparável ao que sinto quando leio as entrevistas em que o Rapture discursa sobre “encontrar uma atitude mais positiva”. Zzz. Então deixe-me tirar o brutamonte bobo-alegre da sala, rapidamente: procurar atitude positiva (ou negativa, ou sei lá o que) nada tem a ver com gravar um disco que tenta nos acertar no esquema tentativa-e-erro; uma jukebox ora agradável, ora insuportável, desconjuntada e sem rumo (ou, para quem curte a coisa, “sortida”, “desencanada”), que parece compilar tudo o que era cool há dois anos – de LCD Soundsystem a Stereo love. Falta de timing (e de otras cositas más) é isso aí.

I’m with you | Red Hot Chili Peppers | 49 | Ao contrário de By the way (que era mais primaveril, melodioso) e até de Stadium arcadium (que pelo menos pensava grande), o décimo disco dos Chili Peppers soa amedrontado, feito adolescente em dia de vestibular. É o retrato de uma banda que perdeu o eixo (ou: que perdeu John Frusciante) e que, depois de um período de autoestima elevada, agora não parece entender que papel deve cumprir neste mundão confuso aqui. E esse sentimento de incerteza, que poderia gerar um disco interessante, acaba fragilizando todas as faixas do disco, que, quando muito, se esforçam para encher a barriga dos fãs (e, lá pela metade, a impressão é de que a banda saiu de cena e deixou o trabalho para um androide). O uso de percussão afro é tão sutil que merecia ter ficado na gaveta. Mas ok: é de tentativas assim (bem intencionadas porém inócuas) que vivem as bandas de rock mais profissionais, mais eficientes, não mais relevantes.

[thomas bernhard]

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“Retornei ainda uma vez à cidade em virtude do chamado Prêmio Literário da Cidade de Bremen, e não tenho intenção de me calar sobre a experiência que vivi nessa segunda viagem. Fui um dos jurados a escolher o laureado do ano seguinte e viajei para Bremen com o propósito inamovível de dar meu voto a Canetti, que, assim creio, não havia até aquele momento recebido um único prêmio literário. Fosse por que motivo fosse, não pretendia dar meu voto a ninguém senão Canetti, todos os demais candidatos me pareciam risíveis. A reunião dos jurados teve lugar, creio, em torno de uma mesa comprida de um restaurante local, à qual se encontrava sentada toda uma série de cavalheiros com direito a voto, como se diz, entre os quais o famoso senador Harmsen, com quem eu me entendia muitíssimo bem. Acredito que todos já tinham nomeado seu candidato, e ninguém falara em Canetti, quando chegou a minha vez, e votei: Canetti. Eu era a favor de dar o prêmio a Canetti por causa de seu Auto da fé, a genial obra da juventude que, um ano antes daquela reunião do júri, havia sido reeditada. Disse várias vezes o nome Canetti, e a cada uma delas os rostos ao longo da mesa comprida tinham se retorcido de pesar. Muitos ali nem sabiam quem era Canetti, mas, entre os poucos que sabiam de sua existência, encontrava-se um jurado que, de repente, tendo eu tornado a repetir o nome Canetti, comentou: Mas, além de tudo, ele é judeu! Seguiu-se tão somente um murmúrio, e Canetti foi descartado. A frase, porém – Mas, além de tudo, ele é judeu! -, ecoa ainda hoje em meus ouvidos, embora eu não seja capaz de dizer qual dos senhores à mesa a pronunciou. Mesmo assim, sigo ouvindo-a com frequência, provinda de um canto especialmente sinistro, ainda que eu não saiba quem foi que a disse. O fato é que aquela frase matou na raiz todo e qualquer debate sobre minha sugestão de outorgar o prêmio a Canetti. Preferi, portanto, nem participar do restante da discussão, limitando-me apenas a permanecer calado à mesa. Um bom tempo se passou, ao longo do qual uma quantidade infinita de nomes horrendos foi citada, nomes aos quais eu só podia, em sua totalidade, vincular verborragia ou diletantismo, mas um laureado ainda não tínhamos. Os cavalheiros olhavam para o relógio, e pela porta de folha dupla penetrava o aroma do assado em preparação na cozinha. Assim sendo, a mesa simplesmente precisava tomar uma decisão. Para meu grande espanto, de súbito um dos cavalheiros – e, de novo, não sei dizer qual – retirou da pilha de obras sobre a mesa, aleatoriamente conforme me pareceu, um livro de Hildesheimer e, num tom de extraordinária ingenuidade, levantando-se já para o almoço, disse: Ora, vamos ficar com o Hildesheimer, sim, fiquemos com o Hildesheimer, e Hildesheimer era justamente o nome que, ao longo de horas de debate, ninguém havia mencionado. Agora, de repente, à menção do nome Hildesheimer, todos recuaram suas cadeiras, aliviados, votaram no nome de Hildesheimer e, em poucos minutos, definiu-se que Hildesheimer era o novo vencedor do Prêmio Literário da Cidade de Bremen. Quem era de fato Hildesheimer, isso era provável que ninguém ali soubesse. De imediato, aliás, comunicou-se à imprensa que, após aquela reunião de mais de duas horas, Hildesheimer era o novo laureado. Os cavalheiros, então, levantaram-se e se encaminharam para o salão de refeições. O judeu Hildesheimer ganhara o prêmio.”

Trecho do livro Meus prêmios, de Thomas Bernhard, que venceu o Prêmio Literário de Bremen um ano antes de ter participado do júri da premiação.

cine | O homem do futuro

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O cínico em mim deveria enxotar O homem do futuro com dois pontapés, porque o filmezinho cheira mesmo a eletroeletrônico paraguiao. No formulário internacional de infrações cinematográficas, marcaria muitos pontos: as imagens lustradíssimas e acetinadas lembram anúncio de automóvel (confere!), as ideias da trama são todas contrabandeadas de um passado familiar (De volta para o futuro meets Carrie, a estranha, com uma vontadezinha de ser Charlie Kaufman), a trilha sonora se movimenta com a leveza de um tiranoussauro (Tempo perdido, da Legião Urbana, é a música-tema) e, bem, há duas ou três lições sobre como a vida é – verdade! – definida por nossas escolhas banais, e pelo acaso.

Tudo isso me deprime, vocês sabem, mas eu estaria mentindo se contasse que saí deprimido da sessão de O homem do futuro [57]. Não. O filme até me deixou (e aqui soa o alarme da polícia cinéfila!) razoavelmente animado, já que ele tem uma qualidade (talvez publicitária, vá lá, mas também cinematográfica) que falta à maior parte dos lançamentos comerciais que vi este ano: pulso, ritmo. E aí não o comparo somente a comédias brasileiras medonhas como Qualquer gato vira-lata ou Cilada.com, mas em fitas americanas que me pareceram quase insuportáveis de tão enfadonhas, como Lanterna Verde e Capitão América. Fico com a impressão de que o desejo do diretor de O homem do futuro, Claudio Torres, não era criar a melhor das comédias sobre viagens no tempo, mas uma que não soltasse o braço do espectador, não nos perdesse de vista durante a projeção. E isso (adeus, Tiago cínico) ele consegue.

Parece um desafio bobo (eu não acho), mas taí o filme que o leva a sério. Torres embola as idas e vindas da narrativa de forma a criar praticamente três clímaxes (todos acompanhados de “subclímaxes’) durante a trama. O filme tem quase duas horas – os picos de ação devem ocupar praticamente 60 minutos, talvez mais. Em 15 minutos, a impressão é de que o filme já está prestes a acabar – mas eis que ele retorna a um “ponto de relaxamento”, rapidamente tensionado por uma nova dobra do roteiro. Wagner Moura, é claro, merece crédito até aí: o carisma do ator colabora para esse projeto de uma hipermatinê, que produza os efeitos sedutores de uma peça publicitária enorme porém atraente. Por mais que eu tenha sentido um pouco de culpa no “day after” (quando o anúncio acabou, notei que era só um anúncio), eu até gostaria de ver bons filmes de entretenimento com um pouco da gana que aparece neste passatempo aqui.

Hurry up, we’re dreaming | M83

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Hurry up, we’re dreaming, o sexto do M83, é um disco grande. É duplo, tem 22 faixas, e parece ter sido concebido como uma espécie de teste de fôlego para Anthony Gonzalez, o francês na cabine desta nave. Espaçoso do jeito que é, pede para se instalar no nosso cotidiano como fazem os bons romances de mil páginas. É um evento. Um spacecombo.

As ambições são largas, e vêm num escopo de VistaVision — o álbum soa como um “statement” para o músico francês, que escreveu o gracioso Saturdays = Youth (de 2008, que acho um tantinho rasteiro) e o assombrado Dead cities, red seas & lost ghosts (de 2003, e ainda o meu favorito dele) .

Numa entrevista à Spin, ele explicou o conceito da coisa: “É um álbum sobre sonhos. Sobre como sonhamos de uma forma diferente quando somos crianças, adolescentes e adultos. Se você faz um disco muito longo, todas as canções têm que ser diferentes — e acho que consegui”.

São intenções bonitas, não são? Eu adoraria escrever sobre este disco na minha lista de melhores do ano, porque é sempre bacana divagar sobre sonhos, álbuns duplos e compositores com planos delirantes. Nada contra nada disso. Aposto que muita gente vai se deixar seduzir pelas ideias de Anthony e esquecer de analisar o disco. Mas tudo bem — para escrever textos em revistas e sites de música pop, às vezes descrever algumas intenções (e apontar: elas funcionam!) parece o bastante.

No mais, o homem conseguiu colocar em prática os planos que estipulou para o disco. Hurry up, we’re dreaming é tudo isso que Anthony quer. Um sonho enorme e (como são os sonhos) às vezes surpreendente, com cenas em diferentes cores/sabores, que nos transportam a um cenário em constante mutação. O que ouço, no entanto, não é um grande disco. Um disco grande, mas não um grande disco.

Primeiro porque o formato a que Anthony tenta se adequar — o “álbum duplo sortido, larger than life” — me parece um clichê do rock, um modelo desbotado à espera de alguém que o reinvente. Só para ficarmos numa comparação não tão longínqua, o Smashing Pumpkins tentou exatamente isso em Mellon Collie and the infinite sadness (1995) e, muito antes deles, os Beatles praticamente inventaram e esgotaram o processo, no White Album (1968). O que eu esperava do M83 era uma observação minimamente particular, inusitada, para o formato — e não é o que acontece aqui.

A abertura do primeiro CD mostra muito claramente como Anthony parece fazer um esforço terrível para cumprir os requisitos do “álbum duplo”: as três primeiras faixas (Intro, Midnight city e Reunion) vão, numa piscadela, do shoegazing mais etéreo ao synthpop de arena. Em menos de 10 minutos, soam como My Bloody Valentine, Air, U2 fase Unforgettable fire e Sigur Ros — tudo condensado de forma a não desviar a nossa atenção. As faixas instrumentais, quando aparecem, soam até como vinhetas: Anthony dispara flashes berrantes para que o público não se entedie durante o disco, e se cansa deles rapidamente.

(Comparando de forma grosseira: a estratégia do M83 para ocupar o território do disco está mais para os efeitos especiais hiparativos de um Transformers que para o adensamento narrativo de um Amantes constantes).

Na segunda metade do disco, Anthony já parece exausto de ficar pulando de planeta em planeta, e abre uma fenda na atmosfera que dá acesso ao passado da banda: soa como um cruzamento da doçura soft-rock de Saturdays = Youth com algum disco que ele gravou antes disso, talvez Before the dawn heals us (que me parece mais aventureiro que este aqui).

Se a sonoridade o disco parece diluir/simplificar/turbinar o que a banda fez até aqui, o mesmo pode se dizer sobre o tema principal. De certa forma, todos os discos do M83 são soundtracks para sonhos, com atmosferas surreais, quase sempre melancólicas. Hurry up, we’re dreaming explicita esse suposto estilo, como se ninguém tivesse percebido antes.

Logo se nota que a grandiosidade de Hurry up, we’re dreaming tem alguma coisa de enganosa, de superficial: como se Anthony ampliasse um negativo antigo, familiar, numa tela IMAX. Ouvir o disco é uma experiência prazerosa, com momentos que nos tiram do chão (Splendor, por exemplo, é de marejar os olhos). Mas, como acontece quando despertamos de sonhos intensos porém tolos, ele nos deixa com a sensação de que nos preocupamos excessivamente por algo que não era tão importante.

Ainda assim, um disco grande, que só vai deixar Anthony satisfeito quando entrar em pelo menos 10 listas importantes de fim de ano. Talvez consiga. Só espero que, depois deste exercício de vaidade (às vezes deslumbrante, mas não sempre), ele ainda tenha energia para se aventurar em galáxias mais misteriosas, em sonhos que nos perturbam no dia seguinte.

Sexto disco do M83. 22 faixas, com produção de Justin Meldal-Johnsen. Lançamento Mute Records. 68.

[ocidente, oriente]

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“As tradições musicais que não são ocidentais se transformaram, mais do que nunca, num souvenir turístico. Os artistas ocidentais se apropriam dessas sonoridades, a convertem em moda e depois esquecem do assunto.”

DJ/Rupture, em entrevista ao El País. Matéria completa aqui.