Dia: setembro 26, 2011

Os filmes da minha vida (2)

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A saga dos 100 filmes mais cultuados cá na Tiagolândia chega ao segundo episódio com mais dois títulos que cuspiram lava no meu infinito particular. Vocês entendem a dimensão desta série de posts, entendem?

Mas, sem querer ficar marisamonteando, serei sucinto: já que este ranking só vai terminar após a Copa de 2022, sugiro que os cinco frequentadores deste blog relaxem e, sem fazer julgamentos cruéis, aproveitem o passeio ao pântano das minhas lembranças & sentimentos imperfeitos. Ainda estamos nos trêilers, ok? E a sessão é tripla, tá certo? Então sit tight que…

098 | A esquiva | L’esquive | Abdellatif Kechiche | 2003

Quando penso em muitos dos meus filmes preferidos, geralmente lembro de características que nada têm a ver com a trama, com os conflitos que eles narram. Tomei um susto, por exemplo, ao ler hoje que as crianças de A esquiva ensaiam uma peça de Marivaux. É uma informação importante dentro do filme, mas que havia desaparecido dentro das minhas memórias. O que ficou foi uma impressão até infantil de coração partido: o desejo de ter permanecido verdadeiramente mais algumas horas, dias, dentro daquele mundo onde vivem os personagens. A encenação me convidou a entrar, digamos assim, e de repente eu me tornei um dos meninos da trama. Não foram poucas as vezes em que eu saí da sala de cinema como quem acorda de um daqueles sonhos que parecem muito vívidos: mas eu tinha uns 28 anos quando vi este filme. Não era mais inocente. Não era criança. Mas foi nisso que me transformei, naquela sessão (na embaixada da França), para meu espanto. Quando acenderam as luzes, me senti desamparado.

097 | Império do sol | Empire of the sun | Steven Spielberg | 1987

A história da minha minha relação com este longa de Spielberg está cheia de incompreensão e repulsa. Detestei o filme. Mas detestei, antes de tudo, porque não o compreendi, não entendi absolutamente nada da trama. Minha mãe cometeu um erro (uma ousadia?) ao me levar para o cinema numa época em que eu ainda não sabia ler legendas: o que ficou daquela sessão foi uma coleção de imagens desconexas. Também restou: um menino (mais ou menos da minha idade) perdido dentro de uma guerra e dentro de uma tela, tudo destroçado dentro da minha imaginação. Foi um embate difícil, sangrento, entre o espectador de oito anos e o pequeno J.G. Ballard (que se tornaria um dos meus escritores preferidos; mas muito mais tarde). Lembro que, nos créditos finais, me senti ainda mais pequeno, burro: enquanto o público aplaudia e chorava, eu só queria que alguém me explicasse aquela história, os diálogos, qualquer coisa. Mas eu me recusava a pedir orientações – e, depois que aprendi a ler legendas, me recusei a rever o filme. É um porre, eu dizia aos meus amigos. Menino orgulhoso, como vocês podem perceber.

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