The whole love | Wilco

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O disco novo do Wilco ainda não dobrou a primeira metade quando Jeff Tweedy, do alto de seus 44 anos, ameaça um desabafo adolescente. “Não quero perder esta briga”, ele diz, com o coração já sujando as pontas dos dedos. Em seguida, cai em contradição: “Eu não quero terminar esta briga”. E termina a estrofe com uma conclusão enigmática: “Adeus”.

A música, Sunloathe, soa como um lamento. Mas não consigo entender exatamente por que. Não me pergunte. Os versos são imprecisos, abstratos. Musicalmente, ela começa como uma canção delicada à la Brian Wilson (com pianos e sintetizadores, num arranjo quase natalino), termina com uma linha de guitarra à la Abbey Road. É bonita e breve. Só que termina talvez cedo demais, como se o galão de ideias tivesse de repente secado.

O restante do disco também me deixa um tanto às escuras: não me oferece desafios, não me parece exatamente burocrático, mas soa vago, etéreo, como se fracassasse na tentativa de dizer alguma coisa nova. É um disco que balbucia, que ameaça, que oferece camadas sofisticadas de rascunhos, que chega quase lá. E que fica nisso, infelizmente.

Havia um tempo em que as canções e as intenções do Wilco me pareciam ao menos tangíveis. Sky blue sky (2007) soava um suspiro de alívio (após um período de naufrágios). A ghost is born (2004) era turbulência e depressão. Being there (1996) me lembra do tempo em que eu era mais novo e achava que poderia fazer tudo (álbum duplo, sabe como é…). Summerteeth (1999) é Brian Wilson via Chicago. E Yankee Hotel Foxtrot (2002), a invenção de um som.

Os discos, mesmo os mais bagunçados, pareciam fazer sentido. Informavam alguma sensação/experiência. Pareciam compor uma trajetória que segue sempre em frente (apesar dos acidentes), sedimentar uma discografia em formação. Eram álbuns, e não coleções de canções.

A partir de Wilco (The album), de 2009, algo muda na história dessa banda: cria-se uma barreira ao fim da trajetória e, em vez de seguir em frente, a banda passa a fazer passeios curtos ao próprio passado, indo e vindo, criando itinerários provisórios, sem muito rigor. Aí estava um disco que parecia tratar a história do Wilco como um conjunto de “cenas” que agora poderiam ser reordenadas para produzir novas canções. Wilco (The album) é, muito apropriadamente, um disco sobre o Wilco.

O que não me dizia muita coisa, e me deixava um pouco envergonhado (ainda mais porque, naquele momento, banda já se acomodava num método de produção indulgente, que confundia simplicidade com singeleza).

O desejo autorreferente de Wilco (The Album) criou nos fãs um tipo de expectativa que a banda nunca havia criado. Antes, se esperava do Wilco o risco, a criação. Depois, começamos todos a torcer por discos ao menos dignos, que soassem como os melhores que eles gravaram. Um novo Yankee Hotel Foxtrot (quem dera!). Ou, ao menos, um outro Summerteeth.

The whole love é um pouco de todo esse passado: um pouco Yankee Hotel Foxtrot (principalmente na produção, polida, reluzente e cheia de detalhes, que recomeça de onde aquele disco havia parado), um pouco de Summerteeth (faixas falsamente ensolaradas, beachboyanas, como Sunloathe e I might), um tanto de Being there (a matriz rancheira das love songs dedilhadas ao violão) e a serenidade de Sky blue sky embalando o combo todo. No fim das contas, no entanto, acaba soando como um prolongamento de Wilco (The album). Já que a banda segue dando voltas em torno da própria história, presa no carrossel colorido.

Para quem trata quer uma banda “empresarial”, daquelas que cumprem as expectativas da clientela para melhor servi-la (e este é o primeiro disco pelo selo do grupo, o dBpm Records, então beware!), The whole love pode ser bastante satisfatório: uma jukebox que condensa todos os discos anteriores em canções, no máximo, ameaçam alguma impressão de estranheza (a primeira faixa, Art of almost, lembra os arranjos econômicos, mecânicos, do Spoon; e o nome, se tomado ao pé da letra, sintetiza o disco inteiro).

E uma jukebox elegante, que me alegra horrores ao usar o som inventado em Yankee Hotel Foxtrot para efeitos pop: é sutil a forma como a banda “isola” e ilumina referências musicais em acenos curtos, precisos (a linha de guitarra beatle de Sunloathe, os ruídos ambiente à Sgt Pepper’s de Capitol City, a guitarrada meio Pixies de Born alone). Nesse ponto, o que temos é um disco com sonoridade muito mais consciente da própria força, muito mais arredondada e “controlada” (no bom sentido, já que é essa a marca do Wilco pós-Foxtrot) que a dos álbuns que eles gravaram depois de A ghost is born. Aqui, o Wilco finalmente parece entender que criou algo particular por volta de 2002.

Mas era só isso? Quem descobriu o Wilco por volta de Sky blue sky vai encontrar um disco tão “bonito” quanto aquele outro. Quem conhecia aquele outro Wilco, que se destruía e se reinventava com o desespero louco de quem não dá conta de viver dentro do próprio corpo, The whole love será apenas um disco amável. Apenas um disco.

Oitavo disco do Wilco. 12 faixas, com produção de Jeff Tweedy, Pat Sansone e Tom Schick. Lançamento dBpm Records. 68

22 comentários em “The whole love | Wilco

    Iberê Borges (@popmata) disse:
    setembro 12, 2011 às 7:48 pm

    Gostei da crítica. Penso bastante sobre essa parada do Wilco rodeando a si mesmo desde o The Album, mas vejo de uma forma mais positiva. Talvez já encontraram o porto onde eles apenas produzem belas canções, como um Big Star, talvez.

    Achei só que a nota seria mais alta, já que a “crítica negativa” é sobre a não reinvenção. Mas ótimo texto, de qualquer forma.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 12, 2011 às 9:17 pm

    Pode ser isso, Iberê. Mas me sinto um pouco frustrado com essa fase “estagnada” deles, até porque me acostumei com um Wilco que tava sempre olhando pra frente.

    Valeu pelo elogio, obrigado.

    Ricardo disse:
    setembro 13, 2011 às 12:49 am

    Cara, ainda não ouvi o disco, tô esperando o meu chegar. Mas as críticas estão indo pelo caminho da sua. Os caras sofrem demais com a pressão de manter o nível inventivo que tinham até o ‘A ghost is born’. Mais ou menos o que acontece com o Rubem Fonseca, que a cada livro lançado é questionado sobre as semelhanças com os trabalhos anteriores, que nunca mais vai escrever um ‘Lúcia McCartney’ ou um ‘Agosto’…

    Wilco de repente está mais pra um Woody Allen de hoje. Aí, o ‘Sky blue Sky’ seria o ‘Meia Noite em Paris’. AInda acho que rola ao menos um ‘Match Point’!

    Abs

    Tiago respondido:
    setembro 13, 2011 às 1:00 am

    Cara, eu gosto de vários dos livros do Rubem Fonseca que ele escreveu depois desses que vc lembrou, principalmente os de contos. O Buraco na Parede, por exemplo. Mas realmente o cara passou a descrever uma trajetória circular, e nisso lembre o que tá acontecendo com o Wilco mesmo. Mas, pra ficarmos nessa comparação, o que me incomoda é que o Wilco tá tomando atitudes de bandas “profissionais” demais, aquelas que têm milhões de compromissos (com fãs, mercado etc) e tentam cumprir tudo isso dentro de um disco. Tipo um Coldplay, um U2 pós All That You Cant Leave Behind, um Rolling Stones pós anos 80… Aí fica desinteressante, acho. Nesse ponto, o Fonseca se sai melhor, apesar de também tentar cumprir uma série de expectativas que se tem em relação a ele.

    Já a comparação com Woody Allen… Se eles fizessem um ‘Maridos e esposas’, já seria ótimo, haha.

    Ricardo disse:
    setembro 13, 2011 às 1:14 am

    Também gosto bastante de vários do Rubem depois dos que citei, foi mais como exemplo mesmo. Aliás, tô lendo o último ‘Axilas e outras histórias indecorosas’ e começa devagar, mas há alguns contos muito bons ali.

    Quanto ao WIlco-Allen, viajando nessa comparação meio besta, acho que seria mais ou menos:

    AM – Sonhos de um sedutor
    Being There – Hannah e suas irmãs
    Summerteeth – Annie Hall
    YHF – Manhattan
    A Ghost is born – Interiores
    The Album – Igual a tudo na vida rs

    ‘Maridos e Esposas’ seria bom, mas gostaria ainda mais de um ‘Desconstruindo Harry’!

    Tiago respondido:
    setembro 13, 2011 às 1:17 am

    Um Desconstruindo Harry seria perfeito, haha.

    Daniel disse:
    setembro 13, 2011 às 2:53 am

    Estou na segunda audição e estou gostando (sem me entusiasmar), mas entendo o que vc diz.

    Mas como “revisão de carreira” ele é melhor e mais rico do que o The Album. Há uma variedade maior, tanto em composição como arranjos. E acho que enquanto eles estiverem fazendo discos que remetam aos trabalhos do passado, mas sem soar como se estivesse no “piloto automático” (como eu acho que é o caso desse disco), eu vou sempre curtir, principalmente pelas referências classicistas deles.

    Daniel disse:
    setembro 13, 2011 às 2:55 am

    Quero dizer, eu NÂO acho que esse seja um disco feito no piloto automático, rs

    Davi Matias disse:
    setembro 13, 2011 às 1:57 pm

    Bom texto. Acho que você sintetiza bem quando diz que é um disco que “quase chega lá”. No entanto, para mim, esse sentimento de incompletude, depois de algums audições, começa a fazer sentido. Pelo menos em matéria de honestidade, os caras ainda seguem bem.

    Bom texto.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 13, 2011 às 2:02 pm

    Não acho que seja um disco no piloto automático, Daniel, mas algumas canções acho que são sim.

    Pois é, Davi, os caras ainda são honestos e tudo.

    Péricles disse:
    setembro 13, 2011 às 7:02 pm

    Tambem fiquei com o sentimento de ouvir uma espécie de “coletanea” de outros trabalhos da banda.
    Mas sei la…o rock e a cena pop estão estagnados de maneira geral. Tudo soa muito familiar,e é inevitavel comparações com o passado mesmo que ele seja recente.
    Muita coisa hoje beira a sensação de mero corte e colagem.
    De qualquer maneira, eu ainda sinto um certo alivio de ouvir mais do mesmo vindo do Wilco.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 13, 2011 às 7:14 pm

    Pode ser que sim, Péricles, mas o próprio Wilco já fez coisas bem mais interessantes. Daí a sensação de frustração quando ouço este disco (aliás, já até parei de ouvi-lo).

    Adalberto disse:
    setembro 13, 2011 às 9:35 pm

    Tiago, o Wilco em sua trajetória discográfica, que já teve o seu ápice criativo com uma sequência de pelo menos três álbuns fabulosos (Summerteeth, Yankee Hotel Foxtrot e A Ghost Is Born) e um que os desmontaram por completo (Sky Blue Sky) com uma certa dignidade.
    Com esse The Whole Love, eles nos deixam com a sensação de que falta bastante para que eles consigam lancar um album tão fascinante quanto os albuns de outrora.
    Não que o The Whole Love seja um disco fraco (è com certesa bem melhor que o fraquíssimo Wilco (The Album)) mas deixa muito a desejar em criatividade.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 13, 2011 às 9:40 pm

    Também não acho que seja um disco fraco, Adalberto. Só acho que falta foco, propósito, gana, essas coisas que fazem bons discos.

    Adalberto disse:
    setembro 13, 2011 às 11:01 pm

    Pior que faltou isso e um pouco mais, não é Tiago?

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 13, 2011 às 11:06 pm

    Em alguns momentos o que eu ouço é uma banda se portando como uma empresa. E isso me chateia um pouco, Adalberto.

    Daniel disse:
    setembro 14, 2011 às 12:08 am

    Aliás, algumas bandas veteranas lançaram discos esse ano que soam como reciclagem do que já fizeram antes (R.E.M., Radiohead e agora o Wilco).

    Mas como disse o Péricles lá em cima, eu prefiro “mais do mesmo” dessas bandas do que quase a totalidade das bandas e artistas novos que eu ouvi (tirando as exceções, claro).

    Não porque ache que a cena musical esteja medíocre, ou algo assim, mas porque não encontro discos com os quais me identifique. “O problema sou eu, não vc(s)”.

    Mudando de assunto rapidamente: como vc antecipou, Tiago, o Pitchfork AMOU o disco do Girls…rs

    Tiago respondido:
    setembro 14, 2011 às 12:23 am

    Pois é, Daniel, era fácil prever isso aí. A Pitchfork praticamente criou o Girls, então é de bom-tom que ela defenda a banda.

    Agora aguarde os elogios pro M83.

    João Pedro disse:
    setembro 27, 2011 às 2:08 pm

    Vocês parecem críticos da Folha de São Paulo. A discussão nunca vai além de dois tópicos: se não é inovador sempre, é ruim; ou a eterna e inútil mania de comparações com YHK e etc.
    O próprio Jeff Tweedy disse há pouco tempo que não tem como comparar o começo da carreira (quando o artista está cheio de coisas para dizer) com outra época. Eles estão maduros, Art of Almost é a melhor música do ano, e vocês querem mais e mais e mais.
    Além de que, Sky Blue Sky é um disco maravilhoso.
    Não existe esse papo de fã antigo ou fã novo. Wilco é a melhor banda desde 1995.

    Daniel disse:
    setembro 29, 2011 às 3:38 pm

    Tbm concordo com o João Pedro. Parece que todo mundo quer sempre mais. Em se tratando do Wilco, soa exagero. Mesmo os discos mais sem sal da banda, é muito melhor do que a “criatividade” de grupos indies vide 00. “The Whole Love” é superior ao “The Album”, mostra uma banda madura que não se importa em ser fiel às suas raízes, mesmo que para alguns pseudocríticos, isso tudo é comodidade.

    joão disse:
    outubro 20, 2011 às 11:18 pm

    caras o disco é nota 10. vocês não sabem de nada. não dá para curtir e deixar o resto de lado?

    ♪ | Megafaun | Megafaun « superoito.com disse:
    dezembro 12, 2011 às 5:05 pm

    […] agradar a todas as classes de fãs do Wilco (imagine aí um disco espaçoso e autoconfiante como The Whole Love, só que preenchido com as lindas melodias de country-folk que apareciam em Being There), esta […]

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