Dia: setembro 12, 2011

The whole love | Wilco

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O disco novo do Wilco ainda não dobrou a primeira metade quando Jeff Tweedy, do alto de seus 44 anos, ameaça um desabafo adolescente. “Não quero perder esta briga”, ele diz, com o coração já sujando as pontas dos dedos. Em seguida, cai em contradição: “Eu não quero terminar esta briga”. E termina a estrofe com uma conclusão enigmática: “Adeus”.

A música, Sunloathe, soa como um lamento. Mas não consigo entender exatamente por que. Não me pergunte. Os versos são imprecisos, abstratos. Musicalmente, ela começa como uma canção delicada à la Brian Wilson (com pianos e sintetizadores, num arranjo quase natalino), termina com uma linha de guitarra à la Abbey Road. É bonita e breve. Só que termina talvez cedo demais, como se o galão de ideias tivesse de repente secado.

O restante do disco também me deixa um tanto às escuras: não me oferece desafios, não me parece exatamente burocrático, mas soa vago, etéreo, como se fracassasse na tentativa de dizer alguma coisa nova. É um disco que balbucia, que ameaça, que oferece camadas sofisticadas de rascunhos, que chega quase lá. E que fica nisso, infelizmente.

Havia um tempo em que as canções e as intenções do Wilco me pareciam ao menos tangíveis. Sky blue sky (2007) soava um suspiro de alívio (após um período de naufrágios). A ghost is born (2004) era turbulência e depressão. Being there (1996) me lembra do tempo em que eu era mais novo e achava que poderia fazer tudo (álbum duplo, sabe como é…). Summerteeth (1999) é Brian Wilson via Chicago. E Yankee Hotel Foxtrot (2002), a invenção de um som.

Os discos, mesmo os mais bagunçados, pareciam fazer sentido. Informavam alguma sensação/experiência. Pareciam compor uma trajetória que segue sempre em frente (apesar dos acidentes), sedimentar uma discografia em formação. Eram álbuns, e não coleções de canções.

A partir de Wilco (The album), de 2009, algo muda na história dessa banda: cria-se uma barreira ao fim da trajetória e, em vez de seguir em frente, a banda passa a fazer passeios curtos ao próprio passado, indo e vindo, criando itinerários provisórios, sem muito rigor. Aí estava um disco que parecia tratar a história do Wilco como um conjunto de “cenas” que agora poderiam ser reordenadas para produzir novas canções. Wilco (The album) é, muito apropriadamente, um disco sobre o Wilco.

O que não me dizia muita coisa, e me deixava um pouco envergonhado (ainda mais porque, naquele momento, banda já se acomodava num método de produção indulgente, que confundia simplicidade com singeleza).

O desejo autorreferente de Wilco (The Album) criou nos fãs um tipo de expectativa que a banda nunca havia criado. Antes, se esperava do Wilco o risco, a criação. Depois, começamos todos a torcer por discos ao menos dignos, que soassem como os melhores que eles gravaram. Um novo Yankee Hotel Foxtrot (quem dera!). Ou, ao menos, um outro Summerteeth.

The whole love é um pouco de todo esse passado: um pouco Yankee Hotel Foxtrot (principalmente na produção, polida, reluzente e cheia de detalhes, que recomeça de onde aquele disco havia parado), um pouco de Summerteeth (faixas falsamente ensolaradas, beachboyanas, como Sunloathe e I might), um tanto de Being there (a matriz rancheira das love songs dedilhadas ao violão) e a serenidade de Sky blue sky embalando o combo todo. No fim das contas, no entanto, acaba soando como um prolongamento de Wilco (The album). Já que a banda segue dando voltas em torno da própria história, presa no carrossel colorido.

Para quem trata quer uma banda “empresarial”, daquelas que cumprem as expectativas da clientela para melhor servi-la (e este é o primeiro disco pelo selo do grupo, o dBpm Records, então beware!), The whole love pode ser bastante satisfatório: uma jukebox que condensa todos os discos anteriores em canções, no máximo, ameaçam alguma impressão de estranheza (a primeira faixa, Art of almost, lembra os arranjos econômicos, mecânicos, do Spoon; e o nome, se tomado ao pé da letra, sintetiza o disco inteiro).

E uma jukebox elegante, que me alegra horrores ao usar o som inventado em Yankee Hotel Foxtrot para efeitos pop: é sutil a forma como a banda “isola” e ilumina referências musicais em acenos curtos, precisos (a linha de guitarra beatle de Sunloathe, os ruídos ambiente à Sgt Pepper’s de Capitol City, a guitarrada meio Pixies de Born alone). Nesse ponto, o que temos é um disco com sonoridade muito mais consciente da própria força, muito mais arredondada e “controlada” (no bom sentido, já que é essa a marca do Wilco pós-Foxtrot) que a dos álbuns que eles gravaram depois de A ghost is born. Aqui, o Wilco finalmente parece entender que criou algo particular por volta de 2002.

Mas era só isso? Quem descobriu o Wilco por volta de Sky blue sky vai encontrar um disco tão “bonito” quanto aquele outro. Quem conhecia aquele outro Wilco, que se destruía e se reinventava com o desespero louco de quem não dá conta de viver dentro do próprio corpo, The whole love será apenas um disco amável. Apenas um disco.

Oitavo disco do Wilco. 12 faixas, com produção de Jeff Tweedy, Pat Sansone e Tom Schick. Lançamento dBpm Records. 68

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