Slave ambient | The War on Drugs

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Confesso que não foi moleza: nas primeiras audições, me arrastei no solo arenoso de Slave ambient mais ou menos como um pagador de promessas. Tenho certeza que, quando a música parou, meus headphones foram correndo ao bebedouro.

Não é um disco difícil. Não é um disco cheio de pedrinhas. Mas sei o que me afasta dele. Eu sei, e é uma bobagem. É uma besteirinha, mas vamos lá: à exceção mui nobre de Dan Bejar, não levo muito a sério (muito menos consigo entender) os vocalistas que cantam forçadamente como Bob Dylan.

Eles estão por aí (eu sei!), eles estão se multiplicando (eu sei!), essa irritação é um problema todo meu e só meu (eu sei!), mas para mim esses cantores soam um pouco como os cineastas que tentam construir carreiras inteiras macaqueando, digamos, os trejeitos de diretores cujas marcas são reconhecíveis numa primeira espiada. De um Tarkóvski. Ou de um Woody Allen.

O que acontece com essa gente? O que elas querem?

E o mais intrigante é que, deus!, deve ser trabalhoso simular a voz rascante, fibrosa, lindamente dissonante de Dylan (e aqui estamos falando no Dylan fase Blonde on blonde, que parecia flagrado às três da manhã, quase no fim da festa, já despenteado e doidão). Pois é o que Adam Granduciel, o vocalista do The War on Drugs, faz (até com eficiência; o sujeito é um ‘impersonator’ competente).

E digo tudo isso, todas essas besteirinhas, não como uma forma de quebrar o gelo que se interpõe entre nós dois (eu e você, leitor). É a mais simples verdade, apenas: nas primeiras audições de Slave ambiente, tudo o que consegui ouvir foi um fã de Bob Dylan ruminando sobre arranjos de guitarra&teclados que foram encontrados em algum deserto perto da Joshua Tree, circa 1988. Não foi legal.

Mas não desisti. Fui à luta com bravura, já que este é daqueles discos “importantes”, que ganham elogios do tipo “uma justaposição grandiosa de sons antigos e novos” e que são avaliados com cinco estrelinhas pela Uncut (uma revista velha de guerra, digna e coerente, que, entre outras coisas, costuma valorizar os vocalistas que calham de ser fãs de Dylan).

Depois de algumas audições, comecei a me familiarizar com o disco, a cantarolar as canções e a notar a estrutura que as une. Não é um álbum ingênuo. Talvez, pelo contrário, seja um álbum excessivamente planejado, um disco engenhoso: a sonoridade da banda (uma jam session um tanto zoneadinha, mas com hora para terminar), ainda que não me pareça tão instigante assim, está totalmente demarcada, e o quarteto a defende com muita convicção, como quem lê uma carta de intenções.

Quando você ouve o disco pela quinta vez, percebe que existe uma tentativa de afirmar um idioma: Granduciel segue e sempre seguirá soando como um aluno de Dylan (a comparação é inevitável, sorry), mas parece usar as marcas do ídolo como um dos tecidos sonoros de uma confecção que ainda inclui trechos instrumentais (muitos teclados ensebados) e uma quedinha pelo synthpop, que aparece quando menos esperamos.

Já as letras fantasmagóricas me lembram um pouco de Wolf Parade, Joy Division e mortos-vivos congêneres. “Sigo andando na sua sala, mas nada acontece. Você é como um espírito que eu sigo enfrentando”, e assim o disco abre, com Best night. Outras faixas têm o formato dos micro-hinos que o Simple Minds gravava na fase “roots”: difícil não se entusiasmar com Come to the city, que vai se instalando aos poucos, espirrando poeira pelas ventas.

Como acontece nos discos de Kurt Vile, ex-integrante da banda, essas e outras referências-clichê — familiares a todo mundo que viveu nos anos 80 ou viu algum filme sobre os anos 80 — são embaladas num envelope de palha, amarrada em barbante e vendidas como algo rústico-portanto-autêntico, como se a estética lo-fi tivesse sido inventada ontem à noite numa convenção de blogs. Não me parece muito palpitante, sinceramente. Mas não me mata de tédio, também.

Hype à parte, encontrei em Slave ambient um disco que sabe exatamente o que quer ser (as vinhetas instrumentais, irrelevantes mas cheias de atmosferas moderninhas, não estão aí por acaso), que mora dentro de um cercadinho de muros já altos e firmes, mas que deixa a sensação de que é elogiado mais por cumprir certas tendências que estão em voga (em certos círculos) do que por ser singular, potente de verdade.

É um disco que entende o que deve ser feito para que gostemos dele. E que vai lá e faz, de forma precisa. Agradar à plateia não era o método de Dylan, de forma alguma, mas cá estamos com uma banda que simula corretamente (e às vezes apaixonadamente, sempre com altivez) o que há de superficial na música que conhecemos e que (em alguns casos) amamos.

O que, lá pela décima-quinta audição, quando o disco já estiver bem acomodado nos headphones (e ele é capaz disso), pode se mostrar uma missão não tão vazia quanto este post aqui dá a entender. Em caso de dúvida, tente ouvir mais uma vez.

Segundo disco do The War on Drugs. 12 faixas, com produção da própria banda. Lançamento Secretly Canadian. 61

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