Dia: setembro 3, 2011

[thomas bernhard]

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“Retornei ainda uma vez à cidade em virtude do chamado Prêmio Literário da Cidade de Bremen, e não tenho intenção de me calar sobre a experiência que vivi nessa segunda viagem. Fui um dos jurados a escolher o laureado do ano seguinte e viajei para Bremen com o propósito inamovível de dar meu voto a Canetti, que, assim creio, não havia até aquele momento recebido um único prêmio literário. Fosse por que motivo fosse, não pretendia dar meu voto a ninguém senão Canetti, todos os demais candidatos me pareciam risíveis. A reunião dos jurados teve lugar, creio, em torno de uma mesa comprida de um restaurante local, à qual se encontrava sentada toda uma série de cavalheiros com direito a voto, como se diz, entre os quais o famoso senador Harmsen, com quem eu me entendia muitíssimo bem. Acredito que todos já tinham nomeado seu candidato, e ninguém falara em Canetti, quando chegou a minha vez, e votei: Canetti. Eu era a favor de dar o prêmio a Canetti por causa de seu Auto da fé, a genial obra da juventude que, um ano antes daquela reunião do júri, havia sido reeditada. Disse várias vezes o nome Canetti, e a cada uma delas os rostos ao longo da mesa comprida tinham se retorcido de pesar. Muitos ali nem sabiam quem era Canetti, mas, entre os poucos que sabiam de sua existência, encontrava-se um jurado que, de repente, tendo eu tornado a repetir o nome Canetti, comentou: Mas, além de tudo, ele é judeu! Seguiu-se tão somente um murmúrio, e Canetti foi descartado. A frase, porém – Mas, além de tudo, ele é judeu! -, ecoa ainda hoje em meus ouvidos, embora eu não seja capaz de dizer qual dos senhores à mesa a pronunciou. Mesmo assim, sigo ouvindo-a com frequência, provinda de um canto especialmente sinistro, ainda que eu não saiba quem foi que a disse. O fato é que aquela frase matou na raiz todo e qualquer debate sobre minha sugestão de outorgar o prêmio a Canetti. Preferi, portanto, nem participar do restante da discussão, limitando-me apenas a permanecer calado à mesa. Um bom tempo se passou, ao longo do qual uma quantidade infinita de nomes horrendos foi citada, nomes aos quais eu só podia, em sua totalidade, vincular verborragia ou diletantismo, mas um laureado ainda não tínhamos. Os cavalheiros olhavam para o relógio, e pela porta de folha dupla penetrava o aroma do assado em preparação na cozinha. Assim sendo, a mesa simplesmente precisava tomar uma decisão. Para meu grande espanto, de súbito um dos cavalheiros – e, de novo, não sei dizer qual – retirou da pilha de obras sobre a mesa, aleatoriamente conforme me pareceu, um livro de Hildesheimer e, num tom de extraordinária ingenuidade, levantando-se já para o almoço, disse: Ora, vamos ficar com o Hildesheimer, sim, fiquemos com o Hildesheimer, e Hildesheimer era justamente o nome que, ao longo de horas de debate, ninguém havia mencionado. Agora, de repente, à menção do nome Hildesheimer, todos recuaram suas cadeiras, aliviados, votaram no nome de Hildesheimer e, em poucos minutos, definiu-se que Hildesheimer era o novo vencedor do Prêmio Literário da Cidade de Bremen. Quem era de fato Hildesheimer, isso era provável que ninguém ali soubesse. De imediato, aliás, comunicou-se à imprensa que, após aquela reunião de mais de duas horas, Hildesheimer era o novo laureado. Os cavalheiros, então, levantaram-se e se encaminharam para o salão de refeições. O judeu Hildesheimer ganhara o prêmio.”

Trecho do livro Meus prêmios, de Thomas Bernhard, que venceu o Prêmio Literário de Bremen um ano antes de ter participado do júri da premiação.

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cine | O homem do futuro

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O cínico em mim deveria enxotar O homem do futuro com dois pontapés, porque o filmezinho cheira mesmo a eletroeletrônico paraguiao. No formulário internacional de infrações cinematográficas, marcaria muitos pontos: as imagens lustradíssimas e acetinadas lembram anúncio de automóvel (confere!), as ideias da trama são todas contrabandeadas de um passado familiar (De volta para o futuro meets Carrie, a estranha, com uma vontadezinha de ser Charlie Kaufman), a trilha sonora se movimenta com a leveza de um tiranoussauro (Tempo perdido, da Legião Urbana, é a música-tema) e, bem, há duas ou três lições sobre como a vida é – verdade! – definida por nossas escolhas banais, e pelo acaso.

Tudo isso me deprime, vocês sabem, mas eu estaria mentindo se contasse que saí deprimido da sessão de O homem do futuro [57]. Não. O filme até me deixou (e aqui soa o alarme da polícia cinéfila!) razoavelmente animado, já que ele tem uma qualidade (talvez publicitária, vá lá, mas também cinematográfica) que falta à maior parte dos lançamentos comerciais que vi este ano: pulso, ritmo. E aí não o comparo somente a comédias brasileiras medonhas como Qualquer gato vira-lata ou Cilada.com, mas em fitas americanas que me pareceram quase insuportáveis de tão enfadonhas, como Lanterna Verde e Capitão América. Fico com a impressão de que o desejo do diretor de O homem do futuro, Claudio Torres, não era criar a melhor das comédias sobre viagens no tempo, mas uma que não soltasse o braço do espectador, não nos perdesse de vista durante a projeção. E isso (adeus, Tiago cínico) ele consegue.

Parece um desafio bobo (eu não acho), mas taí o filme que o leva a sério. Torres embola as idas e vindas da narrativa de forma a criar praticamente três clímaxes (todos acompanhados de “subclímaxes’) durante a trama. O filme tem quase duas horas – os picos de ação devem ocupar praticamente 60 minutos, talvez mais. Em 15 minutos, a impressão é de que o filme já está prestes a acabar – mas eis que ele retorna a um “ponto de relaxamento”, rapidamente tensionado por uma nova dobra do roteiro. Wagner Moura, é claro, merece crédito até aí: o carisma do ator colabora para esse projeto de uma hipermatinê, que produza os efeitos sedutores de uma peça publicitária enorme porém atraente. Por mais que eu tenha sentido um pouco de culpa no “day after” (quando o anúncio acabou, notei que era só um anúncio), eu até gostaria de ver bons filmes de entretenimento com um pouco da gana que aparece neste passatempo aqui.