Hurry up, we’re dreaming | M83

Postado em Atualizado em

Hurry up, we’re dreaming, o sexto do M83, é um disco grande. É duplo, tem 22 faixas, e parece ter sido concebido como uma espécie de teste de fôlego para Anthony Gonzalez, o francês na cabine desta nave. Espaçoso do jeito que é, pede para se instalar no nosso cotidiano como fazem os bons romances de mil páginas. É um evento. Um spacecombo.

As ambições são largas, e vêm num escopo de VistaVision — o álbum soa como um “statement” para o músico francês, que escreveu o gracioso Saturdays = Youth (de 2008, que acho um tantinho rasteiro) e o assombrado Dead cities, red seas & lost ghosts (de 2003, e ainda o meu favorito dele) .

Numa entrevista à Spin, ele explicou o conceito da coisa: “É um álbum sobre sonhos. Sobre como sonhamos de uma forma diferente quando somos crianças, adolescentes e adultos. Se você faz um disco muito longo, todas as canções têm que ser diferentes — e acho que consegui”.

São intenções bonitas, não são? Eu adoraria escrever sobre este disco na minha lista de melhores do ano, porque é sempre bacana divagar sobre sonhos, álbuns duplos e compositores com planos delirantes. Nada contra nada disso. Aposto que muita gente vai se deixar seduzir pelas ideias de Anthony e esquecer de analisar o disco. Mas tudo bem — para escrever textos em revistas e sites de música pop, às vezes descrever algumas intenções (e apontar: elas funcionam!) parece o bastante.

No mais, o homem conseguiu colocar em prática os planos que estipulou para o disco. Hurry up, we’re dreaming é tudo isso que Anthony quer. Um sonho enorme e (como são os sonhos) às vezes surpreendente, com cenas em diferentes cores/sabores, que nos transportam a um cenário em constante mutação. O que ouço, no entanto, não é um grande disco. Um disco grande, mas não um grande disco.

Primeiro porque o formato a que Anthony tenta se adequar — o “álbum duplo sortido, larger than life” — me parece um clichê do rock, um modelo desbotado à espera de alguém que o reinvente. Só para ficarmos numa comparação não tão longínqua, o Smashing Pumpkins tentou exatamente isso em Mellon Collie and the infinite sadness (1995) e, muito antes deles, os Beatles praticamente inventaram e esgotaram o processo, no White Album (1968). O que eu esperava do M83 era uma observação minimamente particular, inusitada, para o formato — e não é o que acontece aqui.

A abertura do primeiro CD mostra muito claramente como Anthony parece fazer um esforço terrível para cumprir os requisitos do “álbum duplo”: as três primeiras faixas (Intro, Midnight city e Reunion) vão, numa piscadela, do shoegazing mais etéreo ao synthpop de arena. Em menos de 10 minutos, soam como My Bloody Valentine, Air, U2 fase Unforgettable fire e Sigur Ros — tudo condensado de forma a não desviar a nossa atenção. As faixas instrumentais, quando aparecem, soam até como vinhetas: Anthony dispara flashes berrantes para que o público não se entedie durante o disco, e se cansa deles rapidamente.

(Comparando de forma grosseira: a estratégia do M83 para ocupar o território do disco está mais para os efeitos especiais hiparativos de um Transformers que para o adensamento narrativo de um Amantes constantes).

Na segunda metade do disco, Anthony já parece exausto de ficar pulando de planeta em planeta, e abre uma fenda na atmosfera que dá acesso ao passado da banda: soa como um cruzamento da doçura soft-rock de Saturdays = Youth com algum disco que ele gravou antes disso, talvez Before the dawn heals us (que me parece mais aventureiro que este aqui).

Se a sonoridade o disco parece diluir/simplificar/turbinar o que a banda fez até aqui, o mesmo pode se dizer sobre o tema principal. De certa forma, todos os discos do M83 são soundtracks para sonhos, com atmosferas surreais, quase sempre melancólicas. Hurry up, we’re dreaming explicita esse suposto estilo, como se ninguém tivesse percebido antes.

Logo se nota que a grandiosidade de Hurry up, we’re dreaming tem alguma coisa de enganosa, de superficial: como se Anthony ampliasse um negativo antigo, familiar, numa tela IMAX. Ouvir o disco é uma experiência prazerosa, com momentos que nos tiram do chão (Splendor, por exemplo, é de marejar os olhos). Mas, como acontece quando despertamos de sonhos intensos porém tolos, ele nos deixa com a sensação de que nos preocupamos excessivamente por algo que não era tão importante.

Ainda assim, um disco grande, que só vai deixar Anthony satisfeito quando entrar em pelo menos 10 listas importantes de fim de ano. Talvez consiga. Só espero que, depois deste exercício de vaidade (às vezes deslumbrante, mas não sempre), ele ainda tenha energia para se aventurar em galáxias mais misteriosas, em sonhos que nos perturbam no dia seguinte.

Sexto disco do M83. 22 faixas, com produção de Justin Meldal-Johnsen. Lançamento Mute Records. 68.

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13 comentários em “Hurry up, we’re dreaming | M83

    Pedro Primo disse:
    setembro 2, 2011 às 3:23 pm

    Bom, não concordo, principalmente com esse argumento de que o sujeito deveria fazer um tipo de comentário sobre o formato, acho que o próprio fato dele ter montando o álbum e ir apostando em diversos temas é em si um comentário, talvez não moderno, é verdade, mas se trata de um disco retrô (isso aqui cheira a velho, até nos momentos mais coloridos como “Midnight City”). Há momentos em que ele exagera é verdade (Reunion, por exemplo, me soa muito massante).

    E a comparação com Transformers dói, hahaha. Ok, não é Amantes Constantes, mas acho que ele não opta pelo delírio lento, acho que a ideia e ir fuzilando sonhos, talvez se assemelhe mais aos trinta minutos finais dos filmes do Lynch.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2011 às 3:36 pm

    Pedro, só fiz o comentário pra sublinhar que eu esperava algo menos previsível, algo particular, e não o ramerrame de sempre. E não acho que o disco se assemelhe aos 30 minutos finais de Cidade dos Sonhos: me parece comportadinho, não vi nada espantoso nele.

    Ir apostando em diversos “sabores” é a fórmula do disco duplo (desde o White Album, e os discos do Who). Não é comentário sobre o formato, acho (ou pelo menos não um comentário que me interesse em alguma coisa). E nem acho que a intenção do disco seja soar retrô, pelo contrário: o cara acha que tá fazendo algo contemporâneo.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2011 às 3:45 pm

    Resumindo: pra mim é o disco mais fraco dele, mas não vou ficar nada impressionado se ele for tratado como o melhor do cara.

    Pedro Primo disse:
    setembro 2, 2011 às 3:59 pm

    A comparação com o Lynch foi mais pela forma massante com que ele despeja ideias, também acho que os minutos finais de Cidade dos Sonhos são bem mais pertubadores e fortes (não dá pra comparar, enfim). Só acho que essa história de disco duplo e ir apostando em diversas fórmulas é pra mim meio forçado, não dá pra criticar um cara que quer fazer um álbum de 10 faixas, coeso, conceitual e chamá-lo de retrógrado (ainda que essa seja a fórmula comum).

    E mantenho minha visão de que ele tenta soar retrô, não tanto na sonoridade (sim ele acha que tá fazendo algo contemporâneo), mas no clima, na atmosfera, na própria produção.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2011 às 4:06 pm

    Pedro, só agora entendi o que você queria dizer com essa comparação entre discos duplos/simples. O que acho é o seguinte: existe sim uma diferença grande entre os formatos. O disco duplo, por ser mais raro (ele prevê um investimento maior das gravadoras, por exemplo), indica uma intenção de se mostrar ao público de uma forma diferente (geralmente, uma forma mais ampla, grandiosa, o M83 definiu o disco como “épico”, pois bem). Um disco duplo não é qualquer coisa – é um statement.

    E aí eu penso: qual é o sentido de fazer isso hoje em dia? E por que o M83 tá fazendo isso? É só pra repetir um processo velho, sem acrescentar nada a isso? É só pra se inserir numa determinada “tradição”? Ou é só vaidade mesmo? São perguntas que aparecem quando ouço o disco.

    Pedro Primo disse:
    setembro 2, 2011 às 4:17 pm

    Ah sim, vendo por esse prisma faz sentido. Mas, pelo menos pra mim, me soa exagerado pensar que o sujeito precisa de uma explicação perfeitamente lógica para querer gravar 22 músicas. Mesmo que você não goste das canções ou das ideias, o simples impulso criativo não é válido para gravar um álbum duplo, não importando a intenção? Porque acho que do contrário a gente caí no risco de criar uma definição exata para cada formato, do disco duplo ao quadrúplo.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2011 às 5:14 pm

    Não sei se precisa de uma explicação perfeitamente lógica, Pedro, mas pra mim é normal discutir a duração de um disco/filme. Se um filme tem 4 horas, isso deve passar como um mero detalhe? Acho que não.

    E se a ideia é “gravei um disco triplo porque eu estava numa fase muito boa”, tudo bem (mesmo assim, acho que essa decisão não é vazia, vide ‘Emancipation’ ou ’69 love songs’). Mas, no caso do M83, existia a intenção do cara de fazer um disco duplo diversificado e “épico”. Foi o que ele disse nas entrevistas.

    Adalberto disse:
    setembro 2, 2011 às 7:57 pm

    Tiago, ouvi esse disco já umas quatro vezes e o achei muito bom!
    Se esquecermos do mero detalhe de que ele é um disco duplo, poderemos curtilo sem o ranço que as vezes ele nos dá,(como todos os discos duplos) por acha-lo que é um pouco pretensioso nas suas idéias e fórmulas.
    Mas no geral é um belo disco…Não o melhor deles, mas ainda sim um belo disco.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 2, 2011 às 8:08 pm

    Eu achei bacana, Adalberto (nota 68, uau, é acima da média e tal), mas esperava mais.

    Adalberto disse:
    setembro 2, 2011 às 8:36 pm

    Eu também esperava, Tiago.
    Mas para mim, esse disco não chega a ser uma decepção…
    Bem longe disso…

    Felipe Reis disse:
    setembro 3, 2011 às 8:37 am

    Tive quase a mesma impressão que você teve sobre a pretensão de disco duplo, a maneira de prender a atenção, a proposta épica, é de fato um tanto vazio e distante do que podia se esperar (falei melhor aqui -> http://t.co/mTx8igp), entendo sua nota porque foi a minha quando escutei o disco pela primeira vez. Só que escutando de novo e de novo, eu consegui sentir uma solidez no disco mesmo que ele tente ser mais do que é, as letras e o clima típicos do M83 ainda me puxam de jeito, e essa picaretagem épica tem lá seus momentos ótimos. Na totalidade acabei amando o disco mesmo, não mais que os outros, mas amei.

    Tiago Superoito respondido:
    setembro 3, 2011 às 3:19 pm

    Pra mim foi decepcionante, Adalberto. Mas já prevejo grandes elogios pro disco, haha.

    Vou ler o texto, Felipe (e escutei o disco várias vezes, mas ele não melhorou muito não).

    Phillip disse:
    setembro 12, 2011 às 5:36 am

    Para mim o disco é encantador , um dos melhores albuns, continua as viajes para o espaço , um instrumental òtimo !

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