Dia: setembro 2, 2011

Hurry up, we’re dreaming | M83

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Hurry up, we’re dreaming, o sexto do M83, é um disco grande. É duplo, tem 22 faixas, e parece ter sido concebido como uma espécie de teste de fôlego para Anthony Gonzalez, o francês na cabine desta nave. Espaçoso do jeito que é, pede para se instalar no nosso cotidiano como fazem os bons romances de mil páginas. É um evento. Um spacecombo.

As ambições são largas, e vêm num escopo de VistaVision — o álbum soa como um “statement” para o músico francês, que escreveu o gracioso Saturdays = Youth (de 2008, que acho um tantinho rasteiro) e o assombrado Dead cities, red seas & lost ghosts (de 2003, e ainda o meu favorito dele) .

Numa entrevista à Spin, ele explicou o conceito da coisa: “É um álbum sobre sonhos. Sobre como sonhamos de uma forma diferente quando somos crianças, adolescentes e adultos. Se você faz um disco muito longo, todas as canções têm que ser diferentes — e acho que consegui”.

São intenções bonitas, não são? Eu adoraria escrever sobre este disco na minha lista de melhores do ano, porque é sempre bacana divagar sobre sonhos, álbuns duplos e compositores com planos delirantes. Nada contra nada disso. Aposto que muita gente vai se deixar seduzir pelas ideias de Anthony e esquecer de analisar o disco. Mas tudo bem — para escrever textos em revistas e sites de música pop, às vezes descrever algumas intenções (e apontar: elas funcionam!) parece o bastante.

No mais, o homem conseguiu colocar em prática os planos que estipulou para o disco. Hurry up, we’re dreaming é tudo isso que Anthony quer. Um sonho enorme e (como são os sonhos) às vezes surpreendente, com cenas em diferentes cores/sabores, que nos transportam a um cenário em constante mutação. O que ouço, no entanto, não é um grande disco. Um disco grande, mas não um grande disco.

Primeiro porque o formato a que Anthony tenta se adequar — o “álbum duplo sortido, larger than life” — me parece um clichê do rock, um modelo desbotado à espera de alguém que o reinvente. Só para ficarmos numa comparação não tão longínqua, o Smashing Pumpkins tentou exatamente isso em Mellon Collie and the infinite sadness (1995) e, muito antes deles, os Beatles praticamente inventaram e esgotaram o processo, no White Album (1968). O que eu esperava do M83 era uma observação minimamente particular, inusitada, para o formato — e não é o que acontece aqui.

A abertura do primeiro CD mostra muito claramente como Anthony parece fazer um esforço terrível para cumprir os requisitos do “álbum duplo”: as três primeiras faixas (Intro, Midnight city e Reunion) vão, numa piscadela, do shoegazing mais etéreo ao synthpop de arena. Em menos de 10 minutos, soam como My Bloody Valentine, Air, U2 fase Unforgettable fire e Sigur Ros — tudo condensado de forma a não desviar a nossa atenção. As faixas instrumentais, quando aparecem, soam até como vinhetas: Anthony dispara flashes berrantes para que o público não se entedie durante o disco, e se cansa deles rapidamente.

(Comparando de forma grosseira: a estratégia do M83 para ocupar o território do disco está mais para os efeitos especiais hiparativos de um Transformers que para o adensamento narrativo de um Amantes constantes).

Na segunda metade do disco, Anthony já parece exausto de ficar pulando de planeta em planeta, e abre uma fenda na atmosfera que dá acesso ao passado da banda: soa como um cruzamento da doçura soft-rock de Saturdays = Youth com algum disco que ele gravou antes disso, talvez Before the dawn heals us (que me parece mais aventureiro que este aqui).

Se a sonoridade o disco parece diluir/simplificar/turbinar o que a banda fez até aqui, o mesmo pode se dizer sobre o tema principal. De certa forma, todos os discos do M83 são soundtracks para sonhos, com atmosferas surreais, quase sempre melancólicas. Hurry up, we’re dreaming explicita esse suposto estilo, como se ninguém tivesse percebido antes.

Logo se nota que a grandiosidade de Hurry up, we’re dreaming tem alguma coisa de enganosa, de superficial: como se Anthony ampliasse um negativo antigo, familiar, numa tela IMAX. Ouvir o disco é uma experiência prazerosa, com momentos que nos tiram do chão (Splendor, por exemplo, é de marejar os olhos). Mas, como acontece quando despertamos de sonhos intensos porém tolos, ele nos deixa com a sensação de que nos preocupamos excessivamente por algo que não era tão importante.

Ainda assim, um disco grande, que só vai deixar Anthony satisfeito quando entrar em pelo menos 10 listas importantes de fim de ano. Talvez consiga. Só espero que, depois deste exercício de vaidade (às vezes deslumbrante, mas não sempre), ele ainda tenha energia para se aventurar em galáxias mais misteriosas, em sonhos que nos perturbam no dia seguinte.

Sexto disco do M83. 22 faixas, com produção de Justin Meldal-Johnsen. Lançamento Mute Records. 68.

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