Mês: agosto 2011

Dreams come true | CANT

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Muito além de uma capinha bonita, Dreams come true é o disco de estreia do CANT, a outra banda do baixista do Grizzly Bear.

O que, aliás, soa como uma apresentação incompleta. E injusta: além de baixista, Chris Taylor toca outros instrumentos, colabora com backing vocals e produz os discos do Bear. Devemos a ele, portanto, os cumprimentos pela atmosfera anuviada de grandes álbuns como Yellow house, de 2006.

Mais: Taylor também produziu discos do Department of Eagles (projeto do colega da banda Daniel Rossen), Dirty Projectors e de calouros talentosos que apadrinhou na gravadora Terrible Records, de que é dono: Twin Shadow, Acrylics e Blood Orange.

O que se esperava de Dreams come true era, por tudo isso, um disco (no mínimo) produzido com enorme esmero. O que não deixa de ser verdade. Mas minha impressão é de que Taylor sofre de um mal que acomete produtores/compositores como Dave Sitek, do TV on the Radio, e Timbaland: faz do álbum uma espécie de portfólio técnico/criativo, uma peça sortida e sem foco.

A identidade do CANT, naturalmente indefinida, se torna confusa quanto mais Taylor tenta abrir atalhos sonoros para a sonoridade da banda. O disco começa cheio de tremeliques de pista de dança (Too late too far tem um quê de Twin Shadow, que participou do álbum) e vai ficando soturno, aflito, ao se aproximar do fim.

Não se sabe exatamente o que Taylor quer: e a indefinição fica ainda mais latente quando se percebe que as faixas mais poderosas, Bang e She’s found a way out, soam como remixes dark do Grizzly Bear. Quando termina a última faixa, percebemos que ele não chegou a lugar algum.

Parece decepcionante. Mas, ouvindo pela terceira, pela quarta vez, o disco começa a soar menos torto, mais envolvente do que parece. Talvez seja o caso de sintonizar corretamente as nossas expectativas.

Afinal, ele é um projeto “pequeno”, escrito e gravado em uma semana (durante as sessões de Veckatimest, do Grizzly Bear). É como se Taylor, com George Lewis Jr (o Twin Shadow), transportassem a sonoridade do Grizzly Bear para um ambiente sem iluminação, prá lá do apocalipse.

E, se essa rapidez do processo deixa transparecer as referências da banda (Joy Division, synthpop, drone, Portishead fase Third), ela mostra, à vera, um músico destemido e insone, que merece ser responsabilizado por muitas das belezas do Grizzly Bear.

O importante, no caso, é que Dreams come true não soa como um sonho tranquilo: Taylor se recusa a jogar para a torcida, e (diferentemente do que acontece com o Department of Eagles) os fãs do Grizzly Bear vão encontrar uma banda talvez selvagem, desagradável, nova. Melhor assim.

Primeiro disco do CANT. 10 faixas, com produção de Chris Taylor. Lançamento Terrible Records. 68.

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Os discos da minha vida (top 3)

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Chegamos ao top 3, amiguinhos. E não se assustem: o visual do blog mudou (por aqui é tempo de mudanças), mas este sítio permanece limpo e produtivo, gerenciado por gente sincera e trabalhadora.

E, caso vocês cansem deste layout, prometo trocá-lo por outro. Mas aquele antigo, me perdoem, já deu.

Agora vamos ao ranking, ok? O disco de hoje é um monstrão, talvez o álbum mais loucamente criativo do rock, mas pra mim ele soa um tanto triste. Talvez vocês entendam por que ao ler o textinho a seguir.

Semana que vem conheceremos ao fim desta saga. Foi uma eternidade – que passou até rapidinho (eu avisei!). Tá perto, e vocês nem vão perceber quando chegarmos lá.

003 | White Album | The Beatles | 1968 | download

Fazia mais de um ano que eu não conversava com meu pai, mas desta vez resolvi enfrentar o telefone. Foi um diálogo curto – que, de acordo com o visor do meu celular, durou dois minutos e trinta e quatro segundos. Ele: alô, tá bem?, tudo certo?, trabalhando muito?, e a irmã?, e a mãe? E eu: sim, não, mais ou menos, cê sabe como as coisas são, tá ótimo, é.

Eu, francamente, não dizia coisa com coisa (porque não tinha nada a dizer); e ele revidava com resmungos (talvez porque não estivesse bem por algum motivo, mas nada disso me diz respeito).

Um espectador daquele teatrinho talvez percebesse algo estranho naquele telefonema lacônico de domingo. Mas era esse o nosso papo habitual. Pai e filho fazendo de conta que nada havia mudado, de que o tempo não havia passado, de que estava tudo bem. Não estava. Mas fazer de conta quase sempre funcionava. Era isso ou encarar mistérios que nos machucariam.

Não somos nem nunca fomos sujeitos corajosos.

Perdi meu pai de vista acho que aos oito (talvez nove) anos, quando ele ainda estava presente. Não lembro quando ele desapareceu, mas acho que foi no dia em que comecei a notar que, se pudesse, ele seria empurrado lentamente pela vida, ladeira acima, como um bloco pesado de cimento. Era um homem que não parecia conseguir se mover por conta própria, sempre à espera do solavanco do acaso.

Quando percebi quem ele era, e quando atentei para o fato de que (por alguma razão mística) eu estava começando a me tornar muito parecido com ele, me afastei naturalmente. Depois que nos mudamos de cidade – eu, mãe, irmã e padrasto -, o pai encontrou uma desculpa para se camuflar completamente numa vida bege.

E, honestamente, nunca me deixei importar muito por esse silêncio que se impôs entre meu pai e o restante da família. Minha irmã sofreu e se rebelou; eu tentei me colocar no lugar dele (um homem tímido, apático, porém amável, justo, bom) e relevei tudo.

Comecei a me incomodar com essa distância há pouco tempo, quando percebi que talvez a minha relação com meu pai chegara ao fim. Ele com sessenta anos, eu com trinta. Ambos adultos e desconhecidos um para o outro. Nossas ligações telefônicas se transformaram em compromissos obrigatórios e por isso enfadonhos. Isso até o dia em que, sem que nada de especial ou dramático acontecesse, paramos de conversar.

E hoje, se você me perguntar, talvez eu diga que não sei se é possível resgatar o que, para mim, nunca pareceu tão importante. Não consigo sentir raiva do meu pai porque me acostumei a não contar com ele.

O que sobrou do velho foram fotografias, algumas marcas do meu temperamento (e luto contra todas elas), o meu jeito de andar, o meu rosto meio quadrado, o meu sorriso, a minha testa (ele está em todo lugar), um pouco da minha preguiça.

Também sobraram algumas das músicas que ele ouvia, e as músicas que ele me ensinou a ouvir. Um disco dos Beatles sempre reconstruirá ao meu pai, feito um holograma, mesmo que eu não queira. Os discos dos Beatles (mais que os discos de qualquer outra banda) carregam alguns dos sinais mais positivos que guardo daquele homem. Talvez por isso eu guarde esses discos como quem preserva moléculas essenciais dentro de uma geladeira de laboratório.

Mais do que todos os álbuns dos Beatles, é o White album que representa para mim um mapa de genes. Cada música aponta para uma lembrança boa do meu pai, e sempre volto ao disco quando tenho a necessidade de reatar o elo com uma imagem fraternal que talvez nunca tenha aparecido de verdade.

Dear prudence, Blackbird, Julia… São algumas das canções de ninar que talvez tido vontade de cantar (mas nunca cantou). Back in the USSR, Helter skelter… São faixas que extravasam a rebeldia, a liberdade que eu esperava dele (mas nunca encontrei). Glass onion, Piggies… São músicas que me mostram o pai criativo e alegre que mora nos meus pensamentos, num canto do meu cérebro que talvez exista para que eu não enlouqueça.

Talvez a única imagem fiel do meu pai, a única imagem real, esteja guardada em While my guitar gently weeps: não sei por que, mas a voz quase feminina de George Harrison, melancólica diante de um mundo que está mudando (mas ele quer permanecer imóvel, num idílio infinito) é o retrato daquele moço barrigudo e afável, que hoje segue vivendo à margem de qualquer desafio, de qualquer risco.

É bem verdade que discos têm o poder de enclausurar lembranças, estados de espírito, sensações que remetem a momentos específicos da nossa infância, da nossa adolescência. Mas o White album, para mim, é um pouco como um disco que inventei para mim: o souvenir ilusório de um pai, uma mentira. Não sei o que John Lennon e Paul McCartney diriam ao perceber a criatura que produziram.

O que meu velho me ensinou de mais importante foi amar a música com a inocência de quem ama um bicho de estimação (e devo quase todo este blog a ele, de alguma maneira). O que entreguei em troca foi esta fotografia falsa e bonita: um monumento pop para o grande pai que nunca existiu. Top 3: While my guitar gently weeps, Dear Prudence, Blackbird.

Após o pulo, veja todos os discos que entraram neste ranking.

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Superoito express (42)

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Watch the throne | Jay-Z & Kanye West | 72

Parece que há algo muito errado, até defeituoso, quando os dois rappers mais poderosos do mundo se encontram para gravar um disco de 46 minutos de duração. Sabemos que, no hip-hop americano, o excesso faz parte do jogo (e não será difícil encontrar mixtapes com mais ideias que um álbum quádruplo de rock). Mas taí a surpresa de Watch the throne: é conciso, e não tão desconjuntado quanto prometia ser.

E, mais chocante que tudo isso, nem tão ambicioso quanto alguns de nós prevíamos. É como se Kanye West (de My beautiful dark twisted fantasy, 68 minutos) e Jay-Z (de The blueprint 3, 60 minutos) aproveitassem a ocasião para nos mostrar que nem sempre são os chefões controladores e obsessivos que dão a entender. Às vezes eles se divertem. E Watch the throne soa mais como feriado (é leve, até rasteiro em alguns momentos, sem tantos desafios para a dupla) que como um dia pesado de trabalho.

Pode soar decepcionante, para quem esperava um “statement” sonoro (como o primeiro The blueprint) ou uma epopeia sentimental (à altura de My beautiful dark twisted fantasy). Watch the throne é menos, bem menos – e nem consigo notar momentos verdadeiramente delirantes ou surpreendentes (ainda uma ou outra faixa brilhe com força: New Day, que relê Nina Simone via autotune, e That’s my bitch, com um Bon Iver irreconhecível). Noto o contrário: Kanye e Jay-Z se divertindo dentro da zona de conforto que criaram para eles.

E, se eu deveria sim ter me animado mais com essa ideia (um bom disco de Kanye ou de Jay-Z supera quase tudo o que se ouve nas rádios), o resultado me parece uma “victory lap” esquecível. Eles podem, eles fazem, mas este disquinho deixa um pouco de saudade dos discões que eles às vezes nos entregam – sim, os de 60 minutos.

Channel pressure | Ford & Lopatin | 79

Se Channel pressure é mesmo um tributo à poplândia dos anos 80, então o que vejo é Tron meets War games: o game da paranoia, como se o Muro de Berlim ainda estivesse de pé (e como se ainda estivéssemos todos esperando pela explosão nuclear e/ou pelo desembarque dos ETs de Spielberg). Mas tem bug neste sistema: aos poucos, o disco desta dupla americana se revela não somente uma festa retrô para trintões, mas um daqueles álbuns irônicos de electropop, nos moldes de Discovery (do Daft Punk) e United (do Phoenix), que usam a sucata nostálgica como material para uma criação que diz respeito ao tempo presente. Poucos discos soam tão atuais: principalmente no jeito despreocupado como flutua de estação em estação, dos excessos grotescos ao acorde mais singelo, quase brega (e Emergency room, acima disso tudo, é uma das músicas mais viciantes do ano). Modular o passado com uma aparelhagem toda nova: eis o desafio deste belo joguinho.

Instrumental mixtape | Clams Casino | 78

Clams Casino é o produtor de Nova Jersey que, dizem, cria no porão da mamãe a sonzeira oh-tão-sexy de rappers como Lil B, Soulja Boy e Mobb Deep. Esta mixtape instrumental, que ele distribui na web, mostra que o palavreado dos colegas às vezes atrapalham a arte do sujeito. De tal forma que ninguém vai sentir falta de vocais em faixas que nos surpreendem de 30 em 30 segundos e, por isso, nos entretém (aliás, é uma marca do estilo de Clams: bolar associações improváveis entre ritmos e gêneros, do rock progressivo à soul music setentista). It’s a keeper. Mas acho que seria interessante descobrir como ele se viraria num disco concebido para não ser acompanhado por vocais: aí sim, provavelmente estaríamos falando de um dos grandes álbuns do ano.

Electronic dream | araabMusik | 78

Se a mixtape de Clams Casino às vezes soa sortida como uma jukebox, a estreia do produtor Abraham Orellana (ou araabMuzik) impressiona por uma atmosfera de quase claustrofobia: quando paro de ouvir o disco, ainda fico com a imagem de um quarto pequeno e negro, fuzilado de minuto a minuto por flashes de estrobo. Tal como nos discos do The-Dream, o que temos é um produtor tentando agressivamente impor um estilo: que, apesar de não ser tão marcante ou original quanto ele acredita que é, cria uma tela específica, com limites muito bem definidos, e um temperamento que se reconhece de imediato. Para um primeiro disco, é de uma coesão incrível. Ainda acho, no entanto, que araabMusik criou uma mise-en-scene poderosa, mas à procura de um bom elenco de canções — poucas, acima de tudo Streetz tonight, ficam na minha memória quando a festa termina.

Superoito, duas vidas

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De madrugada ouvi um estalo que começava e parava, começava e parava. Parecia gota d’água caindo numa folha de metal. Mas deve ter sido um sonho.

Quando toca, o despertador do meu celular solta uma musiquinha doce, celestial feito sino de igreja. A tela do aparelho brilha e treme. Digitei 4h30.

Pedi pra ela programar o outro celular. Por via das dúvidas, desencargo de consciência, desconfiança, essas coisas. Vai que. Ela topou.

Mas pedi: quatro e quarenta, tá? Porque o som daquele aparelho é um bom-dia alegre, e eu não tava pra isso. Que é que cê tem?, ela perguntou. Né nada.

Antes disso eu chorei um pouquinho. A luz apagada, então ela não viu. Perguntou se eu chorava e eu disse não, né nada. Tava só lembrando, falei.

Chorei um pouquinho porque pensei no jeito como ela olha o laptop, naquela pose fixa e séria de quem desenha uma equação fatal. É lindo.

Sei que ela não gosta de homem que chora por qualquer coisa, daí que fiquei na minha. Era a última noite, mas eu preferia nem pensar muito porque.

Uns dias antes, acertamos que o futuro seria: casar (sem filhos), comprar panelas e pôsteres pra sala, videogame e um apartamento no alto da rua.

Ela é a mulher que eu amo.

Acordei às 4h30. E disse: desliga o celular que já-já toca. Ela esbarrou no botão sem largar o sono. Olha, encontrei alguém que sonha mais que eu.

Fui tomar banho. Pedi o táxi, que chegou em dois minutos. Pensei que-rápido, tomei um copo de chá, ela tava dormindo, um beijo e té logo, te amo.

Na minha vida número 1 chove uma chuvinha gelada, faz frio, visto dois casacos (um pullover e uma jaqueta), o ar arranha minha garganta e tal.

Encontro o taxista, ele também sente frio (parece que sente). Cinco da manhã, nem tem sol ainda, de onde você é? Ele pergunta, eu respondo.

Depois ficamos calados. Gosto de ver as ruas na madrugada da minha vida número 1. Dependendo da hora do dia, elas mudam de tamanho. De manhã são largas.

À noite são estreitas. Um dia, quase me atropelaram. Um careca com um cachorro briguento. Uma velhinha. Um mendigo maluco. Amo São Paulo.

São duas vidas. A número 1 é a minha preferida.

Ela vive dizendo vempracá, vempracá, me atiçando, mas ainda não é hora, a hora ainda vai chegar, às vezes sou um menino assustado, um guri bobo.

Então cabou o tempo.

Depois de duas semanas em São Paulo, era dia de voltar. Ao trabalho, à minha vida número 2, a mala cheia, mas desta vez deixei cinco ou seis camisas.

São Paulo sou eu. Brasília, minha outra casa, é uma cidade ampla. Talvez ampla demais. Vivo me perdendo lá dentro, mesmo nas quadras que conheço.

Quando o avião decolou, as nuvens todas desapareceram. Todas de uma vez. A chuva passou e o céu foi ficando avermelhado. São Paulo brincando comigo.

Outro dia perguntaram por que São Paulo e eu fiquei: hem? Não sei, deve ser por causa das pessoas que sobem e descem a Paulista, acho que sim.

Muita gente na rua. Cheiros da minha infância. Minha infância perto da praia. Aí descobri que o inverno em São Paulo pode ser o mais seco, o mais frio e cruel.

Tem isso. O avião ainda tava decolando quando lembrei do dia horrível no metrô, tanta gente apertada que parecia um atentado, mulher chorando etc.

Na poltrona do avião, homem dormindo e roncando. Tirei meu fone pra ouvir umas músicas, mas só consegui pensar tá errado, tá errado, tá errado, tá sim.

Tem esse chavão de que Brasília é hostil de tão seca. Eu acho que não. Eu gosto da névoa amarela e da poeira. E do céu azul sem nuvens: um lençolzão.

Minha mãe e meu padrasto foram me buscar. Ele sempre calado, preocupado com o que diz, com o que faz. Ela um pouco triste – de saudade, sei.

Não noto se meu padrasto tá melhorando ou piorando. Ele fica quieto, cada vez mais quieto, e a doença mordendo de um jeito que só ele sabe dizer.

Acaba que a gente se acostuma. Ele também. Eu e minha mãe. Minha irmã. Até os cachorros. Ele nunca foi tão amável. Minha mãe fez café com pão.

Mãe quer que eu fique, tenho que trabalhar. Minto: tenho sono, tou é sintonizando minha outra vida. A número 2. E a cidade já parece outra.

Nem sei que cidade é esta. Mudou muito. Mudou foi nada. Pra que essas ruas todas se dão voltas em torno delas próprias? Carros em silêncio, nem rádio.

Ligo a música no volume máximo porque não sei o que tou fazendo aqui. Não sei. A mulher fecha a janela. Não sei mesmo, moça, me desculpe, té mais.

No trabalho aparece o brilhozinho verde no celular. É ela. Quer saber se tou bem. Talvez sim. Certeza que não. Sempre machuca trocar de vida, só eu sei.

Arrancaram minha pele e trocaram por outra (mais ou menos isso). Como se eu fosse um personagem do David Cronenberg (a comparação mais exata).

Não sei o que essas pessoas querem de mim. Trabalho pra quem? Por quê? Meus amigos estão falando e não entendo. É hora do almoço e todos falam.

E parece que se passaram três meses desde quando acordei, naquela manhã. Hoje. Hoje pela manhã. Parece que o tempo alargou, não sei nem explicar.

Recebo mensagens da minha outra vida enquanto cumpro as tarefas do dia. Mais mensagens quando desço pra ir ao banheiro e pra lanchar. Paralelas.

Mais cedo discuti com minha mãe porque ela queria me dar de presente uma estante. E não preciso. Não vou ficar nesta cidade por muito tempo, mãe.

Não vou ficar, mãe. Não vai durar muito tempo. Mas ela quer que eu fique com a estante porque ela prefere não acreditar que eu queira ir embora. É.

Eu teria ficado abalado com aquilo. Ela péssima. Mas não sou um cara triste, contei uma piada, acho que ela ficou bem, depois nos falamos no telefone, ok.

Nem vejo como injustiça. Não saio reclamando. Não acho que exista isso, injustiças da vida, injustiças no acaso. As coisas são o que são e é isso, vamos.

Só que tá tudo errado e eu preciso resolver. Não posso com esse lá e cá. A cada mudança de pele, é como se me roubassem ânimo e eu envelhecesse.

No pulo de uma dimensão pra outra, algo se perde. Algo fica na outra cidade, e isso eu não recupero mais. Agora sou um personagem de K. Dick.

Não sei o que vou fazer depois, no dia seguinte. Ainda não posso planejar nada. Estou em trânsito, trânsito permanente, entre pedágios, andando.

E hoje foi um dos piores dias.

Depois do trabalho fui ao supermercado, comprei água e cereal, paguei uma conta na lotérica, vim pra minha casa, o apartamento cheirando a mofo.

As mensagens dela seguiam aparecendo, flashes da minha outra vida. Ela trabalhando, ela em quatro palavras por vez, ela desaparecida, ela etc.

No shopping, o restaurante anuncia: é o melhor da cidade. Não sei mais o que isso representa? Qual é o tamanho da cidade? Agora ela parece pequena.

Antes de chegar no apartamento, desci o eixo como quem explora e invade uma floresta. Quebrando troncos de árvores; tou perdido de verdade.

No último telefonema da noite, minha mãe perguntou se eu estava mesmo bem e eu disse que sim, né nada. Vamos seguindo, quem é que sabe?

Meus livros ainda espalhados no chão do quarto, e eu um pouco decepcionado por encontrá-los mais uma vez. Vocês deveriam ter sumido do mundo, não?

Eu enchendo a geladeira com garrafas de água. Eu e o cesto de roupa suja. Eu e a mala desfeita. Eu e meu laptop (que eu levo comigo de vida a vida). Eu só.

Já um pouco tarde, eu agora com sono e ainda paralisado (é o efeito do transe, não se muda de vida em vão), encarando a tela, esperando a ligação.

Aí ela aparece, às vezes só a voz. Quando ela aparece me sinto um pouco lá. E parece até que faço drama, porque as cidades ficam perto, não é fim do mundo.

Daí tento explicar que não é sobre distâncias. É sobre vida. Duas vidas. Duas vidas. E aí tomam como uma metáfora. E explico que não é metáfora. É o que é.

Outro dia perguntei pro meu padrasto: quando você percebe que esqueceu uma coisa importante, e volta àquele momento pré-esquecimento, como é?

Ele disse que há as coisas que ele esquece e há as que não ele não esquece. E que, hoje, as lembranças e as lacunas estão convivendo bem, sem crises.

Não sei como. Ele não sabe explicar. Confesso: tenho um pouco de medo de entender. Só sei que isso tudo, esses dias longos, nunca são do jeito como a gente quer.

2 ou 3 parágrafos | Melancolia

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Há os filmes muito ambiciosos, cheios de ideias e intenções: os superfilmes. Mas penso que às vezes nós, os espectadores mais esperançosos, nos esforçamos demais para encontrar num longa-metragem as reflexões urgentes e panorâmicas sobre grandes coisas – quando não sobre todas as coisas. Queremos que a fita de ação norte-americana nos diga algo importante sobre o governo Bush (e ela diz, se prestarmos atenção), enquanto que o drama sérvio pode ser que aponte para a crise de identidades no capitalismo globalizado. E, nessa ânsia de querer sempre muito assunto, talvez percamos de vista os filmes em si. Nos jornais, leio que Melancolia fala sobre o “mal-estar do mundo”. Talvez fale mesmo (Lars von Trier não é um cineasta de gestos pequenos). Só que prefiro encará-lo como um filme, me perdoem, menor. Não sei se pode. Pode?

Menor no sentido de que, na minha interpretação, ele não quer abarcar todas as crises do planeta (ou do século 21) dentro de suas 2h20 de duração. Não o vejo como um filme sobre o “mal-estar do mundo”, mas sobre um mal-estar específico, possivelmente sobre um estado de espírito: a depressão, o vírus da melancolia, o desencanto sem fundo (chame como preferir). A personagem principal é uma noiva deprimida (Kirsten Dunst, que ganhou Cannes), que vai congelando lentamente. O contraponto a essa mulher-estátua é a irmã da noiva (Charlotte Gainsbourg, que rouba a cena), sempre muito ativa, preocupada com todos os problemas. Trier opõe as personagens da forma distanciada e simétrica como costuma fazer, e nisso o filme lembra um pouco a estrutura de Dogville: tudo nos devidos lugares, quase didaticamente (as cenas iniciais, aliás, resumem a trama num slow-motion rococó).

Não é um filme para ser amado, acho (a primeira metade, que reprisa a ironia cruel e blasé de Festa de família, chega a ser tediosa). No entanto, ele cumpre um objetivo até “pequeno” de uma forma muito rigorosa: contamina a narrativa com a desilusão da protagonista, com essa desconfortável insensibilidade, e usa a premissa bombástica (à la disaster movie, na linha de Impacto profundo) como uma espécie de metáfora/hipérbole para a lente cinzenta que afeta o olhar de quem é atingido por esse apocalipse íntimo. Trier escreveu Anticristo enquanto estava abatido por uma depressão. O longa novo soa como o “day-after” dessa crise pessoal: imagens que remetem, agora “de longe”, a uma condição psicológica. Nesse sentido aí, me parece um filmezinho extraordinário. Mas que, pra mim, não quer explicar grande coisa alguma.

Trecho | O idioma do caos

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“Num conto que nunca cheguei a publicar acontece o seguinte: uma mulher, em fase terminal de doença, pede ao marido que lhe conte uma história para apaziguar as dores insuportáveis. Mal ele inicia a narração, ela o faz parar:

– Não, assim não. Eu quero que me fale numa língua desconhecida.

– Desconhecida? – ele pergunta.

– Uma língua que não exista. Que eu preciso tanto de não compreender nada!

O marido se interroga: como se pode saber falar uma língua que não existe? Começa por balbuciar umas palavras estranhas e sente-se ridículo como se a si mesmo desse provas da incapacidade de ser humano. Aos poucos, porém, vai ficando mais à vontade nesse idioma sem regra. E ele já não sabe se fala, se canta, se reza. Quando se detém, repara que a mulher está adormecida, e mora em seu rosto o mais tranquilo sorriso. Mais tarde, ela lhe confessa: aqueles murmúrios lhe trouxeram lembranças de antes de ter memória. E lhe deram o conforto desse mesmo sono que nos liga ao que havia antes de estarmos vivos.

Na nossa infância, todos nós experimentamos esse primeiro idioma, o idioma do caos, todos nós usufruímos do momento divino em que a nossa vida podia ser todas as vidas e o mundo ainda esperava por um destino. James Joyce chamava de “caosmologia” a esta relação com o mundo informe e caótico. Essa relação, meus amigos, é aquilo que faz mover a escrita, qualquer que seja o continente, qualquer que seja a nação, a língua ou o gênero literário.”

Trecho de Línguas que não sabemos que sabíamos, de Mia Couto.

Vomit | Girls

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Quase prosaico (mas muito apropriado) este vídeo para a música nova do Girls, também conhecida como A Melhor Música do Girls de Todos os Tempos. Vomit. E não a julgue pelo nome. A direção é de Austin Rhodes – e a vontade que dá é de sair dirigindo a noite inteira, just to feel like you’re okay.