Trecho | Sobre a crítica

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“Não temos o hábito de debater na escola, educadamente, como parte do processo mesmo de aprendizagem. Diferentemente do que ocorre em outras culturas, não faz parte da nossa experiência educacional argumentar, defender um ponto de vista, fundamentar uma opinião, procurar exemplos que a ilustrem, desenvolver um raciocínio para convencer o outro. Não aprendemos a, em seguida, parar para ouvir, ponderar, pesar os argumentos alheios, avaliá-los, ver em que medida eles devem ser refutados ou podem ser aceitos. Não nos ensinaram a construir sínteses nem consensos. Qualquer discussão entre nós descamba logo para o pessoal, o agressivo, o hostil. Vence quem ganha no grito.

A crítica é parte integrante do universo artístico quando ela própria, de alguma forma, participa da criação – e por isso é necessária. Um texto criador não se esgota numa leitura de dicionário ou filológica, que decifre o sentido literal do que nele está escrito. A crítica digna desse nome, criadora, usa a linguagem de tal maneira que explora a obra, aberta e cheia de sentidos, naquilo que a criação tem de profético, de certo modo. Ajuda a compor essa criação, a lhe dar sombra e volume, sem medo de submergir na coexistência de sentidos que caracteriza a linguagem artística, uma linguagem simbólica e trabalhada.

Dessa forma, a criação só tem a ganhar com o exercício de uma crítica desse tipo. Uma crítica nascida de uma espécie de provocação feita pelo texto comentado, um estímulo sedutor que desperta no crítico o desejo de escrever, ele também. Uma crítica que, por participar da criação, tem muito mais a ver com o prazer de pensar e de escrever do que com o poder de condenar ou exaltar que caracterizam um juízo final.”

Ana Maria Machado, em Silenciosa algazarra.

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3 comentários em “Trecho | Sobre a crítica

    Pedro Primo disse:
    junho 15, 2011 às 4:07 am

    Sofria bullying no colégio porque desde pequeno gostava de argumentar sobre tudo. Parece que nesse mundo – dos que falam mais alto – é proibido perder alguns minutos calado ouvindo uma opinião mais elaborada. Sobram as frases de sempre: é bom, é ruim, é chato. É pouco pra mim.

    Na segunda parte desse trecho ela fala da quantidade de sentidos que uma obra artística pode ter. Isso é o que melhor explica a atração que tenho por arte. Eu gosto de críticas onde o sujeito sai atrás dos mínimos nuances, dos signos por trás de um detalhe (por isso adoro os textos da Cinética).

    Bacana o trecho, diz muito sobre essa dádiva que é argumentar ou, como ela diz, expandir uma obra.

    Tiago Superoito respondido:
    junho 15, 2011 às 11:32 am

    Acho que li algum texto da Cinética, em algum momento, sobre essa ideia de que a crítica também pode fazer parte do processo de criação. Não lembro onde. Mas sinto que é por aí: dá um pouco de cansaço ler esses textos que analisam filmes/discos como se fossem escolas de samba, com notas pra cada “quesito”. Quando me pego cometendo esse tique, fico meio puto (e acabo cometendo às vezes).

    Bruno Machado de Oliveira disse:
    junho 18, 2011 às 3:48 am

    Brilhante texto da Ana Maria Machado. Luminoso, irrepreensível.
    A leitura de uma boa crítica pode ser tão ou mais prazerosa que a de um bom livro, ou que a experiência de ver um bom filme, ouvir um bom disco, etc.

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