Superoito express (39)

Postado em Atualizado em

Burst apart | The Antlers | 7.5

Como seria nossa amizade com o The Antlers se esse trio tivesse nascido em Londres e lançasse discos por uma grande gravadora (a EMI, digamos)? Talvez eles seriam rotulados como uma aposta da indústria musical para reforçar o segmento ocupado pelo Elbow, pelo Wild Beasts: grupos que, em maior ou menor intensidade, satisfazem os desejos de fã trintão que ainda torce para que o Radiohead grave um novo Ok computer (ou, vá lá, um outro In rainbows).

Mas, já que eles são nova-iorquinos e lançam discos por selos muito pequenos, a tendência é que essa história seja lida de outra forma, com um pouco de condescendência. Ok. É uma banda que soa tão sincera, tão verdadeiramente à beira de uma convulsão (corações sangrando!), que dobra nossa ranzinzice e faz com que desviemos o olhar daquilo que está na cara: Peter, Michael e Darby ainda estão digerindo muito lentamente, e com deslumbramento, o som dos ídolos (e, enquanto isso, criando derivações lindas como No widows e Putting the dog to sleep).

Ó, irmãos, cá está o dilema: diante de um disco tão apaixonante (e também tão óbvio, para padrões do indie rock), como proceder? Para cada referência superficial (e para cada versinho rebuscado que não chega a lugar algum), o Antlers vai criando um novelo sentimental que nos captura por completo. É singelo, às vezes apelativo, mas irresistível: por isso muito parecido com o primeiro disco do Band of Horses, Everything all the time. Menos monocromático e deprimente que Hospice, de 2009, porém mais arriscado, e por opção (se eles quisessem, gravariam um disco inteiro de climões sinistros). Me ganharam. Só não me saiam com um Infinite arms daqui a seis anos, ok?

w h o k i l l | Tune-Yards | 7

Merrill Garbus, a voz do Tune-Yards, poderia passar apenas como a musa perigosamente imprevisível da estação – o equivalente às meninas do Warpaint (temporada 2010) e ao Micachu and the Shapes (temporada 2009). E, de fato, whokill é um álbum cuja estranheza colorida, frenética, nos seduz logo na primeira audição – é disco perfeito, por isso, para jornalistas que trabalham demais. Quando ouço com mais calma, encontro: lo-fi pós-tudo feito com autoridade (Gangsta, Es-so), lo-fi pós-tudo que desbota com o tempo (My country, Doorstep), certa obsessão por violência (Killa), uma linda canção triste no lugar errado (Wooly wolly gong) e ideias de afro-pop que soam ainda imaturas, mas que talvez rendam grandes coisas nos próximos discos. É um grude. Mas é só o início.

Hot sauce committee part 2 | Beastie Boys | 6.5

Há os que compararam à energia teen de Licensed to ill (1986), há os que lembraram do espírito noise de Check your head (1992) e Ill communication (1994). Eu, que ouvi todos esses discos muitas vezes, não arredo pé: pra mim, Hot sauce committee part two vem no mesmo feixe de Paul’s boutique (1989) e Hello nasty (1998), discos em que a zoeira de samplers, que piscam feito árvore de Natal, domina a festa. Ouça Ok, por exemplo: é ou não é um filhotinho de Intergalactic? Soa como se eles tentassem, com muita força, reprisar o lance mágico. Taí: percebo uma banda tentando se reintegrar à própria mitologia – como o sujeito que, depois de uma crise, retorna à cidade de origem. Talvez por isso o disco seja um pouco parecido com qualquer outro que eles gravaram: e também um pouco melancólico, já eles próprios sabem como, em 2011, já não fazem mais tanta diferença assim.

Wasting light | Foo Fighters | 6

É, de certa forma, quase um irmão desse disco novo dos Beastie Boys – já que o Foo Fighters também faz um flashback para recuperar algo que a banda perdeu. Os mais recentes (principalmente Echoes, silence, patience and grace) eram discos muito técnicos, álbuns polidos, para disputar campeonato de eficiência. O que eles procuram aqui é a virulência dos primeiros discos e algo do desespero de Kurt Cobain – mas parece uma busca inútil, já que, por mais que se tente reprisar a juventude, tudo o que nos resta no fim do espetáculo é um grupo de adultos entediados, ricos, famosos, tocando rock numa garagem. A produção de Butch Vig é pragmática (como sempre), evitando espaços em branco, e Dave Grohl segue abastecendo o repertório para arenas superlotadas. Mas, pronto-falei: não consigo acreditar numa única palavra que ele canta. E, no mais, isto aqui soa mais ou menos como os discos anteriores: eficiente. Só que mais enxuto. É o bastante?

Circuital | My Morning Jacket | 5

Para uma banda que começou a carreira como uma espécie de Grateful Dead para fãs de Flaming Lips, o My Morning Jacket não poderia ter se transformado em algo mais distante daquilo que esperávamos dele: Circuital soa como Fleetwood Mac para fãs do Wilco. Eu não consigo ir contra essa filosofia de mudar e surpreender a cada disco, mas, deus!, taí uma das poucas bandas que deveriam parar de tentar. Quase todas as reviravoltas me parecem desengonçadas ou, no mínimo, equivocadas. Em Evil urges (2008), que era medonho, eles acenaram para Prince e Radiohead. Desta vez, eles criam uma espécie de mashup com Creep e Sting, numa faixa-título que resume as fraquezas do disco. Algumas faixas ainda retêm a graça country-rock do primeiro disco, mas vêm embaladas numa produção inofensiva, higiênica. O crítico da revista pode até curtir (olha lá, eles são inquietos!), mas duvido que ouça pela quarta vez.

Anúncios

18 comentários em “Superoito express (39)

    Diego Maia disse:
    maio 8, 2011 às 10:53 am

    E o Gang Gang Dance?

    Tiago respondido:
    maio 8, 2011 às 12:42 pm

    Você lê pensamento, Diego? Porque o Gang Gang Dance tava pra sair nesta fornada, mas acabei desistindo de última hora. Tenho que ouvir mais uma vez.

    Pedro Primo disse:
    maio 8, 2011 às 5:08 pm

    Acho que eu não entendo muito essa ideia de que um disco pode ter um efeito diferente em épocas diferentes, é uma coisa que me intriga. Preciso ouvir esse novo do Beastie Boys, mas pelo que eu entendi se saísse nos anos 80 como continuação de Paul’s Boutique faria mais sentido? É estranho demais essa falta de espaço para dinossauros do pop. Não vi a reação da crítica, mas no rateyourmusic é um dos discos mais amados do ano (um pouco atrás da PJ Harvey, do Antlers e do Fleet Foxes). Lógico que isso não é parâmetro, mas me pergunto se a maioria dos ouvintes de música levam essa ideia em conta.

    É um caso ainda mais estranho quando se olha os fãs que aprovam qualquer coisa que os ídolos fazem. Mas claro, há um exemplo que contraria tudo. O Dylan continua a lançar discos importantes e tão bons quanto os clássicos dele e, tanto o público quanto a crítica (principalmente no caso do mais recente, que bem, eu acho muito bom) parecem tratar como se fosse apenas MAIS um disco do Bob Dylan. É quase como se o cara não pudesse gravar uma obra-prima no século XXI.

    Viajei aqui, era só uma coisa que passa pela minha cabeça sempre que vejo discos novos de grandes bandas do passado.

    Ah, achei o do tUnE-yArDs muito bom, deve aparecer na minha lista de melhores do ano.

    Tiago respondido:
    maio 8, 2011 às 7:24 pm

    Respondendo seu comentário com um clichê bem sucinto, Pedro (mas que, neste caso, acho que vem a calhar): cada caso é um caso.

    Há espaço sim para os ‘dinossauros’ do rock. A PJ Harvey, por exemplo, gravou um disco interessantíssimo e muito atual, que tá sendo tratado como tal. Os discos do Beastie Boys e do Foo Fighters eu acho que olham pro passado, tentam buscar algo que se perdeu, são autoreferentes. Aí é outra história. O que não dá é pra tratar todos os discos de ‘dinossauros’ como se fossem grandes coisas. Mick Jagger, por exemplo, já gravou muita tranqueira solo.

    Um vício da crítica é tratar todo veterano consagrado como figuras à prova de balas. Outro vício é se deslumbrar com qualquer novidade mais ou menos diferente, como se ela fosse uma coisa imensa, transformadora (caso do Tune-Yards). Mas, se você levar em conta que jornalista mal tem tempo de ouvir um disco mais de 3 vezes, as coisas começam a se encaixar.

    Alê Marucci disse:
    maio 9, 2011 às 12:23 am

    6.5 pro disco do Beastie Boys? 6 pro disco do Foo Fighters? Vou baixar agora o do My Morning Jacket porque tenho a impressão que vou amar!

    Tiago Superoito respondido:
    maio 9, 2011 às 12:24 am

    Notei um veneninho sarcástico aí, hem. :(

    Alê Marucci disse:
    maio 9, 2011 às 12:25 am

    É que a gente tem discordado tanto que agora só vou baixar os discos pros quais você der nota baixa. ;)

    Tiago Superoito respondido:
    maio 9, 2011 às 12:27 am

    Nota 6 é bom.

    Pelo menos eu ficava feliz quando tirava 6 em matemática. Era tipo: uau, seis!

    Nota 5 não é tão bom. Mas não vejo como um desastre.

    Recomendo que você baixe o disco 7.5, no entanto.

    Alê Marucci disse:
    maio 9, 2011 às 12:33 am

    O 7.5 já está baixado, mas faz dias que não consigo ouvir nada além do disco 6.5. ;)

    Tiago Superoito respondido:
    maio 9, 2011 às 12:36 am

    É o charme dos underdogs! :)

    Daniel disse:
    maio 9, 2011 às 12:39 pm

    Sobre os “dinossauros”, Neil Young e seu Le Noise é um exemplo de como se manter relevante mesmo depois de décadas de carreira.

    Eu conheci o Antlers através do “Hospice”. Diante do que vc disse vou ouvir esse novo.

    Quanto ao Foo Fighters, acho que a nota 6 se aplica não só a esse disco (que eu até curti), mas à própria carreira deles. Acho que é uma banda, no seus melhores momentos, mediana.

    Pô, Tiago, eu gosto do Infinite Arms…rsrs

    Tiago respondido:
    maio 10, 2011 às 12:52 pm

    Sim, Le Noise é um bom exemplo de bom disco de veterano. Já Fork in the Road, não. :)

    Acho que você vai gostar desse novo deles, Daniel. BEM melhor que Infinite Arms.

    Vicente disse:
    maio 10, 2011 às 10:25 pm

    Não gosto de My Morning Jacket, mas “Fleetwood Mac para fãs de Wilco”? Isso não é depreciativo. Muito pelo contrário.

    Adalberto disse:
    maio 11, 2011 às 2:52 am

    Eu adorei Infinity Arms, e não seria nada mau se The Antlers saíssem com um disco tão bom e maduro quanto este daqui a seis anos, ok.

    Adalberto disse:
    maio 11, 2011 às 3:00 am

    Eu adorei Infinity Arms, e não seria nada mau se The Antlers saíssem com um disco tão bom e maduro quanto este daqui a seis anos, ok?

    Adalberto disse:
    maio 11, 2011 às 3:01 am

    Eu adorei Infinity Arms, e não seria nada mau se os Antlers saíssem com um disco tão bom e maduro quanto esse daqui a seis anos, ok?

    Tiago respondido:
    maio 11, 2011 às 4:39 pm

    Ok, todos curtem Infinite Arms. Só eu acho medíocre pra burro. Vocês venceram, amigos.

    Certo, Vicente, não é depreciativo. Mas resume bem a história toda.

    Daniel disse:
    maio 12, 2011 às 12:23 am

    Burst Apart é mesmo um belo disco.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s