Trecho | Um triplo escritor

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“De um lado, o autor quer ter sua palavra, quer ser dono de um estilo pessoal; de outro, a narrativa se volta para os personagens e para a maneira deles de falar. É um dilema.

Existe uma tensão fundamental nos contos e romances: podemos reconciliar as percepções e a linguagem do autor com as percepções e a linguagem do personagem? Quando o autor e o personagem estão integralmente fundidos, a linguagem corrompida do autor apenas mimetiza uma linguagem corrompida que existe na realidade. Mas, se o autor e o personagem ficam muito distantes, sentimos o hálito frio de um afastamento atravessar o texto, e começamos a nos incomodar com os esforços “super literários” do escritor.

O romancista, portanto, está sempre trabalhando pelo menos com três linguagens. Há a linguagem do autor; há a suposta linguagem do personagem; e há o que chamaríamos de linguagem do mundo – a linguagem que a ficção herda antes de convertê-la em estilo literário, a linguagem da fala cotidiana, dos jornais, dos escritórios, da publicidade, dos blogs, dos e-mails. Nesse sentido, o romancista é um triplo escritor, e o romancista contemporâneo sente ainda mais a pressão dessa triplicidade, devido à presença onívora do terceiro cavalo dessa troica, a linguagem do mundo, que invadiu nossa subjetividade, nossa intimidade.”

Trecho de Como funciona a ficção, de James Wood.

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