Dia: abril 1, 2011

Nine types of light | TV on the Radio

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Passei os últimos três dias lendo o livro novo do Dave Eggers, que se chama Zeitoun e conta a história real de um sobrevivente do Katrina, furacão que afogou Nova Orleans em 2005.

Para abrir a reportagem, Eggers usa um trecho de A estrada, de Cormac McCarthy. Boa escolha, já que a trama retrata um mundo que, aos poucos, acaba.

Ainda estou na página 212. O livro tem quase 400. Por enquanto, o personagem principal não virou o símbolo de resistência e perseverança, o herói de Homero que, creio eu, será eleito monumento para a luta e a tragédia de uma comunidade. O sírio Abdulrahman Zeitoun é, ainda, apenas um mestre de obras teimoso, forte, carismático, generoso… e comum.

O início do livro, por isso mesmo, é o diário de um trabalhador, pai de família, que tem uma história de vida talvez um pouco mais tocante (não muito) que a minha ou a sua. Quando pequeno, ele gostava de pescar no litoral sírio, acompanhado dos irmãos. Depois conheceu o planeta à bordo de um navio. Aportou nos Estados Unidos, abriu uma empresa de reparos, casou, cresceu.

A história edificante de Zeitoun começa quando a borda do Katrina esbarra na casa onde mora, no dia 28 de agosto. É uma tempestade violenta, mas não tão atípica. O desastre seguinte, quase silencioso, se mostra mais dramático: após o rompimento dos diques, a cidade amanhece submersa num líquido escuro, lamacento.

Dias depois, grupos de bandidos começam a saquear lojas, estuprar crianças, matar. Os jornais comparam Nova Orleans ao Velho Oeste. O prefeito ordena que os moradores façam as malas e saiam de lá. É quando Zeitoun desaparece.

Aqui chegamos ao meio do livro, que me parece o melhor de Eggers (gosto muito do primeiro que ele escreveu, Uma comovente obra de espantoso talento). O aspecto fascinante, para mim, está em como o escritor descreve com total simplicidade as atividades corriqueiras de um homem. Zeitoun trabalha, ama, encontra amigos, lembra dos irmãos, faz preces, toma café com as crianças.

Não é um deus. Pelo menos não até a metade do livro.

Me peguei devorando os parágrafos enquanto ouvia o disco novo do TV on the Radio, e taí uma experiência que recomendo a vocês. E não só porque algumas das músicas, como Keep your heart, são love songs mundanas para a véspera do apocalipse. “Mesmo se tudo desmoronar”, avisa Tunde Adebimpe, “eu vou preservar seu coração”.

No livro, o personagem se transforma gradativamente, sem que perceba, num ícone, numa referência associada a um grande episódio histórico. O TV on the Radio, nosso herói, parece caminhar no sentido oposto: uma banda que, depois de ter explorado galáxias, retorna lentamente ao solo, à vizinhança.

Parece absurdo comparar livro e banda, mas pense de novo: se há um personagem recorrente nos discos do TV on the Radio, ele é o homem comum confrontado com um mundo em crise. A banda sempre observou temas urgentes por uma perspectiva íntima. Até Dear science (um disco cujo estilo foi descrito como “rock cósmico”) fecha com uma música chamada Lover’s day.

Desde Ok calculator, o primeiro disco (de 2002), o grupo tenta conciliar o desejo quase científico de experimentar sons (e aí entra Dave Sitek, o “cérebro” das invencionices da banda) com a vontade de interpretar o início do século 21. É tanta ambição que, não por acaso, algumas das músicas soam como objetos alienígenas: perfeitos, polidos, mas sem fragilidades humanas.

Talvez essa mania de perfeição perturbe a banda, já que Nine types of light é o álbum mais mundano que eles gravaram. Nas três primeiras faixas, soa como um disco de amor em primeira pessoa, macio e palpitante (Keep your heart e You são postcards românticos). A sonoridade testada em discos anteriores – que combina funk, eletrônica, R&B, rock e soul music – aqui aparece com bordas arredondadas, com uma luminosidade pop que nos lembra o projeto mais recente de Sitek, Maximum Balloon.

Imagino o que teria acontecido se a banda fosse corajosa o suficiente para expandir o tom dessas três primeiras faixas ao restante do disco. Não é bem o que acontece. Há outras três faixas que apontam para essa nova fase (Will do, Killer crane e Forgotten). Mas, para cada passo adiante, o TV on the Radio acende uma lanterna para o passado: o funk eletrificado, em mil cores, agressivo de No future shock, New cannonball run, Repetition e Caffeinated consciousness remete aos dois discos anteriores e, apesar de vibrante, desvirtuam o álbum, amenizam o choque.

Ainda assim, mesmo nos momentos de deja vu, Nine types of light nos mostra uma grande banda (uma das maiores que temos) com total domínio da sonoridade que encontrou para si. A coesão é tanta que fica difícil identificar quem faz o que, ainda que Kyp Malone e Jaleel Bunton se façam notar. Mas o desafio de “humanizar” o estilo e os temas preferidos do TV on the Radio é vencido apenas até certo ponto.

E isso acontece porque, ao contrário do livro de Eggers, o que percebo é um grupo de super-heróis num duro processo de transformação em homens comuns.

A naturalidade do livro falta ao disco — é como se o TV on the Radio se esforçasse para abandonar o peso de responsabilidades quase sobrenaturais. Fica a impressão de que, quando se mete a comentar aquilo que faz parte do nosso cotidiano mais trivial, a banda perde um pouco a razão de ser.

Ainda assim, nos resta o som que esses incríveis cientistas produzem: tão reluzente que nos afeta mesmo quando tentamos olhar numa outra direção. Poucos discos de 2011 vão nos atingir dessa forma, com essas melodias de neon e acrílico, criadas com uma tecnologia que desconhecemos.

Taí a ironia da coisa: o disco mais humano do TV on the Radio – o mais frágil, o mais amável – ainda paira acima de todos nós, mortais.

Quinto disco do TV on the Radio. 10 faixas, com produção de Dave Sitek. Lançamento Interscope Records. 8/10

Heart in your heartbreak | Pains of Being Pure at Heart

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O disco mais polêmico da temporada, quem diria, é o fofo Belong, do Pains of Being Pure at Heart. A Pitchfork deu nota 8.2 pros nova-iorquinos. A New Musical Express lascou um 3. Nada contra a controvérsia: discordâncias são saudáveis numa crítica que me parece cada vez mais padronizada. Difícil, porém, é torcer o nariz para o clipezinho colorido que eles escolheram para abrir os trabalhos do álbum. Entenda como um curta-metragem sobre a doce vingança de uma banda de rock amadora. Dirigido por Mike Luciano.

Helplessness blues | Fleet Foxes

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Era a terceira vez que minha namorada vinha à cidade e eu sabia que, naquele fim de semana, acabaria acontecendo. Minha mãe nos reuniria na sala para abrir, um a um, todos os meus álbuns de fotografias.

Confesso que ainda me sentia despreparado para o ritual sangrento. As fotografias me levam a lugares para onde prefiro não voltar. Mas fiz que estava tudo bem. Para simular macheza, puxei o coro: “as fotos, mãe!”

Elas, é claro, estavam todas lá. Empilhadas no armário do corredor, no alto, à esquerda. Os álbuns zoneados, socados de qualquer jeito naquele espaço minúsculo, naquele sarcófago retangular. Estavam vivos, por um triz.

O mais lógico seria adotarmos a ordem cronológica. Começaríamos pela infância (flashes serenos), depois seguiríamos adolescência adentro (meu pântano) até chegar aos meus 20 anos (raras aparições para as lentes).

As fotos recentes praticamente não existiam, graças a deus e, principalmente, à tecnologia digital.

Aquele espetáculo não era novo. Assisti a ele tantas vezes que o roteiro me parece previsível mesmo quando as cenas são embaralhadas e narradas de forma aleatória. Como eu dizia, seria útil adotarmos a ordem cronológica.

Seria, mas não parece ser o método mais prazeroso. Minha mãe prefere tirar os álbuns na sorte, abrir primeiro o que estiver à mão, e se surpreender com as fotografias que aparecem. Talvez por hábito, o jogo também me agrada.

Naquele sábado, não lembro qual foi o primeiro álbum que o acaso escolheu para abrir nosso flashback. Sei que era um da minha infância.

Nessas imagens, estou quase sempre fantasiado – de super-herói, palhaço, índio, soldado. Reconheço que existe graça naquele menino tímido, assustado, metido em roupas exóticas. “Nessa ele tá doente, coitado”, minha mãe avisa, sempre.

Minha namorada riu com a foto em que apareço vestido de Rambo, exausto na escada de casa. Também parece ter gostado de ver que, como eu havia avisado, já pesei uns bons quilos a mais. Na cena, eu estou com uma camisa larga, amarela, de viseira, na festa da posse do presidente. Barrigudo. Sorrindo.

Para mim, as fotografias carregam mistérios que não consigo decifrar. Olho para elas e é como se eu não me visse. Não sou aquele menino encabulado. Não sou aquele adolescente sem jeito (de óculos e cabeça raspada). Não sou aquele sujeito gordinho do rosto redondo. Não sou o adulto com traços de menino, que aparece de camisa social apoiado no monumento do Muro de Berlim. Não me reconheço muito bem.

Estive em todos esses lugares, fiz todas essas coisas, mas as fotografias dizem muito pouco sobre quem eu sinto ter sido. É como se contassem a minha história pela metade, com um roteiro terrivelmente superficial.

Ou talvez (muito possivelmente) ainda exista um problema na forma como eu me noto. Sigo insatisfeito com o que fui e com o que sou. Talvez as fotografias reflitam a minha dificuldade de aceitar que sou mesmo aquela pessoa, aquele menino, aquele adolescente, aquela face que as imagens mostram. Admito que bate uma certa decepção.

As fotografias estão sempre do mesmo jeito. Eu é que as encaro com olhares diferentes. É um sujeito comum, o garoto das fotos. Mas não o homem que eu queria ter sido.

Pensei um pouco nisso tudo enquanto lia a apresentação do disco novo do Fleet Foxes, escrito pelo vocalista, Robin Pecknold. É um textinho franco, bonito, que termina tentando explicar o título do álbum, Helplessness blues. “Um dos temas principais é a luta entre quem você é e quem você quer ser”, ele explica. “E sobre como, às vezes, a única barreira entre uma coisa e outra é você mesmo.”

Robin tem 25 anos de idade. Lembro que, quando eu tinha 25, essa angústia já me perseguia. Parecia enorme a distância entre quem eu era (o sujeito que aparecia nas fotografias) e quem eu queria ser.

Acredito que essa distância, aliás, se impõe de forma abrangente em Helplessness blues, o segundo disco do Fleet Foxes. Esse espaço incalculável entre os nossos desejos e aquilo tudo que conseguimos, de verdade, realizar (e tudo que realizamos sempre nos parece tão pouco).

Para começar, é um disco que quer ser grande. Ainda no texto de apresentação, Robin fala que pensou em Astral weeks, de Van Morrison, para compor a atmosfera “de transe” dos arranjos. “Foi uma grande inspiração. Não sempre nas músicas, talvez na abordagem”, apressa-se a explicar. Ele sabe que, por mais que tente, seria impossível se colocar à altura do ídolo.

Mas por que não? Robin se cobra demais. Eu o entendo. Helplessness blues pode ter muitos defeitos, mas está explícito que este é o melhor disco que o sujeito consegue criar neste momento.

É a vontade de superar as próprias limitações, de ir até onde é possível, de tentar se aproximar daquilo que é uma ideia de perfeição (inatingível, portanto), que faz deste um álbum verdadeiramente tocante.

É um disco sobre um homem de 25 anos procurando respostas para aquilo que não entende muito bem. Crescer não é simples.

Vejamos, com cuidado. Logo no refrão da primeira música, Montezuma, encontramos um Robin espantado, em meio a uma brisa de violõs dedilhados e vozes masculinas: “Oh man, what I used to be! Oh man, oh my, oh me!” (um trecho que dispensa tradução). É o instante catártico de uma faixa que abre com uma questão filosófica: “Agora estou mais velho do que meu pai e minha mãe quando tiveram a filha delas. O que isso diz sobre mim?”

Talvez não diga nada (é uma perguntinha aparentemente tola), mas o disco todo tenta respostas para essa aflição. Não é um álbum plácido, apesar de conter um punhado de melodias folk por vezes angelicais.

A canção seguinte, Bedouin dress, fala sobre arrependimentos de juventude. “Acredite em mim, não é fácil olhar para trás”, avisa o nosso guia. Depois, em Sim sala bin, o que entra em cena é um personagem que vive bem no mar, sozinho, até o momento em que a terra treme e “o sonho quebra”.

Percebemos aí que é uma música sobre decepções amorosas que não foram bem resolvidas, que se escondem no oceano até o dia em que rompem o marasmo. “O que faz com que eu te ame apesar de todos os poréns? O que eu vejo nos seus olhos além do meu próprio reflexo?” Ainda não dá para responder. A faixa vai se alongando em camadas e camadas de violões, Van Morrison style, à deriva.

Em Battery kinzie, uma das melhores do disco (imagine aí um encontro de Zombies com Byrds), os versos de Robin ficam mais abstratos. “Acordei um homem morto, sem chances”, ele diz, antes de mergulhar no surrealismo. As canções seguintes formam um ciclo tanto musicalmente (os violões onipresentes, os arranjos com um quê de pop barroco, a âncora melódica lançada nos anos 70) quanto em versos sobre uma jovem velhice, um desencanto prematuro.

É assim que o disco caminha, com olhos marejados. “Fui criado para acreditar que eu era alguém único. E agora, depois de muito pensar, começo a me ver como uma máquina na engrenagem”, confessa o vocalista, na faixa-título. Mas conclui, um pouquinho esperançoso: “Não sei como tudo isso vai terminar. Um dia, você vai ver, vou voltar para você.”

O que me emociona neste disco é isto aí: o Fleet Foxes é uma banda de rock muito competente, muito elogiada (o primeiro álbum esteve em quase todas as listas sérias de melhores de 2008), excelentes músicos, mas que ainda se sente incompleta, imatura. Não saber como tudo vai terminar, no caso, me parece o grande mérito deles – e o maior fator de identificação com um público que também reconhece estar, de certa forma, perdido. Eu e, talvez, vocês.

Helplessness blues, apesar da estrutura engenhosa (é um disco mais trabalhoso que o anterior; duas faixas são suítes à la Brian Wilson, por exemplo), se mostra tão descomplicado, quase singelo, tão ingênuo quanto o anterior. Pode ser resumido como uma homenagem ao folk rock e ao pop psicodélico dos anos 60 e 70, “com ênfase nas harmonias vocais de grupo”, como explica o vocalista.

Antes que o acuse de roubar velhas ideias, o próprio Robin lista as referências: Peter Paul & Mary, John Jacob Niles, Bob Dylan, The Byrds, Neil Young, CSN, Judee Sill, Ennio Morricone, West Coast Pop Art Experimental Band, The Zombies, SMiLE-era Brian Wilson, Roy Harper, Van Morrison, John Fahey, Robbie Basho, The Trees Community, Duncan Browne, the Electric Prunes, Trees, Pete Seeger, and Sagittarius.

O impressionante é que os discos do Fleet Foxes não soam especificamente como obras de algum desses artistas, mas como a massa de lembranças de um fã que poderia passar toda a vida flutuando em músicas antigas. Não estamos diante de um álbum do Midlake, por exemplo, que tenta reproduzir o passado. As letras de Robin são pessoais, comovidas e diretas. O som produzido pelo quinteto – caloroso, aberto – segue essa trilha.

O vocalista conta que muitas das novas músicas foram compostas no período em que foi convidado para abrir shows de Joanna Newsom. Ele teria que se apresentar sozinho e, pór isso, se viu obrigado a criar canções em modelos mais convencionais, que soassem suficientemente fortes ao violão. Esse repertório de trovador dá a Helplessness blues uma qualidade quase démodé de disco-de-songwriter, com versos que merecem ser lidos e decorados pelos fãs. Canções king-size.

A admiração por Newsom acaba aparecendo em faixas quase preciosistas como The shrine, que poderia estar em Have one on me. Robin, mesmo quando não quer, se deixa contaminar pelos experiências que vive, mesmo correndo o risco de parecer um subproduto de artistas já maduros (e é o caso de Newsom). O quinteto que o acompanha também se arrisca: não estamos falando de uma banda que se contenta com alternativas seguras (apesar do foco num gênero muito particular).

Numa primeira audição, Helplessness blues pode parecer um disco que se esforça demais para soar grandioso. Que vai se afogando lentamente no oceano turvo que escolhe para si. É uma impressão enganosa. Robin é um herói ordinário, e é isso que nos aproxima dele. É o que torna essas canções tão humanas e tangíveis – hinos ultrapassados e inseguros (nada a ver com a valentia pomposa de um Arcade Fire, note) para o fim da adolescência.

Ouvir o disco é encontrar alguém muito parecido com quem somos: talvez não tão jovem para voltar correndo para casa, mas ainda não tão velho para compreender com um pouco de lucidez o mundo onde vive. Em Robin descobrimos um amigo distante, um homem também desconfortável com as próprias fotografias. Não é o músico mais moderno, mais ousado, mais sagaz. Mas voltaremos a ele sempre que nos sentirmos um pouco desnorteados – um pouco fora de tom.

Segundo disco do Fleet Foxes. 12 faixas, com produção de Phil Ek. Lançamento Sub Pop. 8.5/10