Os discos da minha vida (32)

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A saga dos 100 discos que cegaram a minha vida chega a um episódio de estourar as retinas: dois discos reluzentes, brilhantes, que nos obrigam a usar óculos escuros. 

Não adianta, meus amigos: a tendência é que os textos desta lista se tornem cada vez mais descontrolados, dramáticos, um derramamento de lágrimas sem fim. São álbuns tão luminosos já me arrepio só de ver as capas.

Nessa altura, vocês já sabem como este neverending ranking funciona. Ele não obedece a nenhum tipo de critério muito prático e a única certeza que temos é a seguinte: provavelmente, ele não acaba nunca. Ok, falando sério: são discos que estiveram lá nos momentos mais importantes da minha vida e que, de certa forma, determinaram a forma como ouço música. Eles explicam quase tudo o que eu sei: atenção a eles, portanto.

E, caso vocês não os conheçam (duvido muito), há como fazer o download dessas joias.

038 | The soft bulletin | The Flaming Lips | 1999 | download

Em 1997, o Flaming Lips lançou Zaireeka: uma coleção de quatro CDs que, para serem compreendidos, deveriam ser ouvidos simultaneamente. Lembro que só conseguiu realizar a experiência uma única vez – depois de pedir emprestado o micro system do vizinho -, mas não esqueço a sensação: era como estar no centro de uma orquestra de space rock formada por um bando de músicos pirados. Era um projeto fascinante, mas só para os devotos de Wayne Coyne. Lançado dois anos depois, The soft bulletin transporta essa sonoridade 3D, obsessivamente criativa, para o formato de um disco de pop rock. O efeito, inebriante, não deixa nossos sentidos em paz. Interpretando o papel de um louco cientista de sons, o vocalista escreveu canções sobre ciência, filosofia, o espaço sideral e morte. No disco inteiro, a impressão é de que Coyne está surpreso, perplexo, eufórico com as músicas que inventou. Na última faixa, ele se desintegra diante dos nossos olhos. De volta ao pó, e certo de que não conseguiria repetiria o truque. Top 3: Suddenly everything has changed, Race for the prize, Waitin’ for a Superman

037 | Abbey Road | The Beatles | 1969 | download

A despedida mais tocante da música pop não é frágil e desconjuntada (como são os discos de bandas decrépitas, desunidas, aos pedacinhos), mas o oposto disso: seguros de que existe algo muito desafiador, muito excitante na ideia de escrever um capítulo final, os Beatles se reuniram para compor uma obra-prima. Especialmente no lado B, quando uma canção tropeça na outra e formam uma espécie de ópera-rock-n’-roll, a intenção de escrever uma obra definitiva supera as promessas da banda e as nossas expectativas: lá estava um disco singular, como ninguém ainda havia ouvido. Até chegar na apoteose que é esse desfecho, ainda nos deparamos com os Beatles na forma mais pura (Here comes the sun e Because) e na mais áspera (I want you, Oh! Darling). O futuro parecia enorme. Mas não olhar para trás é, no fim das contas, uma forma digna de dizer adeus. Top 3: The end, Because, Something.

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15 comentários em “Os discos da minha vida (32)

    Pedro Primo disse:
    março 22, 2011 às 12:34 am

    Adoro os dois, mas acho que não colocaria numa lista de favoritos.

    Do Flaming Lips o que entraria fácil é o Yoshimi battles the pink robots (que considero até inferior ao The soft bulletin), me lembro exatamente da minha sensação ao ouvir aquilo (na época eu era fã cego de Led Zeppelin e Pink Floyd), parecia tão louco, mas tão familiar. Sempre que ouço sou jogado àquela primeira audição assustadora. Os discos dos caras são sensacionais.

    Tiago Superoito respondido:
    março 22, 2011 às 12:53 am

    O Yoshimi é muito bom, mas eu não incluiria numa lista.

    Ailton Monteiro disse:
    março 22, 2011 às 1:52 am

    Acho que ABBEY ROAD é o meu segundo favorito dos Beatles, depois do album branco. Maravilhoso e emocionante! E “I want you” é música para fazer sexo com a cabeça turbinada! Nunca experimentei, mas imagino que seja o máximo! hehehe

    Ricardo Fontes disse:
    março 22, 2011 às 2:24 am

    O Soft Bulletin não conheço, taí uma boa oportunidade.

    Já o “Abbey Road” ouso dizer que é o melhor disco de uma das melhores bandas de todos os tempos. Perfeito do início ao fim. Se tivesse que escolher um disco dos Fab Four pra levar para uma ilha deserta seria esse!

    humberto junior disse:
    março 22, 2011 às 2:25 am

    de novo to orgulhoso de mim, tenho os dois cds da sua lista, ouco muito mais o abbey road, mas na epoca q era viciado no flaming lips, ouvia o soft bulletin direto, ouvia mais o yoshimi, mas gostava dele, ainda resta beatles na sua lista? pq pra mim nao resta mais nada deles na sua lista.

    e eu percebi que vc mudou a foto ali de cima do blog, agora eh quem que ta no layout supa?

    no dia primeiro de abril, coloca na lista de 100 discos, o angles, vai ser bom ver a reacao do povo. ou entao vc faz uma review gigante de um cd do parangolé. ia ser mto massa, tipo, “da pra ver claras referencias ao harmonia do samba na faixa…” ou “e assim na dualidade, fico triste… alegre, o jovem, mas competente, leo santana (o kanye west da bahia), mostra a dualidade da vida e morte, numa faixa barroca, que arrepia de tao emocionante.” fala se nao ia ser legal…

    Tiago Superoito respondido:
    março 22, 2011 às 2:35 am

    Ricardo, não é o meu favorito dos Beatles, mas está entre os favoritos. E taí uma ótima oportunidade pra conhecer o Soft Bulletin.

    Humberto, a foto lá do header é do James Blake.

    Ainda resta Beatles sim na lista, aguarde.

    Puts, crítica do Parangolé, é? Hahaha. Tenho que baixar o CD, então.

    Samuka disse:
    março 22, 2011 às 4:06 am

    Também possuo ambos os discos e gosto muito mesmo…

    Se tem uma banda que eu posso me declarar fã (do tipo que não consegue criticar racionalmente) é The Beatles e esse album é um dos meus preferidos, ficando atrás de “White Album” e “Sgt. Pepper’s”…

    Ah, e ficou bem legal o James Blake aí em cima.

    Tiago respondido:
    março 22, 2011 às 12:44 pm

    Também achei legal, Samuka. James Blake merece o topo do blog, hehe.

    Daniel disse:
    março 22, 2011 às 1:13 pm

    Hahaha, olha q essa idéia do Humberto é boa, hein?

    Sobre os Beatles, eu sou mais ou menos como o Samuka: eles são um caso à parte, diferente de todas as outras pra mim. Eu até conseguia fazer uma lista ordenada de preferidos, mas esses remasterizados embaralharam tudo. Até nos primeiros dos Beatles eu encontro coisas q eu não tinha descoberto ainda.

    Mas o Abbey Road é maravilhoso mesmo.

    Aproveitando q o tópico é oportuno: Tiago, vc encara mais uma maratona física e emocional como foi aquela noite no Morumbi? Ao q tudo indica o homem desembarca aqui no Rio em maio…

    Tiago Superoito respondido:
    março 22, 2011 às 1:17 pm

    Daniel, encaro sim, numa boa: pretendo ver o show dele no Rio, se conseguir ingresso.

    jonathan silva disse:
    março 23, 2011 às 2:38 am

    Segue a belíssima saga do Tiago. Parabéns pelas escolhas. Esse Flaming Lips também me pegou de jeito…The Spiderbite Song é de chorar!

    Thais Ninomia disse:
    março 23, 2011 às 2:51 am

    Conheço quase nada de Flaming Lips. Uma música aqui, outra ali. Vou aproveitar a oportunidade.

    Abbey Road é um dos meus preferidos. Confesso que o choro fica preso na garganta sempre que, ao fim do “ópera-rock-‘n-roll”, toca The end. Bom, é Beatles. Sem mais.

    Muito bacana a foto de James Blake. =D

    Diego disse:
    março 23, 2011 às 3:23 am

    Comecei a ouvir Flaming Lips pelo Yoshimi. Aí voltei ao Soft Bulletin. E acho que não preciso ouvir mais nada da banda. Não me interesso nada pelo Zaireeka.

    Fred disse:
    março 23, 2011 às 7:40 pm

    O disco de 2006, At war With the Mystics, também é fantástico. Embryonic eu não acompanhei, foi demais para mim. Mas os outros dois citados aí, Yoshimi, The soft bulletin e o que eu falei, considero obras-primas. Sou suspeito para falar de bandas como Flaming Lips (ou Wilco…).

    Ricardo Costa disse:
    março 24, 2011 às 6:45 pm

    E essa mixtape “House of Balloons” do The Weeknd, já escutou, Thiago ?

    Achei espetacular. Nada me fascinou tanto até agora, em 2011.

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