The king of limbs | Radiohead

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Já passamos da metade de King of limbs, o oitavo disco do Radiohead, quando Thom Yorke sugere, num falsete: “Vamos afundar e ficar em silêncio como camundongos. Enquanto o gato está longe, podemos fazer tudo o que quisermos.”

O trechinho deve inspirar dezenas de interpretações. Eu vejo assim: ele ajuda a entender o temperamento de uma banda que preza a liberdade – mas entende que não se pode conquistá-la sem alguma coragem, sem algum atrevimento.

A trajetória do grupo – principalmente desde Kid A (2000) – conta a história de cinco ingleses que viram a necessidade de criar um território particular, um lugar no mundo, para habitar e fazer tudo o que quisessem.

Esse desejo se manifestou num gesto musical (a “banda de canções” se transformou numa “banda de ambiências, de experimentos”) e também comercial, quando o quinteto rompeu com a EMI e passou a lançar discos por conta própria, criando ou reinventando as regras do próprio jogo.

A música passou a acompanhar as mutações comerciais, até porque eles sabem que não se consome discos como na época de The bends (1995) ou Ok computer (1997). A questão passou a ser: como uma banda pop deve se portar diante de um público que, quando começou a baixar músicas aceleradamente, desmistificou todo o esquema de divulgação e vendas criado pelas grandes gravadoras? Como lidar com um público que perdeu a inocência?

Com In rainbows (2007) e a estratégia do “pague quanto quiser”, o Radiohead criou um pacto com os fãs (os convidou para uma experiência de audição coletiva, mundial, sem área VIP para jornalistas) e descobriu uma forma de ganhar dinheiro com o vazamento do disco, sem brigar com o fato de que a troca de arquivos se tornou inevitável.

Musicalmente, o que surgiu foi uma banda também mais independente, mais relaxada (no bom sentido), despreocupada, mais acessível do que nos tempos de Kid A, amolecida por uma certa inspiração de soul music, uma massa eletrônica por vezes acolchoada, sensual. Não demorou para que aparecesse o veredicto: um Radiohead mais “humano”.

Tanto do ponto de vista comercial quanto musical, The king of limbs dá alguns passos para trás em relação a In rainbows. Em vez de permitir que o público pagasse o quanto preferisse, o grupo estipulou um valor para o download (US$ 9, para a versão em MP3). Em vez de planejar um capítulo novo para o som da banda, gravaram um disco que nos remete aos cacos de outros que já lançaram.

O que pode incomodar, acima de tudo, é a impressão de acomodação. Na manhã de sexta-feira, a experiência de audição coletiva se repetiu exatamente como eles planejaram. Já a sonoridade do disco, dividido claramente em duas partes, tenta uma conexão entre os momentos mais arredios da banda (a fase Kid A/Amnesiac, agora com tempero dubstep) e a languidez de In rainbows.

O encontro entre esses dois “estados de espírito” produz um disco de beleza incomum, difícil – um álbum quebradiço, assimétrico, incompleto, frágil, cujas peças não se encaixam. Provoca, por isso, algum mal estar. Tenho quase certeza, porém, que essa sensação de desconforto estava nos planos da banda.

Isso porque, desde In rainbows, Yorke critica o formato tradicional do álbum. Numa determinada entrevista, avisou que abandonaria de vez os discos – via internet, distribuiria conjuntos de canções, lançadas tão logo fossem gravadas. A banda voltou atrás, mas The king of limbs é um espelho dessas incertezas: ele acaba soando mais como uma reunião de faixas criadas durante um determinado período do que uma obra coesa, envolvida num conceito bem definido. Nesse ponto, lembra Hail to the thief (2003), que também apontava várias direções sem saber (ou sem querer saber) onde aportar.

As ligações entre as faixas são quase etéreas, e aparecem nas imagens de natureza (em Bloom, Lotus flower e em Codex, em que um lago representa a pureza) e em arranjos circulares, percussivos, por vezes alienígenas (o loop de Morning Mr. Magpie, por exemplo), quase sempre amparados na bateria jazzística de Phil Selway e no baixo de Colin Greenwood, que mostram o quanto a banda está ouvindo Flying Lotus e congêneres. “Obrigações, complicações, rotina e agenda, te drogam ou te matam”, diz Little by little, quase num remake da paranoia de No surprises.

Na segunda parte, piano e violão vão amenizando uma atmosfera de tensão e desencanto. Em vez de espezinhar o público, Yorke passa a confortá-lo. “Ninguém se machuca, você não fez nada errado”, em Codex. “Não me assombre”, pede Give up the ghost. O álbum termina dentro de um sonho bizarro e irresistível, de onde o narrador não quer acordar.

Até por ser curto (38 minutos), o disco parece aconselhar que voltemos às faixas várias vezes, até que nos familiarizemos totalmente com elas. Existe nessas músicas, até nas mais selvagens (Feral, digamos), uma aparência de criação doméstica, um som íntimo, sem bordas arredondadas ou produção padronizada, um som que dá a ideia de algo autêntico, que faz do ouvinte um cúmplice. O fã do Radiohead às vezes pode se sentir participando dos discos. 

Desde que se livrou das obrigações da indústria musical, o Radiohead passou a procurar no próprio estilo, na própria tecnologia digital de gravação, a pureza que encontra nos elementos da natureza e que, para a banda, é corrompida pela vida urbana – mecanizada, artificial.

O título do disco, não à toa, vem de uma árvore com mais de mil anos de idade. Raízes bem firmes na terra. Em The king of limbs, o Radiohead vai se infiltrando lentamente nas profundezas do terreno que criou para si. Sem todas as surpresas que sempre esperamos dele (por isso, um disco que pode parecer um tanto frustrante). Mas talvez o momento seja de mapear o habitat: enquanto o gato não vem, os camundongos sonham.

Oitavo disco do Radiohead. Oito faixas, com produção de Nigel Godrich. Lançamento independente. 7/10

35 comentários em “The king of limbs | Radiohead

    humberto junior disse:
    fevereiro 20, 2011 às 4:06 am

    pronto, agora eu sei o que pensar do the king of limbs, o texto ta supimpa supa. Superoito e a arte de fazer um cd fraco, ficar grandioso, e eu to meio que torcendo pra esse cd ser aquela historia de compilacao de lados b. pq o king of limbs ta me cheirando um amnesiac (o cd do radiohead, q so o thom e mae dele gosta). E o que vc falou sobre eles tarem ouvindo flying lotus faz mto sentido.
    eu vou eh ouvir lost in the supermarket agora. boa noite super oito.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 4:35 am

    Valeu, Humberto. Brigado.

    E eu gosto do Amnesiac, ouvi muito, mas reconheço que não é dos grandes discos da banda (pô, pelo menos a mãe do Thom tem bom gosto, então! haha). Boa noite, abraço!

    Pedro Primo disse:
    fevereiro 20, 2011 às 4:36 am

    Não sabia que você achava o Hail to the Thief tão torto, acho muito bom. Na verdade, fiquei esperando um 8 ou coisa do tipo. Mas é inevitável, o disco decepciona quanto mais você ouve. Não dá pra dizer que é um retrocesso, mas também não é evolução. E soa como você disse: um álbum de cacos. Entretanto tem tudo lá: liberdade, produção espaçada, boas letras.

    Também não achei o disco grande coisa, cheguei a achar no nível do Amnesiac, mas mudei de idéia. No entanto, acredito que a reação da crítica vai ser bem positiva.

    Agora depois disso tudo só consigo ficar com uma coisa na cabeça: será que eles vão além disso ou param por ai e viram mais uma banda?

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 4:47 am

    Eu gosto do Hail do the Thief, Pedro. Aliás, gosto de todos os discos da banda. Mas acho que, com o tempo, esse disco me parece uma encruzilhada, um momento de incertezas, um impasse. E eu li até uma entrevista em que a própria banda comenta isso, que essa sensação de não saber pra onde ir apareceu no início das gravações de In Rainbows, mas depois foi resolvida.

    Depois ouvi todos os CDs da banda novamente, um atrás do outro, e o Hail é realmente o mais irregular, o mais torto, não tenho dúvidas em relação a isso. Amnesiac é um prolongamento de Kid A, mas um pouco inferior.

    O King of Limbs eu acho que é retrocesso em relação ao In Rainbows, mas superior ao Hail to the Thief (já que a banda cresceu muito de lá pra cá, amadureceu bastante, tá muito mais segura do próprio som). Todas as marcas estão no Limbs, mas eles começam a se acomodar e isso é sempre perigoso. Pode ser ótimo, pode ser que eles estejam ganhando fôlego pra tentar algo diferente. Mas pode ser uma armadilha, muitas bandas já caíram nessa de tentar ‘exercitar’ o estilo e acabar caindo na irrelevância (U2 e REM, por exemplo). Eu espero que eles consigam ir além disso, mas não sei, não dá pra saber.

    A vantagem do Radiohead em relação a outras bandas “veteranas” é que eles sempre olham pra frente. É um diferencial, mas não sei até que ponto eles vão querer seguir adiante. Limbs me soa como uma pausa.

    Pedro Primo disse:
    fevereiro 20, 2011 às 4:51 am

    Eu ia citar esses dois casos ai (U2 e R.E.M.) – que esse ano poderemos ver no que vai dar. Mas foi bom ter lido isso, vou ouvir a discografia deles de novo e tentar olhar sem os olhos de fã que eu tinha.

    De qualquer forma, sempre teremos os dois monumentos deles Ok Computer e Kid A.

    Daniel disse:
    fevereiro 20, 2011 às 5:32 am

    Eu gostei do disco, e como vc deve imaginar eu prefiro a segunda metade do disco, embora esteja sempre retornando ao disco, como vc disse muito bem. É como se eu sempre estivesse à espera de uma percepção nova, um sentimento novo. Acho q esse é um dos fascínios do Radiohead, o q torna eles tão únicos.

    Claro, concordo com vcs: é inferior ao In Rainbows, pra mim um dos melhores discos da década passada.

    Voltando ao q eu comentava no post anterior: pra mim, bandas tem um período de ápice (umas com períodos mais longos q outras, e isso depende da capacidade delas de se re-inventar), em q elas estabelecem o seu legado. Mas o problema é: o q fazer depois disso?

    Eu tbm gosto do Accelerate do R.E.M. Mas se eu o ouvi 4 ou 5 vezes, foi muito. Na verdade, pra mim é até irrelevante se o disco é bom ou ruim. Pra mim eles já deram a sua contribuição à música, e uma contribuição brilhante, maravilhosa.

    Lembro de uma entrevista com eles, na época do Monster, em q eles diziam q jamais iriam querer fazer como o Pink Floyd ou Stones, lançando discos q nada acrescentam à sua discografia. Sei lá, eu acho q eles já estão fazendo isso sem perceber.

    Não acho q o Radiohead tenha chegado nesse ponto, mas podem estar se aproximando.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 12:47 pm

    Pedro, acho que dá até pra apontar os momentos em que o U2 e o REM deixaram de seguir em frente e se acomodaram, sem saber o que fazer com os próprios estilos: How to dismantle an atomic bomb (U2) e Up (REM), pra mim dois discos frustrantes.

    Mas eu acho que o Radiohead ainda não chegou nesse ponto, noto que King of Limbs é ainda irrequieto, e pelo menos tenta se mexer. Mas aí entra o que o Daniel apontou: pode ser que a banda esteja empacando sem nem perceber. Isso só vamos descobrir daqui a alguns anos, com os próximos discos, talvez.

    Será um problema, eu acho, se aquela parte da crítica mais devota (que costuma tratar o Radiohead como uma vaca sagrada) resolver colocar o rótulo de obra-prima em King of Limbs, porque aí é que a banda vai ficar parada mesmo. Espero que não aconteça, espero que tratem mais como um disco de transição (como Amnesiac e Hail to the thief) e menos como um clássico instantâneo.

    Mas o Radiohead já conseguiu nos surpreender antes. Quando Ok Computer saiu, todo mundo pensava que aquele seria o grande momento da banda. Aí veio Kid A. E depois veio In Rainbows. Então ainda acredito que, no caso deles, tudo é possível. Tenho fé.

    Diego disse:
    fevereiro 20, 2011 às 1:26 pm

    Não há uma There There em King of Limbs. Impossível este último ser superior ao Hail to the Thief :P

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 1:28 pm

    Não tem um Codex em Hail to the Thief, Diegão. Haha. :P

    Michel Simões disse:
    fevereiro 20, 2011 às 1:32 pm

    Sinto como se In Raibowns fosse algo incompleto para a banda, o Radiohead não se resolveu ali, precisava de algo mais, ainda tinha o que extrair, e nisso saiu esse disco. Torto, com duas faces, com canções que não devem virar hits. Ainda assim dentro de uma propostas de dor e amargura que só o Radiohead expõem, gostei muito, principalmente das canções da segunda metade.

    Diego disse:
    fevereiro 20, 2011 às 1:35 pm

    Codex não é muita coisa perto disso aqui, acho

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 1:40 pm

    Tá, Diego, também adoro There There, é uma das melhores músicas da banda, mas tem umas oito faixas de Hail que eu mal lembro. E ouvi o disco uma centena de vezes.

    Pois é, Michel, as canções da segunda parte são excelentes mesmo, acho que eles se resolvem melhor ali.

    Daniel disse:
    fevereiro 20, 2011 às 2:43 pm

    Codex é mesmo a melhor do disco.

    Jonathan Silva disse:
    fevereiro 20, 2011 às 3:31 pm

    Ótimo texto Tiago. Fico com a mesma impressão sobre o disco. Muita gente comparando com o Amnesiac e coisa e tal. Deve ser somente eu, não sei, mas considero o Amnesiac uma obra-prima. Como um disco com Life in a Glasshouse, Pyramid Song, You and Whose Army?, Knives Out, Dollars and Cents e Like Spinning Plates pode ser fraco? Se fosse de qualquer outra banda na atualidade seria venerado como o Kid A.

    Abraços!

    marcus vinicius disse:
    fevereiro 20, 2011 às 4:03 pm

    ” Desde que se livrou das obrigações da indústria musical, o Radiohead passou a procurar no próprio estilo, na própria tecnologia digital de gravação, a pureza que encontra nos elementos da natureza e que, para a banda, é corrompida pela vida urbana – mecanizada, artificial. ”

    Só pra fazer uma analogia. O Radiohead é o equivalente ao Paul Gauguin nas artes plásticas…

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 4:04 pm

    Concordo, Daniel. Com Separator brigando pela posição.

    Valeu, Jonathan. Também gosto muito do Amnesiac, não acho fraco de forma alguma. E foi um disco que cresceu com o tempo (tanto que a banda inclui muitas faixas dele nos shows). São sobras do Kid A, sim. Mas que sobras! hehe

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 4:05 pm

    É uma boa comparação, Marcus.

    Eles já tratam desse tema desde The Bends, mas acho que, a partir de Kid A, tentam levar esse conceito pra sonoridade da banda. E com a independência pós-In Rainbows, parece que eles encontraram um caminho.

    Thaís Ninomia disse:
    fevereiro 20, 2011 às 4:50 pm

    Antes de tudo, excelente texto. Concordo com o que escreveu sobre a sonoridade do álbum estar entre Amnesiac e In Rainbows, o que não é demérito algum.

    Sem querer parecer fanática, acredito que não há álbum RUIM de Radiohead. Apenas não tão excepcionais como OK Computer ou Kid A, por exemplo.

    É fato que qualquer lançamento do Radiohead gera altos níveis de expectativa. Afinal de contas, eles vêm se reinventado ao longo dos anos. E secretamente talvez fosse esperado algo bem distinto de In Rainbows (mesmo esse sendo ótimo!), justamente pela banda ter o poder de nos surpreender. Talvez por isso The King of Limbs pareça “menor”.

    A ideia de que Limbs seja uma “pausa” ou “transição” para algo grandioso é bem agradável.

    Sinceramente não acho que a banda se acomodaria, mesmo tendo opiniões superpositivas da “crítica mais devota” (mesmo com os exemplos de U2 e REM). Pelo menos não quero acreditar nisso. Seria simplesmente decepcionante.

    E sim, como disseram aqui, Codex é “a” música do álbum.

    Ainda com todas as ressalvas, Limbs é uma ótima opção para se ter no mp4.

    Abraço.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 5:02 pm

    Thaís, eu acho que King é um disco muito acima de média, se compararmos a outras bandas que estão lançando álbuns em 2011. Mas, se o padrão de comparação for a própria trajetória do Radiohead, acho que cai um pouco.

    Também não acho que eles tenham feito discos ruins. Ok Computer e Kid A são nota 10, eu daria um 9 pro The Bends e pro In Rainbows, Amnesiac é 8, Pablo Honey e Hail to the Thief, 7. Então eles estão muito bem no meu conceito. :)

    Thaís Ninomia disse:
    fevereiro 20, 2011 às 5:15 pm

    Ou seja, mesmo não estando em sua melhor forma, digamos assim, ainda se destacam muito. Isso é Radiohead. :D

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 5:20 pm

    Isso aí. :)

    Felipe Queiroz disse:
    fevereiro 20, 2011 às 6:42 pm

    Ainda preciso digerir mais algumas vezes, mas é aquele negócio, se fosse qualquer outra banda que tivesse lançado The king of limbs, seria a sensação.

    É impressão minha ou baixou o James Blake na faixa “Feral”?

    Pedro Primo disse:
    fevereiro 20, 2011 às 6:57 pm

    Hail to the Thief é objeto de estudo. Tem pelo menos cinco grandes faixas nele (There There, entre elas). A primeira parte é sensacional, depois fica esquecível mesmo.

    E não entendo The Bends, acho bom (nota 8), mas nada além disso. E Pablo Honey acho bem fraco.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 20, 2011 às 7:19 pm

    Se fosse qualquer outra banda, seria impressionante mesmo, Felipe. Mas o Radiohead tem uma história, ela é longa, então já dá pra avaliar os discos de acordo com parâmetros que eles próprios definiram.

    Tem gente que defende o Hail to the Thief e considera o melhor disco do Radiohead, Pedro. Nunca entendi os argumentos deles. Mas que tem, tem.

    Rodrigo disse:
    fevereiro 20, 2011 às 10:38 pm

    Limbs numa primeira audição é muito menos palatável a In Rainbows, um ótimo disco, mas bem pop. Radiohead tomou sua própria direção desde Ok Computer, que se consolidou com Kid A. Nunca serão comparados com U2 ou R.E.M. Poucas bandas tiveram a ousadia de trilhar seu próprio rumo independente do que a indústria sugeria. Ok, Pablo Honey é um post grunge ordinário, o que prova que o Radiohead é uma banda de rock progressivo. Vejam Live At Pompeei dos Floyd, que definem o rock progressivo de maneira fantástica. Progridem álbum após álbum. Se Limbs não é uma progressão, não saiu da linha definida dese Kid A e cá entre nós, se não buscarmos umas bandas alternativas bem indies mesmo, o que sobra hoje em dia?

    Pedro disse:
    fevereiro 20, 2011 às 11:25 pm

    Quase tudo que tinha pra falar do álbum já falaram, mas eu gostei bastante do álbum. Assim como a maioria, também prefiro a segunda metade que tem as três melhores músicas do álbum, Lotus flower, Codex e Give Up the Ghost (minha preferida). E achei que justamente a segunda metade é a que mais se assemelha ao som de In Rainbows.

    Ok Computer é aquilo né, sem comentários. Uma obra-prima que pegou a todos de surpresa. Eu li uma definição em um livro que tenho que acho que se encaixa, como se fosse uma mistura entre o psicodelismo do Pink Floyd e a melancolia de Jeff Buckley. Se sai bem tanto quanto um álbum conceitual, como se analisarmos música por música.

    In Rainbows vem me acompanhando frequentemente nos últimos meses. É um álbum sobre saudade, segundo o próprio Radiohead. E um álbum que me relaxa muito.

    Kid A eu ouvi poucas vezes. No começo estranhava muito, porque foi um dos primeiros que ouvi do Radiohead. Mas deixando tocar música por música repetidas vezes, vai se tornando familiar, um álbum único, de uma banda no auge do processo criativo, com som e texturas únicos.

    The Bends também adoro, tenho inclusive o cd. Mas se comparado aos 3 que citei corre por fora (apesar de também achar uma obra-prima).

    Pablo Honey talvez seja o mais fraco deles, mas eu gosto com moderação. Creep nunca deixará de ser uma música monumental. Seria um álbum bom para uma banda comum. E o Radiohead descobriria depois que se sairia melhor experimentando novos sons.

    Amnesiac também ouvi poucas vezes. Não é melhor que o Kid A, mas Life in a Glass House é uma das mais tocadas.

    Hail to the Tief então… preciso ouvir mais vezes. É o que menos ouvi, e não lembro de nenhuma música, com exceção de A Wolf at the Door e Scarttebrain.

    Jonathan Silva disse:
    fevereiro 21, 2011 às 1:22 am

    Não sei se vc leu isso Tiago, mas achei o texto bem interessante.

    http://www.ateaseweb.com/2011/02/21/radiohead-is-serious-listening/

    Abs

    Samuel Vaz disse:
    fevereiro 21, 2011 às 5:29 am

    Tiago, gostei da sua análise. Li muitas resenhas sobre o Limbs e achei a sua a mais sensata até agora. A maioria das outras são baseadas em uma ou poucas audições e eu não acho que dê pra fazer uma boa análise de um disco do Radiohead ouvindo tão pouco assim. Muitas músicas vão demorar um certo tempo para penetrar na minha pele.

    Quanto ao disco, gostei bastante, até porque não esperava uma “obra de arte”. O achei angustiante e até desesperador na primeira audição e, depois de mais algumas, me senti como se estivesse em um sonho sem fim, até Thom me acordar no final do disco: “Wake me up, wake me up…” (lembrando que adorei todas essas sensações).

    Evitei fazer comparações com outros discos da banda, e provavelmente esse não estará entre meus favoritos, mas também acredito que qualquer outra banda dificilmente conseguiria fazer um álbum como “The King of Limbs”. Se esse for um disco de transição, eu estou gostando da direção que estão tomando…

    Daniel disse:
    fevereiro 21, 2011 às 12:11 pm

    Colocando uma ou duas gotas de pimenta na discussão: se por um lado é possível (não certo) q esse disco fosse recebido com mais entusiasmo se não fosse o Radiohead a lançá-lo (pelo alto padrão q eles mesmos estabeleceram pra si), tbm é verdade q qualquer disco do Radiohead mais voltado para a experimentação é recebido como se houvesse uma “verdade” (péssima palavra, mas não me ocorre outra agora) oculta q o ouvinte só absorverá depois de várias audições.

    Todos nós já ouvimos discos q exigiram muitas e muitas audições até q nos “familiarizássemos” com eles, mas isso pra mim não é uma qualidade intrinsecamente falando. Eu disse INTRINSECAMENTE, notem. Não sei se deveria ser um fim em si.

    Não estou associando isso – necessariamente – ao caso específico do King of Limbs, falo mais em termos abstratos e no sentido de provocar uma reflexão.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 21, 2011 às 12:53 pm

    Rodrigo, acho que dá pra comparar o Radiohead com o U2 e o REM pelo menos num ponto: são bandas grandes de rock que tentaram se reinventar em vários momentos da carreira. Mas concordo que o Radiohead foi mais longe – rompeu com a indústria e hoje faz o que bem entende, ainda exista esse perigo de estagnação musical.

    Eu não sabia que In Rainbows era um disco sobre saudade, Pedro. Interessante.

    Vou ler o texto, Jonathan. Parece bom.

    Entendo a provocação, Daniel. Quando alguém quer convencer de que um disco difícil é bom, geralmente vem com essa de que merece “repetidas audições”. Talvez mereça mesmo, mas há casos em que, por teimosia, acabamos nos familiarizando com discos que não são tão fortes assim. É um assunto complicado, acho que vou voltar a ele num outro texto.

    Filipe Torres disse:
    fevereiro 21, 2011 às 3:30 pm

    Resenhar e criticar é sempre uma “arte”, talvez mais fácil do que criar um disco, mas isso não vem ao caso. Mas quando se trata de uma banda que as pessoas elegem como ícone (e todo mundo já falou aqui de U2, REM e do próprio Radiohead) um disco mais experimental é sempre objeto de muita discussão. E no caso do Radiohead, que de fato É uma banda experimental – não se pode negar isso -, acho que os âniimos acabam se exaltando porque a espectativa acaba fazendo da “experiência” de ouvir o disco quase como uma obrigação de se gostar do disco. E pra mim, chega a ser até irrelevante o fato de o disco ser unanimidade, se é “genial” ou uma merda. O fato é que poucas bandas como o Radiohead se arriscam tanto. Seria cômodo fazer um novo “Ok Computer”, um novo “In Rainbows”. “Kid A” não foram bem recebidos por parte do público e crítica porque acharam arriscado demais… pode ser que o álbum fique um tanto quanto relegado quanto o PH, HTTT e Amesiac, mas acho que todo disco deles tem um quê de criatividade (mesmo não sendo unanimidade) que a maioria das bandas em atividade não tem. Não é sucesso absoluto? Vai ou não ter outra parte? Será que funcionam ao vivo? Por enquanto ninguém sabe, mas pra mim o risco valeu a pena.

    Pedro disse:
    fevereiro 22, 2011 às 12:46 am

    Corrigindo ali, quando falei sobre o tema da saudade era para dizer do Ok Computer, que o Ed O’Brien mencionou em uma entrevista.

    Daniel disse:
    fevereiro 22, 2011 às 1:08 am

    Não quero tomar um puxão de orelhas do Tiago, de jeito nenhum, só quero estender um pouco a discussão, q acabou tomando um caminho interessante.

    Repetindo o q eu disse no outro post: eu NÃO acho q o experimentalismo, o correr riscos, etc., possa ser um fim em si, ou torne um disco “válido” por si só.

    Reparem tbm q, sem sentir, no caso de certas bandas e seus discos mais “difíceis”, a gente não use os termos “gostar”, “curtir”, e sim “familiarizar”, “acostumar”. Acho q é uma outra forma de se relacionar com a música, mas não acho q se deva condenar quem não gosta disso.

    Só ressaltando:eu GOSTO de Radiohead e inclusive gostei do disco.

    […] sonoridade de The King Of Limbs. Se você ficou curioso ou quer mais detalhes do álbum, encontrei aqui uma resenha super detalhada e que até pode nos situar um pouco melhor na trajetória da banda. […]

    G. Dylan disse:
    março 5, 2011 às 3:19 am

    Bela resenha.

    “A música passou a acompanhar as mutações comerciais, até porque eles sabem que não se consome discos como na época de The bends (1995) ou Ok computer (1997).” Quando li esse comentário, lembrei de outro aspecto que sempre me ocorre quando penso na transformação da indústria fonográfica: o limite físico dos álbuns. Assim como a passagem do vinil para o cd permitiu que albuns mais longos fossem escutados sem parar, achei que com a internet teríamos uma reinvenção do album. Mas não vejo isso acontecendo, talvez porque o próprio público não esteja preparado pra isso, ou talvez porque tudo ficou mais fragmentado e não mais longo e uníssono (exemplo disso é o disco do Radiohead ser “curto”).

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