Dia: fevereiro 1, 2011

Mixtape! | Janeiro, verão sem fim

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Janeiro de 2011: o primeiro mês do resto da minha vida. Verão sem fim.

Fico um pouco melancólico quando viro o calendário e noto que ele sumiu. Adeus, janeiro. Saudade de você, meu velho. Volte sempre. A casa é sua. Entre sem tocar a campainha.

Janeiro, verão sem fim. O som desta mixtape é o sol brilhando na janela – 31 dias incríveis no retrovisor. Semanas quase inacreditáveis. Se este CDzinho soa como um sonho muito aconchegante, é que não quero acordar. Pois bem, meus amigos: perdoem o excesso de formosura sonora.

Nem parece que 2010 terminou logo ali. Não é? Não é?

A mixtape de janeiro trata de segundas chances, fins de semana inesquecíveis, amor, química e açúcar. É um pouquinho inocente. E um pouquinho sexy. Um pouquinho juvenil. Um pouquinho abobada (mas é assim que as coisas são). Passei o dia ouvindo e posso afirmar que é a coletânea mais leve, mais boa-praça, mais cheirosinha que eu gravei. Dê de presente para a sua namorada.

É claro, este é um CD que eu gravei pensando na Alê, a mulher que está mudando minha vida. É para ela. Não são todas as músicas que dizem respeito a ela, nem a mim, nem a este blog, mas sabe o que acontece? Talvez seja melhor desviar a atenção dos versos e prestar atenção ao clima de canções que vão do power pop ao dream pop à soul music, que nos abraçam e não nos abandonam nunca mais.

A mixtape mais adorável do planeta, acredite. Um transe feliz. Look into the sky!

Ela contém doses viciantes de Peter Bjorn and John, Smith Westerns, Cut Copy, Gruff Rhys, Iron & Wine, Deerhoof, Adele, Joan as Policewomen, James Blake (que gravou o meu disco favorito do mês, e está abrindo o sorrisão na foto lá de cima) e Bright Eyes. Está uma delícia, garanto a vocês. 

A lista de músicas está, como de hábito, na caixa de comentários. Sabe aquele lugar que você devia frequentar, mas fica encabulado? Pois é. Tá lá.

Aposto que alguns frequentadores fieis deste blog vão avançar de colherada nessas melodias tão gentis. Melodias maiores que o mundo. Ouviu aí, Daniel? Vá fundo, meu bróder, que a hora é esta!

Então vamos todos juntos fazer o download da mixtape de janeiro. Certo? Joia? Bacana?

Depois (ou antes) de ouvir, se possível, um comentário para alegrar o meu dia. Vamos lá, gente! Tá quente lá fora, tem praia e mate gelado, todo mundo tá de férias e ninguém tem nada a perder. Aloha. E bom dia, fevereiro!  

PS: Ok, eu também às vezes me espanto com o meu otimismo recém-adquirido. Mas esse assunto fica pra depois. Vamos à mixtape, pode ser?

Superoito express (35)

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Zonoscope | Cut Copy | 7.5

O terceiro do Cut Copy é daqueles discos dedicados, espaçosos, que cobram nossa atenção pelo menos por uma noite inteira (a última faixa tem 15 minutos e se chama Sun God). Nota-se que os australianos estão aflitos para iniciar um relacionamento sério com público & crítica, mais ou menos como a garota que convida o namorado para jantar e prepara uma paella com cinco opções de sobremesa. E lá está o sujeito empapuçado, esparramado no sofá, pensando: “mas não precisava tanto…”

Uma das músicas atende por Blink and you’ll miss a revolution, e esta é uma prova de que os chapas — apesar da aflição — têm bom humor. No mais, estamos lidando com caso tardio de “tensão do segundo disco”, em que um novato bajuladíssimo se vê obrigado a honrar um álbum que nos conquistou lentamente, que roeu corações pelas beiradas (o ótimo In ghost colours, de 2008). Missão inglória. Mas taí.

Primeira consequência, inevitável: Zonoscope é mais gordo que o anterior, com um cenário mais vasto (a capa tem um quê apocalíptico) e novas combinações de referências dos anos 80 e 60 — de uma vez por todas, eles se esquivam de rótulos como “electropop” e “indie dance”. A primeira metade soa mais fluente do que a segunda; que, por sua vez, se aproxima das colagens de James Murphy (eletrônica pelo ponto de vista de fãs de rock). Mas, ao mesmo tempo, ele confirma uma banda que quer abraçar o mundo (Take me over é descaradamente um candidato a sucessor de Take me out, do Franz) e, ao mesmo tempo, soar imprevisível (a psicodelia de Where I’m going lembra outra banda australiana, o Tame Impala). Ben Allen, produtor de Animal Collective e do Deerhunter, faz a mixagem — talvez o responsável pela camada de poeira sonora que faz do disco um set turvo, dopado.

Muita gente vai elogiar (e esse tipo de esforço merece ser reconhecido), mas não vou esconder: é um álbum que me agrada quando relaxa os músculos — a parte final de This is all we’ve got, por exemplo, é uma lindeza. Deixa uma ótima impressão (e sim, vieram para ficar), mas… Não precisava tanto.

Dye it blonde | Smith Westerns | 7.5

No primeiro disco, de 2009, havia faixas como Dreams, Girl in love, Be my girl e My heart. No segundo, Weekend, Fallen in love, Smile e Dance away. Só pelos títulos, já se percebe que este quarteto de Chicago ainda não acordou de um sonho bom. E impressiona como eles conseguem prolongar este verão: Dye it blonde é um disquinho jovial de glam, power pop e certa melancolia teen (os integrantes têm entre 18 e 20 anos) que soa tão coeso, tão autoconfiante quanto a estreia do Pains of Being Pure at Heart, por exemplo, ainda que muito mais doce. E pode parecer simples, mas é algo raro — um álbum que soa muito agradável, mas nunca nos provoca com golpes de fofura barata. Várias doses por dia e aposto que dá espinha.

Ventriloquizzing | Fujiya & Miyagi | 6

Nos dias bons, Fujiya & Miyagi gravou faixas que soam como um Kraftwerk movido a antidepressivos — versos singelos, disparados como slogans publicitários, com texturas se sobrepondo de 15 a 15 segundos. É um modelo que ainda não me entedia (há pelo menos um grande momento neste quarto disco, Sexteen shades of black and blue), mas ele ainda não dá conta de justificar um disco inteiro. E, sinceramente, não sei se a situação melhoraria se eles decidissem lançar uma compilação com as melhores faixas da carreira: ainda assim soaria repetitivo, como se a primeira faixa fosse o suficiente. Em pílulas, no entanto, soam adoráveis.

Kills | jj | 6

Uma mixtape estranhíssima da dupla sueca, que sampleia quase didaticamente canções que conhecemos muito bem (Kill you, por exemplo, chupa Paper planes, da M.I.A., já batidíssima; também tem Power, do Kanye West) e vai “matando” uma a uma. Não conta como um álbum “oficial”, e esse tom de brincadeira deixa a banda mais livre para cometer todas as loucuras possíveis. Mesmo com tanta liberdade, não consigo encontrar muitas faixas realmente matadoras (perdoem o trocadilho), e em muitos casos a anedota não surte o efeito que eles desejam. De qualquer forma, uma banda capaz de tudo.

Os discos da minha vida (25)

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A saga dos 100 discos que conheço como a palma da minha mão chega a um capítulo especialmente doméstico. Vamos esfriar a cabeça e conversar sobre família? Só por um minuto?

Sei que há temas muito mais urgentes (questões sobre gagueira em O discurso do rei, para ficarmos num tópico muito quente), mas este ranking já é grandinho e anda com as próprias pernas. Deixem o moleque ser feliz, ok?

Voltando ao tema: família. Os discos de hoje se aninharam na minha vida graças às influências da minha mãe e do meu padrasto. Eu disse que seria uma listinha muito pessoal, certo? Sejam bem-vindos à sala de estar.

Também são discos que, durante a infância, eu detestava até a morte. Detestava até debaixo d’água. Detestava até com cobertura de chocolate. Detestava até com geleia de framboesa. Detestava. Detestava.

E detestava porque eles sempre estavam lá. Eles sempre estavam rodando na vitrola. Produziam ruídos familiares. Acredito até que fui um pouco alfabetizado por eles. Primeiro em português, depois em inglês. Quando comecei a crescer, e a rejeitar tudo o que pertencia aos meus pais, esses dois discos sofreram muito, pobrezinhos.

A redenção veio muito depois, quando eu fiz 20, 25 anos, e voltei aos álbuns que soavam como parte do meu organismo. Fui ouvir os discos a sério e descobri que eles eram velhos companheiros. Irmãos briguentos, mas adoráveis. Irmãos que desaparecem e depois voltam. Irmãos que, quando a gente menos espera, começam a fazer falta.

É esta a história. Vamos a eles, esses bastardos cheios de glória.

052 | Construção | Chico Buarque | 1971 | download

Entre os discos do Chico, não é aquele de que minha mãe mais gosta (de longe, o preferido é Almanaque), mas é aquele que gravei numa fita cassete e levei comigo. Com o tempo, quando abandonei os traumas de infância e me familiarizei com a discografia inteira do homem, descobri aquele que talvez seja o mais valente dos discos brasileiros. Destemido em tudo: nos arranjos épicos de Rogério Duprat (que o aproximam de uma sonoridade tropicalista, impensável nos álbuns anteriores, muito comprometidos com a tradição do samba), em versos que confrontam o regime militar com uma proximidade quase suicida, nas canções que descortinam um país tomado por um certo mal estar (mas um Brasil também infinitamente lírico, vasto). Tudo isso e sim, claro: um disco mais moderno do que 90% do que é gravado hoje no país. As mães, acredite, têm razão. Top 3Deus lhe pague, Valsinha, Construção.

051 | The dark side of the moon | Pink Floyd | 1973 | download

O disco favorito do meu padrasto sempre me pareceu de uma pompa insuportável. Lembro que, aos 12 anos, eu reclamava sempre que os sinos começavam a soar na sala – e isso acontecia praticamente todo fim de semana. Era o álbum que, na época, representava tudo o que eu queria combater: os enormes monumentos erguidos por meus pais. Eu me trancava no quarto e ouvia grunge, punk rock. Foi muito tempo depois, quando até o meu padrasto parecia ter se cansado do tilintar da máquina registradora (e de outros efeitos especiais), encontrei nas canções o lado obscuro da minha adolescência. O som que batia à porta do meu quarto. Foi como voltar àquelas tardes tão banais: meu padrasto encostado na janela, sugado por melodias que irradiavam de outro planeta. Uma parte da vida também foi engolida por este disco, e aí não importa mais se acho uma grande de uma chatice cósmica (mas fiquem tranquilos: não é). Top 3Breathe, Us and them, The great gig in the sky.