Coisas do Oscar | O discurso do rei

Postado em Atualizado em

Quando eu era pequeno falavam em “filmes do Oscar”, e aí eu logo imaginava dramas históricos, figurinos pomposos, atuações intensas, personagens que carregam o peso do mundo, roteiros com ambições literárias e temas quase sempre importantes (amizade, amor eterno, intrigas políticas, holocausto). Outro dia eu estava conversando sobre o assunto com um amigo – o tipo de papo nada frutífero, mas que, Freud explica, dá alegria aos nossos pobres neurônios – quando a pergunta apareceu: onde eles, os “filmes do Oscar”, foram parar?

De um tempo pra cá, a aparência é de que algo mudou: a Academia optou por valorizar fitas que foram selecionadas pelos estúdios depois de terem se destacado em festivais ou na mídia americana. Daí casos como os de Quem quer ser um milionário?, Onde os fracos não têm vez, Guerra ao terror, Os infiltrados, Crash – No limite. Acredito que o último vencedor a caber totalmente no antigo modelo foi Chicago, em 2003 (O senhor dos anéis é uma fita de fantasia, e Menina de ouro, apesar de ter cumprido o calendário da Warner para o oba-oba, foi conquistando os votantes lentamente, com apoio da imprensa).

Eis que, em 2011, ele reaparece. O discurso do rei (The king’s speech), o favorito da vez, me atirou à infância. O tipo de flashback, por essa perspectiva, desagradável. É o tipo de filme que cumpre rigorosamente as expectativas de uma Hollywood que, hoje, talvez se entedie com a própria imagem. Uma trama simplezinha sobre amizade – entre o rei George VI e o terapeuta vocal contratado para sanar a gagueira do monarca – embalada num contexto histórico em que Todas as Grandes Coisas Aconteceram (até Hitler entra no circo), com atuações “de pedigree” e situações que parecem muito, muito importantes, mas se esfarelam numa película esterilizada. For dummies.

A Disney (e isso nos momentos mais caretas, de animações como Mulan e Pocahontas) não faria melhor: no longa, a ideia talvez tenha sido garantir alguns tons de humanidade à figura dos nobres britânicos (notem, amigos: eles gaguejam!), mas a tintura é tão rala que surte o efeito contrário. George, para começo de conversa, nada mais é do que um poderoso bobalhão, com apenas três traços de comportamento (doçura, complexo de inferioridade, surtos de ranzinzice).

Mais que isso: é um homem invariavelmente bom, uma vítima de traumas terríveis, dos maus tratos do mundo. Talvez premiar um personagem unidimensional conte como uma reação à onda do 3D. Vá saber. Colin Firth se resolve como pode (e existe toda uma técnica vocal complicada que ele aplica ao tipo), mas o que fazer quando cada uma das cenas é calculada para cumprir leis muito envelhecidas de dramaturgia? Está tudo lá: o estranhamento provocado pelo primeiro encontro entre os protagonistas, a primeira ranhura na relação, os preparativos para um grande desafio e o clímax que pode ser previsto desde a primeira cena… Talvez sem intenção, essa narrativa do tempo da vovó acaba espelhando a decadência do modelo de poder que o filme glorifica. Os tios e as tias saem da sessão suspirando: ah, os reis e as rainhas!

Se não falei nada sobre Tom Hooper até aqui, é que o cineasta quase não se faz perceber. E talvez não apareça por não fazer diferença alguma. Não dá para dizer que ele tome o filme para si – este é muito mais um cosmético do produtor Harvey Weinstein, ex-Miramax, que curte esse tipo de entretenimento supostamente clássico, de peito estufado, um arraso nos quesitos técnicos. Mas, se o Oscar embarcar nessa e assinar embaixo, eu vou entender como retrocesso. Ou nem isso: será apenas um sinal de que a Academia muda para permanecer igualzinha. Meus pobres neurônios começam a se sentir aborrecidos com a brincadeira.

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46 comentários em “Coisas do Oscar | O discurso do rei

    Pedro disse:
    janeiro 30, 2011 às 10:53 pm

    Esse é o típico filme que eu não tenho o menor interesse em assistir.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 31, 2011 às 12:51 am

    Pedro, você não vai perder nada se não assistir ao filme.

    Pedro Primo disse:
    janeiro 31, 2011 às 1:17 am

    Abri um sorriso quando vi um texto sobre cinema aqui de novo, hahaha.

    Ainda não assisto, devo ver essa semana ainda. E o Firth, não merece o Oscar não? De qualquer forma, acho que vou ficar na torcida pelo Eisenberg.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 31, 2011 às 1:23 am

    Não se acostume, Pedro… Haha.

    Olha, a atuação do Firth é a melhor coisa do filme. Não consigo torcer contra. Mas ainda prefiro o Eisenberg.

    Felipe Queiroz disse:
    janeiro 31, 2011 às 3:07 am

    É o típico filme que também não me atrai. O favorito não era a Rede Social?

    Tudo bem que vocês aí odeiam Inception, mas não indicar o filme para montagem foi meio estranho, não? E o Nolan, coitado…

    Pedro K. disse:
    janeiro 31, 2011 às 3:44 am

    Mulan é um momento careta da Disney??? Pode me explicar porque?

    Diego Maia disse:
    janeiro 31, 2011 às 3:46 am

    Boa. O Discurso do Rei não é nem “filme de mãe”; é “filme de vó”.

    Pedrinho disse:
    janeiro 31, 2011 às 4:18 am

    pow… isso ai galera. Empolguei com o texto do super8. Esse tal de o discurso do rei não cola. Como disse o colega aí encima é o típico filme que também não me atrai. Prefiro muito mais a rede social.

    Pedrinho, 10 anos
    Cuiabá

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 31, 2011 às 8:56 am

    Felipe, o favorito era Rede Social. Mas os prêmios das associações de produtores/diretores/atores mudou tudo, agora O discurso do rei se tornou quase imbatível.

    Pedro, lembrei de Mulan e Pocahontas pq são filmes da Disney que se venderam como supostamente “pra frente” (as protagonistas são mulheres determinadas, etc), mas que me parecem tão conservadores quanto qualquer coisa que fizeram.

    Isso aí, Diego.

    Pedrinho, 10 anos?? Sério? Bacana, seja bem-vindo à caixa de comentários!

    felipe miguel disse:
    janeiro 31, 2011 às 11:08 am

    Pra mim quem deveria ganhar o OSCAR desse ano era CISNE NEGRO,mas to jeito que a carruagem anda vai dá mesmo é essa idiotice de DISCURSO DO REI,que aliás é o “filme-sonífero” de 2011!

    Diego Maia disse:
    janeiro 31, 2011 às 11:48 am

    Que massa o Pedrinho, 10 anos.

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 11:53 am

    Aliás, vários Pedros neste blog. Taí, vai ser o nome do meu filho.

    E Pedrinho, 10 anos, já preferindo A Rede Social a Discurso do Rei. O Brasil tem futuro.

    Jonathan Silva disse:
    janeiro 31, 2011 às 2:12 pm

    Ainda não vi o filme, mas dá para se ter uma idéia de como ele é. O interessante é que a crítica internacional gostou do filme, inclusive tem uma bela média de 88/100 no metacritic. http://www.metacritic.com/movie/the-kings-speech/critic-reviews.

    É incrível como o cinema gera opiniões tão diversas, inclusive entre pessoas entendidas do assunto. Percebo também uma questão “local” aí…tipo, os críticos nacionais geralmente malham/elogiam o mesmo filme, que muitas vezes diverge da opinião dos críticos internacionais.

    Belo texto, mais uma vez.

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 2:22 pm

    A ideia não era escrever uma “crítica”, Jonathan. Entenda como um desabafo.

    Compreendo o que você diz. E acho que esse “olhar distanciado” da crítica brasileira para os filmes estrangeiros pode ser muito interessante. São textos escritos, na maioria das vezes, sem obrigações com ninguém, sem rabo preso, comprometidos com as ideias de quem escreve.

    Faça a experiência inversa e observe os textos da crítica brasileira para filmes nacionais: há muita condescendência aí.

    Marcelo disse:
    janeiro 31, 2011 às 4:29 pm

    A opinião do Pedrinho é o que há de mais emblemático neste post. O Discurso do Rei requer maturidade para ser apreciado. Achei o filme espetacular. Depois de assistir, posso dizer que todos os elogios da crítica e as indicações ao Oscar são realmente merecidos. De todos os filmes que assisti na vida poucos foram tão inspiradores quanto este.

    Abs,
    Marcelo Paiva

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 4:36 pm

    Bacana o comentário, Marcelo, mas noto o seguinte: é um sinal de maturidade emitir opiniões sem a necessidade de desqualificar as impressões de outras pessoas, principalmente daquelas que você não conhece e/ou acompanha.

    Se você gostou do filme, sugiro que argumente em defesa dele. Isso é o suficiente. É disso (e só disso) que precisamos. Por que ele foi inspirador? Por que ele marcou a sua vida? Tudo isso me deixa curioso. Já o comentário de que é preciso “maturidade” para gostar do filme, sinceramente, não me diz nada.

    Abs.

    Marcelo disse:
    janeiro 31, 2011 às 4:40 pm

    O melhor comparativo: TOP 250 do IMDB.

    O Discurso do Rei: #113 (e subindo…)
    A Rede Social: #167 (e caindo…)

    Infelizmente para o Pedrinho, a média de idade do público inscrito no IMDB dificulta que o ranking concorde com as preferências de sua faixa etária. Uma pena…

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 4:42 pm

    Puts, meu velho, e medir “qualidade” de filme agora virou pesquisa quantitativa, é? Tô fora.

    Diego Maia disse:
    janeiro 31, 2011 às 4:48 pm

    O Discurso do Rei é bem isso que o Marcelo deu a entender: “inspirador” num nível “perfeito para aquela palestra do RH”.

    Pedro Primo disse:
    janeiro 31, 2011 às 4:49 pm

    Eu ri de “A Origem” em oitavo.

    Mas essa história de citar idade é maior covardia que se pode ter numa discussão. Eu tenho 19 anos e nunca escrevi um texto preconcentuoso como o do Rubens Ewald Filho sobre o “Tio Boonmee” – e pretendo nunca escrever.

    Soa como minha vó tentando me explicar porque eu não gosto de “Babel” do Iñarritu:”não é para sua idade”. Infelizmente para esse tipo de argumento de vovó só dá para fazer um coisa: ficar quieto.

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 4:57 pm

    Também penei por conta desse tipo de preconceito babaca, Pedro. Ouvi muito fulaninho de 50 anos (que viu dois filmes na vida) dizendo que é preciso “maturidade” pra gostar de alguma coisa. Faça de conta que não é com você, ok?

    Sim, Diego, vai ser hit em palestras de RH.

    Michel disse:
    janeiro 31, 2011 às 5:01 pm

    que vota no IMDB é internauta, nem precisa ter visto o filme

    Michel disse:
    janeiro 31, 2011 às 7:18 pm

    ah, esqueci de dizer que o Oscar nunca me decepciona, sempre premiando os filmes errados

    Vinícius disse:
    janeiro 31, 2011 às 7:25 pm

    Uma pena isso, Tiago. “A Rede Social” é, ao lado de “Zodíaco”, o filme mais maduro do David Fincher. Sofisticação técnica e um tanto de confusão temática. Me lembrou o Peckinpah e o Aldrich dos anos 70. Ainda não vi “O Discurso do Rei”, mas acho difícil ser melhor que o do Fincher.

    Bia disse:
    janeiro 31, 2011 às 7:46 pm

    Hahaha… Hit em palestras de RH é boa. Se o filme estivesse no TED talks certamente bateria a palestra da Jill Bolte Taylor.

    Mas, brincadeiras à parte, eu gostei bastante do filme. Achei O Discurso do Rei um tratado primoroso sobre a autoaceitação. Ele dramatiza de forma brilhante a dificuldade de fazer frente aos desafios da vida mesmo quando não estamos devidamente equipados para enfrentá-los.

    Acho que é isso que o torna tão universal. Embora estejam querendo rotulá-lo como um “filme sobre um rei gago”, acho que não é bem por aí. O Discurso do Rei é bem mais do que isso.

    A habilidade de se comunicar talvez seja a capacidade mais distintiva da espécie humana e talvez a mais essencial para conseguirmos ser bem-sucedidos na vida.

    Ao mostrar o drama real de um rei que, justo na época em que inventaram o rádio, não conseguia se comunicar direito para fazer frente aos facínoras eloquentes e malucos que ameaçavam a Europa e o mundo (Hitler e Mussolini), O Discurso do Rei transforma o desafio humano da comunicação em uma questão ainda mais crucial do que já é.

    Outra coisa interessante do filme, e da qual poucos se deram conta ainda, é que ele mostra o comecinho da revolução tecnológica que, ao final, iria resultar nessa grande rede de comunicação que o mundo virou. O rádio era o facebook e o twitter da época.

    Mas o preconceito em relação ao filme aqui no Brasil está tão grande que o pessoal nem consegue perceber essas riquezas contidas no roteiro.

    Nesse sentido, concordo quando dizem que o público brasileiro carece de maturidade para compreender filmes menos rasos.

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 7:59 pm

    Legal, Bia. Bem argumentado. E interessante essa comparação com Twitter e Facebook, ainda que eu não acredite que o filme queira chegar a tanto.

    O que me incomoda é essa parábola sobre “autoaceitação” deslocada para o contexto da monarquia britânica. Além de ser um tema batidíssimo, acaba por transformar o rei num herói unidimensional e a monarquia num conto de fadas. Pra mim não colou.

    E aí acho que nada tenha ver com maturidade ou imaturidade do público. Com que critério se mede isso?

    Vinícius, também acho Rede Social o melhor do Fincher, junto com Zodíaco.

      Bia disse:
      janeiro 31, 2011 às 10:26 pm

      Tiago,

      Apesar de nem todos perceberem isso, o filme gira em torno da necessidade de se comunicar, uma necessidade que foi se tornando cada vez mais imperiosa ao longo do século passado, por conta de invenções como o rádio, a TV, o celular, a internet, etc. E comunicar-se é tudo o que a gagueira impede o rei de fazer da forma como ele gostaria.

        Tiago Superoito respondido:
        janeiro 31, 2011 às 10:46 pm

        Sim, Bia. Isso eu percebi. Ainda que eu não veja como o tema central do filme.

    Renê disse:
    janeiro 31, 2011 às 8:42 pm

    Há no youtube uma entrevista do Colin Firth que mostra trechos de gravações históricas do verdadeiro rei George VI discursando:



    Excelente complemento para compreender melhor a história e ver que ela está muito longe de ser um conto de fadas, como quis sugerir o Tiago.

    Achei o filme redondinho. Cinema tradicional com roteiro bem amarrado, personagens tridimensionais, diálogos inteligentes, pontuados por tiradas engraçadas e sarcásticas. Figurino e produção esmerados, bela música, com algumas peças do repertório clássico.

    Prato cheio para quem vai ao cinema atrás de uma única coisa: uma boa história.

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 8:57 pm

    Mas Renê, nem encontrei uma história muito boa. Sério. Não vi isso. O rei gago, o terapeuta que o ajuda, nasce uma amizade, o terapeuta é sarcástico, o rei é tímido, ele vence o trauma e consegue se comunicar com a nação… Acho curioso, claro. Mas por que é uma história tão boa? Não sei. Desculpe, mas não achei.

      Renê disse:
      janeiro 31, 2011 às 9:45 pm

      1) O rei não é tímido. Ele é gago. São coisas diferentes. Embora o senso comum geralmente associe imediatamente uma coisa a outra, a gagueira é um distúrbio de fluência da fala que pode atingir qualquer pessoa, seja ela tímida ou extrovertida. Nelson Gonçalves, o boêmio, era gago. John Scatman, precursor do hipo-hop, também.

      2) Ele não vence trauma algum. O que ele vence é o medo de expor publicamente sua gagueira, o que pode ser comprovado no vídeo que te passei. Em nenhum momento do filme ele é mostrado como alguém que se curou da gagueira, o que seria uma fantasia. Se você entendeu dessa forma, então começo a entender o porquê de suas ressalvas.

      Lidar com um distúrbio de comunicação como a gagueira é uma experiência difícil, sobretudo por conta de tudo aquilo que as pessoas tendem a associar a uma boa fala: inteligência, simpatia, liderança, confiança, altivez, etc.

      Se você tem gagueira, ou qualquer outro distúrbio de comunicação, ainda que possua qualquer um dos predicados anteriores, as pessoas passam a julgá-lo como se você não os tivesse, porque tudo depende de como você se mostra através da fala.

      Gosto da forma como o filme desconstrói esse pressuposto, mostrando que, a despeito da gagueira, o personagem de Colin Firth estava mais preparado emocionalmente que o irmão (personagem do Guy Pearce) para assumir os fardos da monarquia, embora ninguém o visse assim.

      Assumir o lugar de rei do império britânico, naquele momento histórico, tendo que lidar com a gagueira, Hitler e Mussolini como adversários, não é pra qualquer um. E tem gente que ainda considera o cara tímido, nervoso e covarde só por causa da gagueira, que sequer era culpa dele.

      Preconceito é foda mesmo.

        Tiago Superoito respondido:
        janeiro 31, 2011 às 10:46 pm

        Renê, a intenção não era fazer pouco caso dos gagos. Eu estava falando da forma como o personagem aparece no filme. Apenas isso.

    Milla disse:
    janeiro 31, 2011 às 9:15 pm

    Firth merece o Oscar, ainda mais depois de não ter levado por “A Single Man”, e concordo com Felipe, é “Cisne Negro” na cabeça!!

    Tiago respondido:
    janeiro 31, 2011 às 9:38 pm

    Também acho: ele merece, Milla.

    Bia disse:
    janeiro 31, 2011 às 10:28 pm

    Tiago,

    Apesar de nem todos perceberem isso, o filme gira em torno da necessidade de se comunicar, uma necessidade que foi se tornando cada vez mais imperiosa ao longo do século passado, por conta de invenções como o rádio, a TV, o celular, a internet etc. E comunicar-se é tudo o que a gagueira impede o rei de fazer da forma como ele gostaria.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 31, 2011 às 10:49 pm

    Bia, respondi lá em cima.

    Jonathan Silva disse:
    fevereiro 1, 2011 às 1:27 pm

    Cinema é complicado. Não adianta argumentar, detalhar sua opinião nem nada, a pessoa com opinião contrária não vai dar o braço a torcer.

    E nem deve. Como falei no comentário anterior, pode-se encontrar dois críticos de cinema, ambos com belos textos explicando porque amou/odiou o Discurso do Rei. E cinema é bacana por isso…pelo menos na minha opinião. Vejo que a opinião sobre um filme pode ser afetada pelas experiências que vivenciamos no cotidiano, e cada um vive de um jeito, teve uma formação diferente, logo cada um deve ter sua própria visão do filme.

    Mas é bacana o debate…;)

    Tiago respondido:
    fevereiro 1, 2011 às 1:36 pm

    Concordo, Jonathan. O que vale é a qualidade do argumento. Em arte, não tem certo ou errado.

    Carol Almeida disse:
    fevereiro 1, 2011 às 5:38 pm

    Desculpe, Tiago, mas eu me curvo diante da majestade do filme O Discurso do Rei. Para mim é uma obra-prima.

    O momento mágico em que vemos em tela grande atores deixarem de existir e personagens nascerem
    é algo que nos acostumamos a presenciar no cinema e por isso mesmo o tomamos por menos. Mas a transformação que vemos acontecer em O Discurso do Rei é sublime. Porque no instante em que Colin Firth, Geoffrey Rush e Helena Bonham Carter assumem o controle da situação, assistimos a um filme cujo maior mérito é a abdicação: do status de ator e do status de cineasta.

    A câmera está aberta para a interpretação e, sem movimentos bruscos ou edições ousadas, ela deixa que os personagens caminhem com suas próprias pernas. Tom Hooper interfere o mínimo possível e está aí sua maior virtude. O que nos leva a pensar que no filme que mais recebeu indicações ao Oscar este ano existem duas histórias paralelas que se desenvolvem sobre as mesmas premissas. Confiança e cumplicidade. Entre os personagens encenados e entre o diretor e seus atores.

    Os elegantes movimentos invisíveis por trás da ação abrem o caminho para a história real de um herdeiro da coroa britânica cuja imperfeição mais privada é, por força do ofício, constantemente exposta em público. O homem que começa essa história como o Duque de York e termina como o Rei George VI (pai da Rainha Elizabeth II) tem voz, mas não consegue falar. Porém precisa e deve. Assim como tantos plebeus, ele é gago. E ao contrário de tantos plebeus, ele não pode gaguejar.

    Seria fácil, curioso e raso resumir esse filme à história de alguém que luta contra sua gagueira e cujo maior desafio é falar com voz firme e tranquiila para confortar uma Nação pouco antes do primeiro disparo da Segunda Guerra Mundial. Mas a disfemia do personagem é somente um pano de fundo para um roteiro cujos pilares estão na confiança e cumplicidade acima citadas.

    Apesar de expor um problema que nasce de uma questão coletiva – o governo falando com seus governados -, o filme é soberano mesmo porque mostra esse entrave de voz em sua esfera privada, íntima e fechada entre as quatro paredes que assistem à gradual relação que se constrói entre o herdeiro real e um falso médico cujas técnicas para distensão vocal são pouco ortodoxas.

    O Discurso do Rei é, portanto, esse gigante buraco da fechadura pelo qual conseguimos observar as questões e dilemas mais íntimos de alguém que nasceu preterido, sendo não o primeiro, mas o segundo nome na linha de sucessão ao trono inglês. E assistimos a tudo isso a partir dos sutis e determinantes relances na expressão dos personagens e, claro, no tom e ritmo de suas vozes.

    Colin Firth, predestinado a levar o Oscar de Melhor Ator este ano, se entrega física e psicologicamente ao seu personagem, criando um Duque de York totalmente legítimo no pavor que seus olhos demonstram diante de um microfone. Mas Firth se torna um ator ainda maior diante de suas contrapartes no filme. Helena Bonham Carter, no papel de Elizabeth, o faz parecer demasiadamente humano. Geoffrey Rush, como o terapeuta Lionel Logue, o faz gritar com raiva e fragilidade. Todos se completam em cena.

    A frisar novamente que este é o maior mérito do diretor Tom Hooper. Sem pesar sua mão sobre o tom do filme, ele deixa que os atores conduzam a movimentação. Com uma fotografia clássica e poucos movimentos de câmera, o filme se engradece ainda mais quando coloca em diversos momentos os personagens de Firth e Rush frente a frente. Bastante reticente quanto às técnicas revolucionárias de curar sua gagueira, o Duque de York é levado à presença desse homem que, segundo sua mulher Elizabeth, pode dar um fim a esse problema de ordem internacional. O contato inicial é ríspido por parte do Duque e promissor por parte do terapeuta.

    Eles trocam farpas, disputam inteligência, descobrem piadas, se rendem mutuamente. Sem brincadeiras de jograis. Somente a pedra lapidada de diálogos com força dramática e, claro, aquele cruel senso de humor britânico. Sim, O Discurso do Rei é um drama de fazer chorar, rir e, sobretudo, de se curvar diante de sua majestade. Me desculpe mais uma vez, mas eu AMEI o filme.

    Tiago respondido:
    fevereiro 1, 2011 às 6:56 pm

    Boa defesa do filme, Carol. Não concordo, mas boa defesa. Sobre a direção do Tom Hooper: não acho que ele se ausente do filme, mas meu incômodo é que ele acaba recorrendo a uma fórmula que já tendeu zilhões de outros filmes parecidos. Onde muita gente vê elegância eu noto um certo cansaço, preguiça visual.

    Michel Simões disse:
    fevereiro 2, 2011 às 1:22 am

    Mais uns dois parágrafos da Bia ou da Carol e corria o risco do filme se tornar meu preferido, que belas defesas! Por mais que eu discorde, mas são interpretações diferentes, respeito.

    Esse post tá pegando fogo, e com classe!

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 2, 2011 às 1:27 am

    Os fãs de ‘O discurso do rei’ curtem escrever, haha.

    Cardoso disse:
    fevereiro 11, 2011 às 4:49 pm

    Achei os comentários favoráveis ao filme bem mais embasados. Perdeu, Tiago.

    Lucas Duarte disse:
    fevereiro 22, 2011 às 5:27 pm

    Acho os comentários favoráveis ao filme melhores que o próprio filme.

    Marcelo disse:
    fevereiro 25, 2011 às 4:48 pm

    Atualizando o ranking:

    TOP 250 do IMDB

    O Discurso do Rei: #94 (e subindo…)
    A Rede Social: #181 (e caindo…)

    top 10 | Os piores filmes de 2011 « superoito.com disse:
    dezembro 16, 2011 às 5:34 pm

    […] ideia não foi escrever sobre os filmes superestimados que embrulham meu estômago (O Discurso do Rei), nem sobre os que me frustraram porque eu esperava muito deles (Inquietos), nem sobre aqueles que […]

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