Trecho | Os combates de verdade

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“Um dos balconistas era um farmacêutico quase adolescente, extremamente magro e de olhos grandes, que de noite, quando a farmácia estava de plantão, sempre lia um livro. Uma noite Amalfitano perguntou a ele, para dizer alguma coisa enquanto o jovem procurava nas prateleiras, de que livros gostava e que livro era o que estava lendo naquele momento. O farmacêutico respondeu, sem se virar, que gostava de livros do tipo A metamorfose, Bartleby, Um coração simples, Um conto de Natal. Depois disse que estava lendo Bonequinha de luxo, de Capote. Sem considerar que Um coração simples e Um conto de Natal eram, como o nome deste último indicava, contos e não livros, era revelador o gosto daquele jovem farmacêutico ilustrado, que preferia claramente, sem discussão, a obra menor à obra maior. Escolhia A metamorfose em vez de O processo, escolhia Bartleby em vez de Moby Dick, escolhia Um coração simples em vez de Bouvard e Pécuchet, e Um conto de Natal em vez de Um conto de duas cidades ou de As aventuras do sr. Pickwick. Que triste paradoxo, pensou Amalfitano. Nem mais os farmacêuticos ilustrados se atrevem a grandes obras, imperfeitas, torrenciais, as que abrem caminhos no desconhecido. Escolhem os exercícios perfeitos dos grandes mestres. Ou o que dá na mesma: querem ver os grandes mestres em sessões de treino de esgrima, mas não querem saber dos combates de verdade, nos quais os grandes mestres lutam contra aquilo, esse aquilo que atemoriza a todos nós, esse aquilo que acovarda e põe na defensiva, e há sangue e ferimentos mortais e fetidez.”

Trecho de 2666, de Roberto Bolaño.

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10 comentários em “Trecho | Os combates de verdade

    André disse:
    dezembro 15, 2010 às 7:09 pm

    Maior romance dessa última década; fácil.
    Depois tira um tempo e lê, também dele, ‘Os Detetives Selvagens’. Também LIVRÃO.

    Na verdade, manda ver em tudo que o Bolaño meteu a mão. Como o Roth, DFW, Pynchon, DeLillo e McEwan, ele não fez nada realmente ruim.

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 15, 2010 às 7:13 pm

    Cara, depois do 2666 eu acabei lendo quase tudo o que foi publicado dele no Brasil. Só faltam A pista de gelo, Noturno do Chile e os contos.

    André Bezerra disse:
    dezembro 16, 2010 às 4:54 pm

    A Pista de Gelo é demais!

    Mas o que eu vim comentar é sobre uma relação parecida que rola na música. Seriam os singles os contos e os álbuns os romances? E o público, cada vez mais, como este farmacêutico, preferem os singles?

    Abraço!

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 16, 2010 às 4:56 pm

    Acho que faz sentido, André. Mas quando postei esse trecho eu estava pensando nos discos ambiciosos.

    Ironicamente, o livro do Bolaño teve uma acolhida muito boa do público. Sinal de que nem tudo tá perdido, hehe.

    Pedro disse:
    dezembro 17, 2010 às 12:36 am

    Realmente, é muito bom, mas a obra prima do Roberto Bolaños (sim, ele é um cara plural) é o Chaves/Chapolim.

    Tiago Superoito respondido:
    dezembro 17, 2010 às 3:22 pm

    Ah sim, Pedro, eu tava esquecendo dessa.

    Lau disse:
    dezembro 18, 2010 às 4:01 am

    hum, vai mais um livro pra listinha. Algo que eu achei interessante nesse trecho é sobre o como escolhemos as obras terminadas e perfeitas. A questão de não querer ver a luta, a batalha real, é uma questão puramente egoísta. Gostamos dos livros que de alguma forma nos encaixamos, que nos servem perfeitamente, ou que são a imagem daquilo que queremos ser. Quem quer ser um Kafka inacabado? Por mais poético e bonito que isso possa parecer, quem realmente quer sentir os eventos sem controle da vida? Saber que a morte pode vir antes que você termine a última página, ou admitir que daqui a 10 não seremos nada a mais que somos? Isso não me parece a coisa mais prazerosa do dia.
    Já as obras perfeitas, mesmo os mais tristes romances, trazem o prazer da perfeição e de que um dia também terminaremos um livro tão bom como aquele. Seremos algo. E chega de viagem, ótimo trecho, com certeza vou procurar ler o livro! Abraços.

    Tiago respondido:
    dezembro 18, 2010 às 12:48 pm

    Coloque este livro na lista, Lau. E depois você vai querer ler ‘Os detetives selvagens’, que é o anterior dele (e quase tão bom quanto o 2666).

    E eu prefiro A Metamorfose a O processo, haha. :)

    […] ao final, temos uma imagem planificada, que não parece esconder nada. “Não há mistério”, diria Roberto Bolaño[1]. A raiva e a desolação só sobraram na gente: a imagem é o rosto indiferente de […]

    […] Não há espaço para acidentes, ou para sangue, ou para baixo calão. (Talvez aqui coubesse melhor aquela citação que o Superoito fez ao Bolaño). Pouco provável que algum desses caras goste de Superbad. Ou de John Carpenter. Ou de Brian de […]

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