Mês: novembro 2010

Os discos da minha vida (15)

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Outro dia eu estava pensando em como foi oportuna a ideia de criar um ranking interminável para ser publicado semanalmente. Acontece assim: quando bato o olho neste sítio e penso “que terrível perda de tempo!”, o que me impede de meter uma pistola na têmpora do teclado é esta listinha aqui. Esta lista. “Um post de cada vez, um post de cada vez”, eis o mantra do blogueiro suicida.

Então vamos: neste capítulo da série Os 100 discos que fizeram da minha vida um lugar mais agradável (pelo menos por algum tempo), dois caras estranhos que eu não convidaria para um brunch.  

O bacana nesta história de rankings loooongos é que me sinto muito livre para trapacear e mudar algumas peças do jogo enquanto ele transcorre – e sem que vocês percebam. Tudo com a boa intenção de fazer com que a lista definitiva não traia o conceito original da empreitada. Isto é: um ranking sentimental, meu e de mais ninguém; um ranking egoísta e narcisista, a cara deste blog (e, quanto mais penso nisto, mais vontade tenho de abandoná-lo; que blogzinho estúpido e autocentrado, meu deus).  

Eu conheço estes discos como a palma da minha mão cabeluda, mas vocês, muito sortudos, muito inteligentes, muito curiosos, mas talvez um pouco desinformados, têm a chance  de conhecê-los sem muito esforço, num clique (e perdoem a bagunça dos arquivos, mas infelizmente não se pode ter tudo mastigadinho nesta vida). Vamos à rotina, pois bem.   

072 | Teenager of the year | Frank Black | 1994 | download

Não é o disco que contém I heard Ramona sing (uma das canções perfeitas que brotaram neste nosso mundo cruel), mas é aquele que soa como o sonho frenético de um adolescente com muitas ideias, muitas melodias, muitos riffs explodindo na cabeça. Ainda tenho certeza de que alguém obrigou Frank Black a gravar estas 22 canções aceleradamente, apressadamente, questão de vida ou morte – havia uma bomba perto do estúdio e ela estouraria em cinco, quatro, três. São algumas das canções mais luminosas que ele escreveu (dentro e fora do Pixies), mas o que choca é como muitas deles são compactadas num formato minúsculo, em pílulas coloridas. Lição do dia: as canções são suas e você as manipula do jeito como bem entender (elas são inesquecíveis de uma forma ou de outra e você sabe disso; para que tanta cautela?). Há quem chame isso de loucura. Eu chamo de liberdade. Top 3: (I want to live on an) Abstract plain, Fazer eyes, Space is gonna do me good.  

071 | Scott 4 | Scott Walker | 1969 | download

O mundo de Scott Walker se tornou mais pantanoso a cada álbum – até o ponto em que o homem só conseguiria gravar discos que soassem como instalações de arte (e belas instalações, diga-se). Em Scott 4, o pop ainda encontrava frestas no nevoeiro. Com uma faixa de abertura chamada The seventh seal e uma canção “dedicada ao regime neo-stalinista”), é o disco em que Walker expande graciosamente os limites do próprio estilo – ainda com arranjos que fazem a alma tremer, mas com sinais de soul e country que desfazem antigas impressões que tínhamos a respeito dele. Os ingleses não entenderam nada: ignoraram o disco. No entanto, foi esse caminho árido que, com muita valentia, Scott tomou – um cavaleiro cada vez mais solitário, escuridão adentro. Top 3Boy child, The seventh seal, On your own again.

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Trecho | As coisas mais triviais

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‘Eu não existo‘, disse para si mesmo. ‘Não há nenhum Jason Taverner. Nunca houve e nunca haverá. Para o inferno com minha carreira; quero apenas viver. Se há alguém ou alguma coisa querendo eliminar minha carreira, tudo bem, à vontade. Mas será que não tenho licença nem para existir? Será que eu nem nasci?’

Voltando ao seu quarto de hotel, deu uma boa olhada no espelho todo cheio de sujeira de mosca. Sua aparência não se havia alterado; apenas precisava fazer a barba. Não estava mais velho. Nenhuma ruga nova, nenhum cabelo branco aparecendo. Os ombros e braços fortes de sempre. Nenhuma gordura na cintura, o que lhe permitiria usar a roupa justa que estava na moda para os homens.

‘E isso é importante para a imagem de uma pessoa’, pensou. ‘O tipo de ternos que se pode usar, especialmente aqueles apertados na cintura. Devo ter uns cinquenta desses. Ou pelo menos tinha. Onde estarão agora?’, perguntou-se. ‘O pássaro se foi; em que ravina cantará agora? Ou algo assim’. Uma coisa do passado, do seu tempo de escola. Esquecida até este momento. ‘Que estranho’, pensou, ‘as coisas que aparecem na cabeça da gente numa situação desconhecida e sinistra. Às vezes são as coisas mais triviais que se possa imaginar.'”

Trecho de Identidade perdida, de Philip K. Dick.

Runaway | Kanye West

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E lá vem Kanye West com mais um sintoma claríssimo de transtorno pop obsessivo: ouvi só uma vez o novo My beautiful dark twisted fantasy (que faz por merecer o título pomposo/patético) e já desconfio que o disquinho vá bagunçar seriamente a minha lista de melhores do ano. Tenho, no entanto, que aplicar mais algumas doses do veneno até chegar a alguma conclusão sobre o assunto (prometo escrever um post bem bonito, dark e possivelmente muito twisted sobre a criatura). Como aperitivo, sugiro que vocês procurem no YouTube o curta-metragem de 35 minutos que o próprio West dirigiu para Runaway, uma das anomalias mais fofas do álbum. Mas, para facilitar a sua vida (ainda que eu não esteja aqui para isso), aí vai o resumo da ópera: uma versão resumida, mas muito digna, da aventura. É só o começo, acredite.

Superoito contra as fotografias

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Sinto sua falta, sinto sua falta, sinto sua falta, sinto sua falta, repeti mentalmente dez ou doze vezes, depois destravei o porta-retrato, dobrei a fotografia e a escondi na menor gaveta do meu armário, aquela que quase nunca abro, sob as meias e os pijamas que quase nunca uso.

Antes, enfrentei a foto mais uma vez – a última, prometi a mim mesmo. Era uma imagem quase singela: eu a abraçava de lado e ela, um pouco sem jeito, curvava o corpo em direção à câmera; eu sorria timidamente, ela parecia feliz; minha camisa era preta e a dela era colorida, apertada no busto; meu cabelo muito curto e o dela também; fazia sol e o céu brilhava em azul-bebê.

O que aconteceu depois? Minhas fotografias não explicam. Elas flagram apenas os nossos instantâneos de alegria, contam uma história incompleta, me maltratam. Notei, talvez tarde demais, que registrei uma versão idealizada do nosso namoro – e ela, essa distorção agradável da realidade, enfeitou minha estante, preencheu a minha sala. Um tipo bonito de ficção.

Amigos dizem que não devo me arrepender de nada. Que não devo sentir culpa. Que não devo pensar no que poderia ter acontecido. Que não devo recordar os planos que foram abandonados. Que preciso esquecer isso e esquecer aquilo. Mas o tempo passa (são dois meses desde a separação) e não consigo: eu ainda me arrependo de tudo, sinto culpa, não esqueço.

Me arrependo, por exemplo, por não ter sido corajoso o suficiente para encerrar o namoro um pouco antes, quando eu estava em vantagem (e é um jogo). Mas às vezes sinto culpa por não ter tomado todas as providências para consertar a nossa crise, renovar o contrato, curar a doença. Há momentos em que olho para o espelho e duvido da minha sanidade. Por que tanta saudade por algo que me fazia tão mal?

Desde o fim do namoro, que durou mais ou menos seis anos, cancelamos todo e qualquer contato. Para ela, não existo (talvez algum vestígio, algum sinal, mas nada muito concreto). Para mim, ela tomou o rumo para outra galáxia (ainda que, masoquista, eu teime em procurar uma ou outra informação em estrelas distantes). E a nossa história deveria terminar aí. Os créditos sobem e as pessoas vão para casa. Mas descobri que sou o homem preso na sala de projeção, assistindo ininterruptamente ao vazio de uma tela branca.

Será que ela sente o que eu sinto? O que acontece do lado de lá?

A ignorância, dizem, é uma bênção. Estou começando a entender o porquê. É a primeira vez que passo por uma separação tão brutal – foi o meu namoro mais longo – e, por isso, tento manter a concentração e a calma. Ajuda, é claro, não saber o que acontece na realidade paralela onde ela vive. Já escrevi sobre isso. Mas tento, se bem que nem sempre consigo, fabricar a aparência de que estou melhorando, que estou seguindo em frente. O cotidiano vai às mil maravilhas, o tempo é santo remédio e sou um sujeito forte, mais resistente do que eu imaginava. Perguntam se estou bem e respondo: melhor a cada dia!

Tento não transformar o caso num drama, já que há tantas coisas mais importantes acontecendo no mundo.

Mas é uma mentira.

Talvez seja algo que passamos de geração a geração: quem se separa tem o direito a se fazer de órfão, de vítima (mesmo quando não há algozes), ganha passe livre para chorar pitangas e pedir asilo a desconhecidos. Mas quando o desespero dessa fase inicial perde o impacto, quando o tempo passa e a performance começa a parecer corriqueira aos olhos da plateia, o processo entra numa etapa ainda mais dolorosa, já que solitária.

Hoje sou eu e as fotografias. Eu contra as fotografias. Elas me entendem, me denunciam mesmo quando tento fugir de todas as memórias que elas ressuscitam. Eu as escondo (as fotos e as memórias) para que eu não as encontre. É um esforço inútil. Procuro a menor gaveta do meu armário, aquela que quase nunca abro, para obrigar que, mais cedo ou mais tarde, eu esqueça todas essas lembranças que permanecem, contra a minha vontade, ainda vívidas.

Elas acabam sumindo? Se sim, cedo ou tarde? Falta muito ou pouco? Estamos quase lá? Como a história acaba? Existe redenção? Falta muito ou pouco? Estamos quase lá?

Devemos ser realistas, pelo menos por um parágrafo: percebo que, como aconteceu com a temporada mais terrível do meu namoro, minha reabilitação será uma história longa, secreta e desinteressante – um espetáculo enfadonho de tão repetitivo, que inspira textos muito semelhantes aos que já foram escritos; que fracassa antes de entrar em cartaz.

Os discos da minha vida (14)

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Os discos da minha vida é uma saga quilométrica, pulverizada em dezenas de capítulos que… vocês sabem. No total, são 100 álbuns que… vocês sabem.

Espero sinceramente terminar este ranking antes do apocalipse, mas… vocês sabem. Aqui, vocês encontram obras fonográficas que, dado o caráter insanamente pessoal desta lista, interessam mais a mim do que possivelmente interessarão a… vocês sabem.

Ok. A rotina tem encantos, mas sou um sujeito que se entedia facilmente com situações repetitivas. Portanto, perdoem-me se hoje pareço um pouco entediado.

No espírito de um dos discos da semana, lembro a vocês que isso tudo, no fim das contas, não significa nada. Um grande nada.

Se bem que eu não deveria parecer tão sonolento numa semana que começa com dois disquinhos tão (aparentemente) econômicos, tão temperamentais, tão passionais, que nos tomam pelo pescoço e, em gritos e/ou sussurros, nos ameaçam com o clichê: “é pegar ou largar”. Você tem o direito a ignorá-los. Você tem o direito a amá-los até que o coração crie calos. Mas, nesses dois casos, você não tem o direito ao meio-termo.

O que você deve fazer, desprezando todas as possíveis consequências, é clicar na palavrinha ‘download’, que está te encarando impacientemente. Façam a coisa certa, irmãos. Que a vida passa num segundo e… vocês sabem.   

074 | Elephant | The White Stripes | 2003 | download

Havia uma época em que o White Stripes nos pregava peças: uma banda quase infantil, que brincava com mitos e chavões da música pop como quem bagunça o acervo colorido de uma brinquedoteca. Mas, ao mesmo tempo, uma dupla cujas canções esqueléticas pareciam estudar (e de uma forma absolutamente séria) alguns dos componentes essenciais do rock: o riff e o refrão, a voz e o ritmo, a melodia inesquecível, a performance passional e autoirônica, os hits, os hinos e a fúria (e as piadas infames, como não?). Está tudo aqui, passo a passo, como num guia ilustrado para uma geração que talvez tenha ouvido Led Zeppelin e Nirvana sem entender exatamente por que aquelas músicas soavam tão poderosas. Com um sorriso cínico no canto da boca, Jack White explica. Top 3: Seven nation army, The hardest button to button, I just don’t know what to do with myself.     

073 | Either/or | Elliott Smith | 1997 | download

Se eu fosse um homem absolutamente sincero, os discos de Elliott Smith ocupariam as primeiras posições deste ranking. Todos eles, incluindo aí os póstumos (From a basement on a hill, que é a obra-prima mais triste do mundo) e os irregulares (Figure 8, por exemplo). São álbuns que me têm no cabresto – ouço qualquer um deles e me pego aos prantos, feito um moleque que acabou de perder todos os dentes numa briga de colégio. De forma enigmática, eles falam sobre a minha pessoa, me dão conselhos e broncas, reparam nos meus defeitos e levantam um espelho cujo reflexo não é sempre agradável. Sou suspeito para analisá-los, mas, por uma questão de coerência, escolhi dois para esta lista (o próximo aparecerá muito lá na frente, aguardem). Either/or, que para muitos é o melhor de Smith, soa como as páginas roubadas de um caderno de esboços que escrevi aos 16 anos: as mais tocantes confissões adolescentes, escritas à mão e gravadas na marra. Se você não se identifica com nenhum desses versos, meu amigo, não temos nada em comum. Caso contrário, seja bem-vindo ao clube dos corações agoniados (onde sempre cabe mais um, e cujos sócios nem sempre sobrevivem). Top 3Ballad of big nothing, Alameda, Pictures of me.

Trecho | O esquecimento

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“O surpreendente era que sua vida pouco havia mudado após o nascimento de sua filha, Catriona. Os amigos lhe haviam dito que ficaria abismado, que se transformaria, que seus valores seriam outros. Porém nada mudou. Catriona era algo bom, mas continuou a confusão de sempre. E, agora que entrara nos últimos estágios ativos de sua existência, começou a compreender que, não ocorrendo acidentes, a vida não mudava. Ele fora iludido. Sempre presumira que chegaria um tempo na vida adulta, uma espécie de planalto, em que haveria aprendido todos os truques de ir levando as coisas, de simplesmente ser. Com todas as cartas e e-mails respondidos, todos os papéis em ordem, livros organizados alfabeticamente nas estantes, roupas e sapatos em bom estado nos armários onde podia encontrá-los; com o passado, incluindo as cartas e fotografias de outrora, arrumado em caixas e pastas; com a vida privada assentada e serena, assim como as acomodações e as finanças. Em todos aqueles anos, essa arrumação, o calmo platô, nunca apareceu, e apesar disso ele havia continuado a presumir, sem pensar sobre o assunto, que estava pertinho, ali do outro lado da esquina, que em breve ele faria um esforço e o alcançaria. Naquele momento a vida se tornaria clara e a mente livre, sua existência como adulto teria então início de fato. Contudo, pouco após o nascimento de Catriona, pensou ter entendido a verdade pela primeira vez: no dia de sua morte, estaria usando meias de pares diferentes, haveria e-mails não respondidos, e na pocilga que chamava de casa ainda existiriam camisas sem os botões do punho, uma lâmpada apagada no hall, contas a pagar, sótãos a limpar, moscas mortas, amigos esperando por uma resposta e amantes que ele não havia confessado ter. O esquecimento, palavra final em matéria de organização, seria seu único consolo.”

Trecho de Solar, de Ian McEwan (ao som de As the world rises and fall, do Clientele).

Drops | Mostra de São Paulo (parte final)

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'A rede social', de David Fincher

A Mostra de São Paulo terminou ontem. Assisti a um punhado de filmes (ainda não fiz a conta) e, quando repasso todos os posts desta cinemaratona, percebo que o saldo deste ano foi muito positivo. Tão animador que consegui organizar um top 10 (+3) só com longas que, por aqui, mereceram cotação maior ou igual a 4 estrelas. E vocês sabem que, apesar de todo o meu bom-mocismo, não sou dos que saem distribuindo estrelas a torto e a direito. 

Pois bem: antes do besteirol sobre os filmes do dia, eis o meu top 10 (+3) da Mostra de SP. Alguns ainda vão passar na repescagem (hoje, amanhã e domingo). Por isso, fiquem atentos:

1. Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas, Apichatpong Weerasethakul
2. Mistérios de Lisboa, Raúl Ruiz
3. Cópia fiel, Abbas Kiarostami
4. O estranho caso de Angélica, Manoel de Oliveira
5. Somewhere, Sofia Coppola
6. Homens e deuses, Xavier Beauvois
7. Film socialisme, Jean-Luc Godard
8. O mágico, Sylvain Chomet
9. Minha felicidade, Sergei Loznitsa
10. As quatro voltas, Michelangelo Frammartino
+3. Caterpillar, Koji Wakamatsu, Machete, Robert Rodriguez e Ethan Maniquis e Armadillo, Janus Metz

E novamente (que não custa ficar repetindo; este é um blog redundante e amnésico): muito obrigado a todos que me receberam tão bem em São Paulo. Abraço e até o ano que vem.  

Gainsbourg – Vida heroica | Gainsbourg (vie héroïque) | Joann Sfar | 3/5 | Serge Gainsbourg confinado numa cinebio corretinha é o tipo de ideia fadada ao inferno das boas intenções. Mas, apesar de toda a polidez, este retrato em 3×4 ganha algum colorido nos momentos em que Sfar se livra da obrigação de reconstituir a trajetória do compositor e passa a brincar com o mito Gainsbourg, quebrando a correção da narrativa com delírios à cartum. Não chega perto das liberdades de um I’m not there, mas também não é qualquer Cazuza – O tempo não para.

Um homem que grita | Un homme que crie | Mahamat Saleh Haroun | 3/5 | Um drama africano narrado com o estilo econômico dos Dardenne e que, como Homens e deuses, se deixa intrigar pelas escolhas tomadas pelos personagens em situações-limite: o que motivaria um pai a escalar o próprio filho para a guerra? Atuações muito fortes, mas não consegui ver nada de muito particular no olhar do diretor, que não escapa de um modelo de ‘realismo engajado’ que é tão querido em festivais.

A rede social | The social network | David Fincher | 3.5/5 | Admito que, quando fiquei sabendo que David Fincher dirigiria um filme sobre a criação do Facebook, logo lembrei da avalanche de aplicativos visuais que o cineasta usou em Clube da luta. Daí a minha surpresa (que não é boa nem má, apenas uma surpresa): A rede social é o longa mais sóbrio e funcional de Fincher – na maior parte do tempo, o diretor não faz muito além de arejar as lacunas mínimas de um roteiro escalafobético. Mas essa aparência clean (a ação transcorre em quartos de faculdade e salas de reunião) só destaca o traquejo extraordinário de Fincher para técnicas de narrativa: é um filme fluente do início ao fim, mesmo quando dispara um vocabulário tecnológico que nos soterra. Não dá para levar muito a sério, no entanto, quem encontra aqui um retrato complexo da geração-Facebook: o texto se sustenta em estereótipos e chavões (o vilão ganancioso, a vítima injustiçada, o conflito entre amigos, a velha lição de que sucesso e dinheiro não trazem felicidade) para amaciar a pílula high-tech e vendê-la a um público que talvez ainda não tenha uma conta no Twitter. A esperteza de Fincher é, apesar de todas essas concessões, preservar o mistério em torno do personagem principal, que, talvez muito a frente do seu tempo, flutua enfadado sobre todas as intrigas da trama: no papel desse gênio solitário, o nosso menino-da-bolha (e, se você quiser, o símbolo de um modelo econômico em que ideias contam mais que acordos publicitários), Jesse Eisenberg compõe a performance mais impressionante que vi este ano.