Trecho | As coisas mais triviais

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‘Eu não existo‘, disse para si mesmo. ‘Não há nenhum Jason Taverner. Nunca houve e nunca haverá. Para o inferno com minha carreira; quero apenas viver. Se há alguém ou alguma coisa querendo eliminar minha carreira, tudo bem, à vontade. Mas será que não tenho licença nem para existir? Será que eu nem nasci?’

Voltando ao seu quarto de hotel, deu uma boa olhada no espelho todo cheio de sujeira de mosca. Sua aparência não se havia alterado; apenas precisava fazer a barba. Não estava mais velho. Nenhuma ruga nova, nenhum cabelo branco aparecendo. Os ombros e braços fortes de sempre. Nenhuma gordura na cintura, o que lhe permitiria usar a roupa justa que estava na moda para os homens.

‘E isso é importante para a imagem de uma pessoa’, pensou. ‘O tipo de ternos que se pode usar, especialmente aqueles apertados na cintura. Devo ter uns cinquenta desses. Ou pelo menos tinha. Onde estarão agora?’, perguntou-se. ‘O pássaro se foi; em que ravina cantará agora? Ou algo assim’. Uma coisa do passado, do seu tempo de escola. Esquecida até este momento. ‘Que estranho’, pensou, ‘as coisas que aparecem na cabeça da gente numa situação desconhecida e sinistra. Às vezes são as coisas mais triviais que se possa imaginar.'”

Trecho de Identidade perdida, de Philip K. Dick.

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