Superoito contra as fotografias

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Sinto sua falta, sinto sua falta, sinto sua falta, sinto sua falta, repeti mentalmente dez ou doze vezes, depois destravei o porta-retrato, dobrei a fotografia e a escondi na menor gaveta do meu armário, aquela que quase nunca abro, sob as meias e os pijamas que quase nunca uso.

Antes, enfrentei a foto mais uma vez – a última, prometi a mim mesmo. Era uma imagem quase singela: eu a abraçava de lado e ela, um pouco sem jeito, curvava o corpo em direção à câmera; eu sorria timidamente, ela parecia feliz; minha camisa era preta e a dela era colorida, apertada no busto; meu cabelo muito curto e o dela também; fazia sol e o céu brilhava em azul-bebê.

O que aconteceu depois? Minhas fotografias não explicam. Elas flagram apenas os nossos instantâneos de alegria, contam uma história incompleta, me maltratam. Notei, talvez tarde demais, que registrei uma versão idealizada do nosso namoro – e ela, essa distorção agradável da realidade, enfeitou minha estante, preencheu a minha sala. Um tipo bonito de ficção.

Amigos dizem que não devo me arrepender de nada. Que não devo sentir culpa. Que não devo pensar no que poderia ter acontecido. Que não devo recordar os planos que foram abandonados. Que preciso esquecer isso e esquecer aquilo. Mas o tempo passa (são dois meses desde a separação) e não consigo: eu ainda me arrependo de tudo, sinto culpa, não esqueço.

Me arrependo, por exemplo, por não ter sido corajoso o suficiente para encerrar o namoro um pouco antes, quando eu estava em vantagem (e é um jogo). Mas às vezes sinto culpa por não ter tomado todas as providências para consertar a nossa crise, renovar o contrato, curar a doença. Há momentos em que olho para o espelho e duvido da minha sanidade. Por que tanta saudade por algo que me fazia tão mal?

Desde o fim do namoro, que durou mais ou menos seis anos, cancelamos todo e qualquer contato. Para ela, não existo (talvez algum vestígio, algum sinal, mas nada muito concreto). Para mim, ela tomou o rumo para outra galáxia (ainda que, masoquista, eu teime em procurar uma ou outra informação em estrelas distantes). E a nossa história deveria terminar aí. Os créditos sobem e as pessoas vão para casa. Mas descobri que sou o homem preso na sala de projeção, assistindo ininterruptamente ao vazio de uma tela branca.

Será que ela sente o que eu sinto? O que acontece do lado de lá?

A ignorância, dizem, é uma bênção. Estou começando a entender o porquê. É a primeira vez que passo por uma separação tão brutal – foi o meu namoro mais longo – e, por isso, tento manter a concentração e a calma. Ajuda, é claro, não saber o que acontece na realidade paralela onde ela vive. Já escrevi sobre isso. Mas tento, se bem que nem sempre consigo, fabricar a aparência de que estou melhorando, que estou seguindo em frente. O cotidiano vai às mil maravilhas, o tempo é santo remédio e sou um sujeito forte, mais resistente do que eu imaginava. Perguntam se estou bem e respondo: melhor a cada dia!

Tento não transformar o caso num drama, já que há tantas coisas mais importantes acontecendo no mundo.

Mas é uma mentira.

Talvez seja algo que passamos de geração a geração: quem se separa tem o direito a se fazer de órfão, de vítima (mesmo quando não há algozes), ganha passe livre para chorar pitangas e pedir asilo a desconhecidos. Mas quando o desespero dessa fase inicial perde o impacto, quando o tempo passa e a performance começa a parecer corriqueira aos olhos da plateia, o processo entra numa etapa ainda mais dolorosa, já que solitária.

Hoje sou eu e as fotografias. Eu contra as fotografias. Elas me entendem, me denunciam mesmo quando tento fugir de todas as memórias que elas ressuscitam. Eu as escondo (as fotos e as memórias) para que eu não as encontre. É um esforço inútil. Procuro a menor gaveta do meu armário, aquela que quase nunca abro, para obrigar que, mais cedo ou mais tarde, eu esqueça todas essas lembranças que permanecem, contra a minha vontade, ainda vívidas.

Elas acabam sumindo? Se sim, cedo ou tarde? Falta muito ou pouco? Estamos quase lá? Como a história acaba? Existe redenção? Falta muito ou pouco? Estamos quase lá?

Devemos ser realistas, pelo menos por um parágrafo: percebo que, como aconteceu com a temporada mais terrível do meu namoro, minha reabilitação será uma história longa, secreta e desinteressante – um espetáculo enfadonho de tão repetitivo, que inspira textos muito semelhantes aos que já foram escritos; que fracassa antes de entrar em cartaz.

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9 comentários em “Superoito contra as fotografias

    Querco disse:
    novembro 9, 2010 às 4:23 am

    Se eu disser que o texto é bonito será levemente parecido com o ato de dar um prêmio a um escritor que sobreviveu à algo terrível e verteu em literatura. Um elogio aqui serviria para enaltecer a “beleza” do texto e acabaria ocultando um coração com dor de dentes. Não, não é o texto que é bonito… há algo de intraduzível por aí, e creio que pra estes devaneios literarios não existem elogios.

    Renan disse:
    novembro 9, 2010 às 8:39 am

    Um abraço, Tiago.

    Túlio disse:
    novembro 9, 2010 às 1:15 pm

    Guarde as fotos, junte com outras e fique sozinho sem elas. A passagem da saudade precede a procura do vazio. Vira vácuo e há de encher. Por alguém ou esperança.

    Tiago respondido:
    novembro 9, 2010 às 4:15 pm

    É o tipo de post que me deixa arrependido no dia seguinte, mas obrigado.

    Diego disse:
    novembro 10, 2010 às 12:12 am

    Essa etapa enfadonha, em que ninguém “aguenta” mais ouvir a gente se lamentar, e nos sentimos mais sozinhos, é a pior. Eu me sentia como se tivesse um segredo horrível e não pudesse contar pra ninguém, porque ninguém entenderia.

    Mas acho que deve ser a etapa que, em separações futuras, dura menos tempo também. É a mais dolorida, então a gente quer encurtar a experiência.

    Tiago respondido:
    novembro 10, 2010 às 12:54 am

    Tomara que seja isso mesmo, Diego, pq nem eu mais aguento me ouvir falando sobre o assunto.

    Lucio in the sky disse:
    novembro 10, 2010 às 10:48 am

    Meu caro, entendo perfeitamente esse sentimento. A sua sorte é que vc tem uma gaveta pequena pra “guardar” essas lembranças vivenciadas. A sua sorte é que vc vivenciou… Eu nem isso… “Uma vida inteira que poderia ter sido, e que não foi…”

    Michel Simões disse:
    novembro 11, 2010 às 1:14 am

    “a nossa história deveria terminar aí. Os créditos sobem e as pessoas vão para casa.”

    Pois é Tiago, mas ela nunca acaba ali. A tela branca e o espectador solitário dura um tempo, as vezes longo demais. Qual a fórmula? Se alguém souber me avise.

    Tiago respondido:
    novembro 11, 2010 às 11:09 pm

    Não sei se é sorte, Lúcio. Mas ok, entendo o que você diz.

    Espero que não leve tanto tempo, Michel.

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