Mês: outubro 2010

2 ou 3 parágrafos | Tropa de elite 2

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O primeiro Tropa de elite, que defendo com muito gosto, era um filme desconjuntado sobre uma cidade desconjuntada. Parecia, de início, uma fita de guerra: os personagens principais eram “soldados” que, em vários níveis (do chefe ao pupilo), se deixavam afetar pela sandice de confrontos armados. Enlouqueciam lentamente. Mas (e aí começavam as complicações) a trama era narrada por um capitão truculento, autoritário. E, em vez de iluminar um único ponto de vista, abria um tiroteio de impressões – até contraditórias – sobre a questão da segurança pública no Rio de Janeiro. Quem está certo? Quem está errado? Alguém tem razão? O filme terminava mais ou menos como terminou Ônibus 174: quanto mais se entende sobre a crise urbana carioca, mais tortuoso é arriscar alguma solução para o problema. 

O novo Tropa de elite (3/5) é um thriller tão desencantado quanto o anterior (a guerra continua, e continuará), mas passa um espanador no que havia de dúbio, de desordenado, no original. É, a meu ver, um retrocesso. A começar pelo discurso do narrador, mais palatável. Antes, Nascimento era agente e vítima da barbárie (e um dos tipos mais complexos criados pelo cinema brasileiro, ame-o ou odeie-o). Agora, é o herói kafkiano, acuado pelas engrenagens daquilo que chama de “sistema”. O filme se alinha ao modelo de um thriller político de conspirações: o homem versus a máquina. Quando aperta a gravata e toma posse na Secretaria de Segurança Pública, o justiceiro descobre que o buraco da corrupção brasileira é mais embaixo, e suga governadores, milícias, PMs, apresentadores de tevê, donos de jornais, organizações de direitos humanos etc. Menos Super-Homem, mais Cavaleiro das Trevas.

Essa “realidade” é filmada com uma câmera funcional e sem os ruídos, sem a cacofonia de pontos de vista que tornavam o primeiro filme tão valente. São poucos os momentos, por exemplo, em que as imagens de Padilha contradizem a pregação de Nascimento (o deputado que defende os direitos humanos é a nota dissonante, um contraponto ao discurso casca-grossa do narrador). Não dá para negar: a dicção do diretor permanece clara, firme, e nos fisga pela atualidade dos temas, pela forma como nos obriga a participar do filme, a nos enxergar nele. Estamos dentro da narrativa (e ela, a narrativa, está viva). Ao se aproximar do fim, no entanto, o filme dá o passo fácil: ele se alinha às conclusões do herói, que agora fala por todos nós. Quando Nascimento (um Wagner Moura novamente genial) avisa ao espectador que o “sistema” ainda matará muitos inocentes, a câmera sobrevoa o Congresso Nacional. Para quem cobrava de Padilha um ponto de vista, aí está ele: das favelas ao senado, sujeira pra todo lado.

Os discos da minha vida (10)

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Que coisa mais enfadonha esta saga dos discos que massacraram os meus sentimentos e violentaram a minha vida, não? Eu estou começando a concordar que já foi mais divertido.

Então vamos depressa que o calvário logo acaba.

Por minhas contas, ainda vai levar alguns meses, talvez muitos meses, possivelmente uma eternidade, mas… Preste atenção: pode ser que, num dia belo (e de sol), eu decida postar a lista completa dos 100 discos, abandonar o blog, correr pra praia e abrir um quiosque de mate, sanduíche natural e água de coco. Que a vida é só uma.

Por falar em vida, o post de hoje trata de discos que mexem com memórias doloridas e, portanto, eu preferiria simplesmente ativar o f**a-se e escrever zero caracteres sobre eles. Posso? Não posso? Isso quebra uma regra? Seria deselegante? Então ok, mas vou tentar ser frio e bruto. E forte. Que melancolia é coisa de macho.

Você pode fazer o download dos álbuns mas, nesses casos, não recomendo. Sério: é tudo muito triste, você vai se sentir mal, eles vão estragar seu dia, vão ficar te espezinhando e você não precisa disso. Prefira algo mais ameno. Prefira música de elevador. Que estamos num feriado.

082 | A ghost is born | Wilco | 2004 | download

Tem gente que considera este disco um estorvo: é blasé, é gélido, é artsy (no mau sentido) e em alguns momentos soa tão polido quanto um álbum do Fleetwood Mac. Eu, que nada tenho contra os discos do Fleetwood Mac, não posso me manifestar contra ou a favor dessa corrente do mal. A ghost is born é o disco do Wilco que não consigo avaliar racionalmente. A trilha sonora do meu longo namoro que deu errado também é um álbum que parece falar um pouco sobre o menino triste e inseguro que eu sempre fui. “O seu objetivo de vida era ser um eco”, diz Jeff Tweedy em Hummingbird. Sei como é. No mais, vou dar uma de Godard: no comments. Top 3: Handshake drugs, Spiders, Hummingbird.

081 | Songs from a room | Leonard Cohen | 1969 | download

Logo depois que descobri Leonard Cohen (graças a uma música do Nirvana, Pennyroyal tea), tratei de comprar quase todos os discos dele. Meu plano era ouvir todos de uma vez só, mas fiquei semanas preso a este aqui. Não é o melhor (eu recomendaria Songs of love and hate, de 1971, ou o primeiro, Songs of Leonard Cohen, de 1967), mas passa uma impressão de intimidade que Cohen nunca superou. Para mim, foi quase fatal: descobri essas canções quando eu era um moleque infeliz com uma grave tendência a achar que o meu futuro seria um quarto apertado, sem mobília e com paredes brancas. Voltar a este disco (e a esta época)? Não, obrigado. Top 3: Bird on the wire, The partisan, Tonight will be fine.

Drops | Festival do Rio

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'Tio Boonmee', meu favorito do Festival do Rio

Dias 5, 6 e 7

Nosso fantástico século 21 | Neowa naui 21 segi | Ryu Hyung-ki | 2/5 | O cineasta coreano fotografa a metrópole como quem testa ideias para um filme de ficção científica – mas o visual cinzento serve a uma narrativa desapaixonada, sem viço, que larga os personagens (e o espectador) à deriva. É a estreia de Hyung-ki, o que talvez explique a falta de jeito.

The Runaways – Garotas do rock | Floria Sigismondi | 2/5 | Uma banda de rock pioneira – já que formada apenas por meninas, nos anos 70 – merecia mais do que uma cinebio falsamente ousada (visual à la Boogie nights, narrativa que em nada trai o modelo de fitas sobre estrelas que sobem e desabam). De qualquer modo, Kristen Stewart e Dakota Fanning vão com sede ao pote. 

Viúvas sempre às quintas | Las viudas de los jueves | Marcelo Piñeyro | 2.5/5 | Um episódio de Desperate housewives sobre a crise econômica argentina. Não deixa de ser curioso (mas me parece o pior de Piñeyro).

Nossa vida exposta | We live in public | Ondi Timoner | 3/5 | A trajetória de Josh Harris é tão bizarra e cheia de surpresas extravagantes que me perguntei em vários momentos se este filme não seria um mockumentary: de geniozinho milionário da internet a cobaia de loucas experiências virtuais, o homem conseguiu prever a onda de exposição da intimidade via web… e foi engolido por ela. Grande história, que o filme documenta sem grandes insights.

!!! Armadillo | Janus Metz | 4/5 | Um filme de guerra espantoso (crueza e lirismo à queima-roupa, e algumas das digressões visuais mais chapantes deste festival) que acompanha soldados dinamarqueses numa missão no Afeganistão. A paranoia e a aflição se intensificam no decorrer da narrativa – como de praxe em documentários do gênero. O que me embasbaca, no entanto, é descobrir a motivação dos personagens, tipos comuns que poderiam estar em casa jogando Playstation, mas vão para o front em busca de “aventura e camaradagem”.

A solidão dos números primos | La solitudine del numeri primi | Saverio Costanzo | 1.5/5 | Dois personagens outsiders, cheios de manias esquisitas, solitários, infelizes, adoráveis. E claro: ESPECIAIS. Fofice-loser para fãs de Amélie Poulain. Sob medida para virar hit de festivais.

Quebra-cabeça | Rompecabezas | Natalia Smirnoff | 3/5 | Um filme orgulhosamente pequeno (contraponto necessário a um cinema argentino cada vez mais hipnotizado pelo “padrão de qualidade” que não ofende a Academia de Hollywood) que se concentra no que lhe parece essencial: a ótima atuação de María Onetto e um roteiro com peças que se encaixam.

Amores imaginários | Les amours imaginaires | Xavier Dolan | 2/5 | Cinema juvenil tanto no tema (amores idealizados, não correspondidos, impossíveis) quanto no formato (uma colagem de referências cool, de Tarantino a Kar-wai, passando obrigatoriamente por Godard e Truffaut do início dos anos 60). Muito glacê para pouca massa – outro canditato a hit de festivais. Pode parecer increditável, mas a cena final confirma: já podemos falar num sub-Honoré.                  

Dias 3 e 4

Dois irmãos | Dos hermanos | Daniel Burman | 2/5 | Ainda não consigo engolir a ideia de que Burman se contenta em dirigir comédias afetuosas (e inofensivas) sobre relações familiares. O público dessas cinecrônicas parece mesmo imenso (vi o filme numa sessão lotada de meio-dia, com fortes aplausos ao fim), mas, desde Direito de família, fico com a impressão de que o cineasta encontrou uma zona de conforto de onde rejeita sair. Boas atuações, no entanto.

!!! Tio Boonmee, que pode recordar suas vidas passadas | Lung Boonmee raluek chat | Apichatpong Weerasethakul | 5/5 | É, como Mal dos trópicos, um passeio numa Tailândia rural, misteriosa, onde o mundano e o transcendental dividem um mesmo espaço. Mas, se naquele filme Apichatpong dividia a narrativa em duas partes (uma mais realista, outra mais abstrata), em Tio Boonmee o cineasta derruba essa parede entre os “mundos” e cria um fluxo contínuo de delírio, crença e cenas do cotidiano. Não tem como fugir do clichê: o efeito é de transe, de alucinação mesmo. Mesmo acostumado às habilidades hipnóticas do diretor, saí do cinema transtornado – é daqueles filmes que nos abduzem.

The killer inside me | Michael Winterbottom | 2.5/5 | O olhar cínico e desapaixonado de Winterbottom para o noir (como se estivesse estudando o gênero) me lembra algo dos irmãos Coen, mas o sujeito ainda não me convenceu de que tem algo de pessoal a comentar sobre as f’órmulas cinematográficas que aplica. Quem é Winterbottom? Apesar de conhecer quase toda a filmografia do diretor, ainda não sei como responder essa pergunta.

Scott Pilgrim contra o mundo | Edgar Wright | 3.5/5 | Wright é dos poucos diretores que me fazem rir feito criancinha (e quase chorar, como na cena que usa I heard Ramona sing, do Frank Black, como tema para a venenosa Ramona Flowers). Michael Cera talvez não seja o ator certo para interpretar Scott Pilgrim, o geek bom de briga. Mas quem seria? O tilt do filme nem me parece culpa do ator ou do diretor: tal como a HQ, a primeira parte da narrativa (30 minutos de paraíso) perde a verve quando a trama vira um joguinho de luta.

Poesia | Shi | Lee Changdong | 3.5/5 | Um filme que, como os personagens principais, desvia o tempo todo do conflito principal – como quem fecha os olhos para não encarar a cena de um acidente. A catarse do desfecho compensa os muitos momentos frouxos da narrativa, que se alonga demais. Ganhou o prêmio de roteiro em Cannes, mas merecia mesmo era ter vencido o de melhor atriz.

Stones in exile | Stephen Kijak | 2/5 | Qualquer documentário sobre a gravação de Exile on Main Steet será no mínimo interessante, mas este me pareceu uma peça de divulgação “oficial” que pouco acrescenta a tudo o que conhecemos sobre o caso. E, em econômicos 60 minutos, soa superficial. 

Dia 2

Tournée | Mathieu Amalric | 3/5 | As fanfarronices das atrizes no palco são bem mais poderosas do que os dramas familiares do protagonista, e Amalric é generoso (e inteligente) o suficiente para não podá-las na montagem. Mas vocês têm certeza de que ele levou o prêmio de melhor direção em Cannes?

A vida durante a guerra | Life during wartime | Todd Solondz | 2/5 | A fúria de Solondz não cessa jamais, e este filme contém alguns dos diálogos mais cruéis que saíram da “caixinha de maldades” do diretor. Mas a continuação de Felicidade (com elenco totalmente diferente) só explicita o quanto este cinema, ainda que tenha se tornado mais áspero e inflexível, não sabe muito o que fazer além de reaproveitar preguiçosamente as próprias ideias. 

Amigo | John Sayles | w/o | Primeira desistência da Mostra: a cópia embaçada (em DVCam), somada à minha completa desatenção nos primeiros 20 e 30 minutos, me derrubaram. Mas parece curioso (Sayles filma a guerra nas Filipinas) e prometo voltar a ele. 

Ano bissexto | Año bisiexto | Michael Rowe | 1/5 | No fim da sessão, uma senhora tentou me convencer de que este é o melhor filme da Mostra: “Ele não é pra qualquer bico. Tem psicologia, psiquiatria… É uma loucura”, ela se esforçou. Me senti um cego: tudo o que consegui ver na tela foi uma personagem infeliz sendo torturada implacavelmente (pela vida, pelo namorado macabro, por ela própria e principalmente pelo diretor). Sabe-se lá por que, venceu a Câmera de Ouro em Cannes.

Contos da era dourada | Amintiri din epoca de aur | Hanno Höfer, Razvan Marculescu, Cristian Mungiu, Constantin Popescu e Ioana Uricaru | 3/5 | Um raro filme de episódios que preza por uma unidade não só temática (eles encenam as lendas urbanas da ditadura de Ceausescu) mas formal. Os capítulos são filmados com a mesma lente realista de um 4 meses, 3 semanas e 2 dias, mas com a ironia surreal de um A leste de Bucareste. Isto é: um portfólio simpático (ainda que talvez confortável demais) para o “novo cinema romeno”.         

Dia 1

!!! Somewhere | Sofia Coppola | 4/5 | É o mais arredio entre filmes de Sofia Coppola (os 15 minutos iniciais, com cenas longas que se espreguiçam infinitamente, chegam a lembrar Vincent Gallo e o Gus Van Sant de Last days e Elefante), mas também me parece uma continuação para Encontros e desencontros, com um protagonista perdido numa bolha de sucesso e tédio, quase descolado do tempo e do espaço (e as cenas da viagem a Itália rendem comparações irresistíveis com aquele outro filme) e que só consegue enxergar a própria crise quando entra em contato com outra pessoa (a filha). A descoberta é narrada com sutileza até um desfecho amarradinho que quase estraga tudo. Logo em seguida, nos crédios, entra Love like a sunset, do Phoenix – e o filme volta às nuvens.

Carancho | Pablo Trapero | 2/5 | Uma decepção. As cenas de violência ardem os olhos, mas visual do filme me parece polido e impessoal (mais para O segredo dos seus olhos, menos para Família rodante ou Leonera) e o desfecho é digno de Iñárritu.

Rubber | Quentin Dupieux | 3/5 | Uma metagozação (e, se a palavra soou grosseira, faz todo o sentido nesse contexto) que soa como um videoclipe alongado do Spike Jonze – isto é: nonsense espertinho com uma ou outra boa ideia visual. Resumindo a trama: um pneu assassino à solta no deserto americano.

La nostra vita | Daniele Luchetti | 2.5/5 | Elio Germano venceu prêmio em Cannes pelo papel do pai de família que perde a esposa e tem que cuidar dos filhos. É uma atuação muito segura (ainda que a cena principal do personagem tente ganhar o espectador literalmente no grito), mas fiquei com a impressão de já ter visto umas cinco versões melhores para este melodrama italiano – e sem a necessidade da câmera tremida.

!!! Film socialisme | Jean-Luc Godard | 4/5 | Um Godard mais criptografado do que de costume (admito que não captei nem 10% das referências políticas, literárias, filosóficas, geográficas) e ainda fascinante. A composição de cores em digital me impressionou muito. No mais, sem comentários.

Os discos da minha vida (9)

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Mais um capítulo da saga sobre os discos que governaram a minha vida — esta semana, em versão ansiosa, prematura. Comentários breves e irresponsáveis (escritos entre o plantão de eleições e o início das minhas férias) sobre dois álbuns que, por coincidência, me levam a uma época em que eu era muito novo e ingênuo.

Amanhã (se tudo der certo) chego ao Festival do Rio. Devo escrever posts curtos sobre os filmes, mas adianto que será uma semana corrida. Pretendo ver muita coisa e, por isso, não juro fidelidade ao blog. Mas paciência: estarei de volta na semana que vem.

Lembrando: os discos deste ranking não são todos obras-primas (o critério é sentimental, totalmente duvidoso), mas garanto que eles soam, no mínimo, curiosos. Faça o download e concorde comigo.

084 | Behaviour | Pet Shop Boys | 1990 | download

Eu era um garoto de 11 anos, levava uma vida muito agradável e as minhas músicas preferidas ainda tocavam no rádio e apareciam na MTV. Qualquer hit me satisfazia — mas lembro que este disco do Pet Shop Boys (sejamos fiéis à realidade: era uma fita cassete) me mostrou um traço melancólico do pop que me surpreendeu como algo totalmente novo. Mais tarde, descobri que era um disco muito forte sobre temas que eu ainda não compreendia em 1990. Mas o que guardo dele é aquela sensação inocente, pré-adolescente: existe algo errado com essas melodias tão perfeitinhas. Top 3: Being boring, How can you expect to be taken seriously?, So hard.

083 | Under a blood red sky | U2 | 1983 | download

Este é um disco importantíssimo para mim, talvez um dos mais emocionantes da lista, e por um motivo totalmente pessoal: foi o único álbum que eu gravei numa fitinha cassete para uma viagem de fim de ano, em 1993, em que (vejam que meiguice) passei dias incríveis com a primeira garota por quem me apaixonei. Era uma época em que, para mim, tudo parecia possível: meus desejos se realizavam integralmente, não havia frustrações. Hoje percebo o quanto essa gravação do U2 — interpretada por um Bono Vox que parece prestes a dominar o planeta — ecoa aquele meu sentimento otimista de que, no fim, tudo daria certo. Não foi bem o que aconteceu, mas é uma boa lembrança. Top 3: I will follow, Sunday bloody Sunday, Gloria.