Root for ruin | Les Savy Fav

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Qual disco do Pixies é o seu favorito? O meu é Doolittle, de 1989, que pede bênção a Buñuel e inventa Smells like teen spirit. O preferido do Les Savy Fav, aposto, é Trompe le monde, de 1991. O capítulo em que nossos heróis perdem a cabeça (de vez).

Tensão. Eis a palavra. Poucos álbuns de ruptura soam tão atordoados, como que flagrados em pleno ataque de nervos. Frank Black queria gravar um disco pontiagudo e nervoso, o avesso de Bossanova (1990). E o resto da banda queria ir para casa. Resultado da guerra: um artefato que explode a cada cinco segundos, desmonta, volta a se erguer e, entre uma metralhada e outra, encontra um ou outro acorde agradável – só que nos momentos errados.

É uma obra-prima. Mas uma obra-prima quase acidental, marcada pela tragédia (e o charme, o mistério todo talvez esteja aí).

Pois bem: fico com a impressão de que, desde 1997 (quando lançou o ótimo Let’s stay friends), o nova-iorquino Les Savy Fav tenta simular esse contraste entre guitarras desesperadas e lapsos de candura. Tenta gravar um Trompe le monde.

E o pior é que eles são candidatos seríssimos a esse tipo de reprise. Tim Harrington, o vocalista, talvez seja o mais digno sucessor de Black. Ele entende que o elemento perigoso (e que nos desconcerta, nos perturba) dos Pixies era a disposição da banda se entregar a atos de loucura. Ao vivo, o barbudão parece interpretar o narrador de Debaser – o sujeito que, aos berros, tenta (e não consegue) descrever a excitação que sentiu diante das cenas surrealistas de Um cão andaluz.

Um pirado.

O desafio do Les Savy Fav é transportar essa persona psicótica de Harrington para os discos. Acredito que ainda não conseguiram. Let’s stay friends é um competentíssimo álbum de indie rock que poderia ter sido gravado pelo Modest Mouse. Nota 8+. Mas desconfio que Harrington não está aqui para agradar ninguém (era mais ou menos a angústia de Frank Black, não era? Daí Trompe le monde e uma carreira solo orgulhosamente ‘demodé’).

Root for ruin também não é esse terremoto todo. Mas a banda continua tentando encontrar o formato exato para provocar aquela sensação de que o apocalipse varreu o mundo (não sem ter deixado alguns cacos de melodia). Talvez o culpado (fica a dica!) seja o produtor Chris Zane, que cisma em adaptar o som do quinteto a um modelo-padrão de indie/hardcore, talvez polido demais para traduzir imagens febris, cenas surreais. Ainda não combina com o que eles têm a dizer.

O que devia soar como um contraste chocante acaba por parecer mera contradição. O disco abre com duas faixas violentas (dois golpes, quase nocaute!) que citam Dead Kennedys, At The Drive-In e outros atentados – uma delas fala em apetite, apetite, apetite (é um filme de zumbis, quase), e nos prepara para uma matança. 

Mas aí chegam duas canções (isso aí: canções) que vão aplacando essa fúria e domesticando o lobo: Sleepless in Silverlake e Let’s get out of here (essa última, talvez o maior decalque de Pixes que eles já fizeram, com acordes roubados de Velouria, de Bossanova) dariam ótimos singles, mas soam um tanto oportunistas. De qualquer forma, ótimos singles. E quero muito ver a reação de quem acusou o Wolf Parade de, em Expo 86, ter se adaptado a um esquema confortável de indie rock.

O disco vai oscilando entre a celebração (Lips n’ stuff é uma delícia) e o horror (Clear spirits é uma confusão só, mas que deixa a sensação de que, finalmente, as peças estão todas fora dos lugares) – e confirma o Les Savy Fav como uma banda mais típica, mais convencional do que ela própria talvez queira ser.

Talvez o erro deles esteja num detalhe: Trompe le monde era um disco que nos pegava despreparados, que nos enfrentava. Root for ruin é um álbum que cumpre requisitos para agradar a quem já se adaptou a esse tipo de confronto. Um tapa, mas com luvas macias.

Quinto álbum do Les Savy Fav. 11 faixas, com produção de Chris Zane. Lançamento Wichita Recordings. 6.5/10

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