Superoito e a morte do cão

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Meu cachorro, o beagle encardido e magricelo, morreu.

Recebi a notícia do modo mais frio. Uma mensagem de celular. “O cão morreu”. O motor estava ligado e permaneceu assim por uns três, quatro minutos. Nenhum movimento, apenas o zumbido irregular de todas as manhãs. As peças chacoalhando preguiçosamente, aos soluços. Uma névoa seca, alaranjada, borrando a paisagem. Um vulto desceu no retrovisor. E eu agarrado ao volante, fixo e tenso, como quem resolve acelerar para dentro de um tufão.

Depois consegui sair do estacionamento e o dia, que deveria ter seguido mais ou menos como os outros, começou a me parecer hostil. O que havia acontecido?

Telefonei para minha irmã e ela improvisou o obituário. O cão, que estava internado há uma semana em um hospital canino, sofria de uma infecção renal que o maltratava a cada dia. Era pele e osso, o pobre mamífero. Mal se aguentava sobre as quatro patas. Quando fazia frio, ele se encolhia feito um tufo de lã enrolado num graveto. “Era a hora”, minha irmã explicou. “Mais cedo ou mais tarde…”, continuou. E eu preenchi as lacunas. Ficamos em silêncio. Dizer o quê? Murmurei algo como “é uma pena, mas…”, e continuamos naquele passo, fazendo rodeios no reino do subentendido.

Certamente havia um ritual a ser seguido em casos como esse. Quando um cachorro morre, o que se faz? Eu não sabia. Até hoje, meus cãos não morriam. Eles não morriam. Obviamente, todos, sem exceção, partiram dessa para uma pior. No entanto, não acompanhei as etapas finais, as agonia dos últimos dias.

Meu primeiro cachorro, um poodle muito peralta, mudou-se para a casa de uma dentista e não mandou notícias. Os cães da minha avó morriam à rodo, atropelados, espremidos e alargados feito massa de macarrão, lançados à estratosfera sempre que se atreviam a desfilar numa avenida perigosíssima que começava lá no início do mundo e terminava no juízo final. Eram uns infelizes, uns sem-futuro.

Desde pequeno, me convenci de que, como acontece com as pessoas, cães morrem todos os dias, atropelados ou não. E cães geralmente somem muito antes das pessoas (e bem depois dos peixes, por exemplo).

Hoje descobri (tarde demais?) que nenhuma dessas certezas se sustenta quando o cão que morre é o seu cão.

O que senti, para ser sincero, foi um misto de tristeza e constrangimento. Primeiro a tristeza, depois do constrangimento. Em seguida, os dois juntos. Constrangimento por ter me sentido tão triste com a notícia, com aquela mensagem lacônica de celular. Desconfio até que chorei um pouco, umas fungadas descontroladas que se perderam dentro do barulho do carro, mas me recuso a confirmar essa informação. Suspeito até que cheguei a pensar em algo muito sentimental e tolo como “meu cãozinho!”, mas não, isso não deve ter acontecido.

Me surpreendi, isso sim, com a intensidade desses sentimentos. Todo aquele drama por conta de um beagle temperamental? Um animalzinho ranzinza e feioso, que, ao contrário do meu golden retriever (esse sim, um gentleman), sequestrava minhas cuecas e se entortava no vão da porta para mijar no tapete da sala? Do que eu sinto tanta falta?

Talvez eu sofra com as memórias onde o beagle aparece. Meu padrasto na varanda, a melancolia em pessoa, já adoecido e perplexo com a doença, acarihando aquelas patas quase invisíveis. Ou o dia em que, internado no hospital canino para tratar das orelhas, o beagle reuniu minha família inteira dentro de um cercadinho fedorento, de ladrilhos sujos, como bichos no zoológico. E, mesmo sem querer, foi o responsável por uma daquelas cenas lindas e ridículas que resumem a existência.

Pode ser (não descarto a hipótese) que tenha a ver com a ausência dele, o espaço em branco que o cão deixou. Isso, de alguma forma, me machuca.

Há três anos, adotamos o beagle. Nenhum outro dono queria saber dele. O cão era inofensivo porém arruaceiro. Só fazia o que dava na telha. Montava nas cadelas dos vizinhos e devorava as plantas do jardim. Era uma peste. Nos primeiros dias, ele travou guerras desastradas com meu golden retriever. Perdeu todas. Semanas depois, um não conseguia viver longe do outro. Melhores amigos para sempre.

Assim que o beagle foi levado ao hospital, meu golden retriever se recusou a dormir fora de casa. Era uma novidade. Mais educado e metódico do que qualquer pessoa que conheci, o cachorrão só entrava em casa em dias de tempestade ou jogos de futebol (ele teme os fogos de artifício como quem se arrepia com imagens de explosões atômicas). Sem o beagle, no entanto, ele resolveu nos desobedecer. Eis o legado do cachorro morto: a desobediência.

Daí que compramos outro cão: um labrador de quatro meses que, talvez à procura de uma saída, cava buracos profundos na terra e continua cavando.

Ainda um tanto estremecido (e envergonhado: cães morrem todos os dias), telefonei para minha mãe. Ela soava miúda. “Chorei a manhã inteira”, confessou. “É complicado…”, eu arrisquei. “Mas é só um cachorro, Tiago. E tudo o que vem acontecendo com a gente…”, e ela quase continuou, mas ainda é difícil chegar ao assunto número um. “Não era só um cachorro”, eu consertei. E eu, novamente: “Tudo o que está acontecendo talvez nem tenha a ver com isso, com o cachorro, sabe? O cachorro estava morrendo há semanas, estava fraco, então não tem a ver”. “Pois eu acho que tem sim”, minha mãe disse, com muita convicção, e eu acreditei nela. Desligamos o telefone quase ao mesmo tempo.

Eu não disse mais nada. Nem ela. Tentei mudar de assunto e perguntei sobre meu padrasto. Era a questão de todas as noites. “Como ele está?” E a resposta costuma ser: “Como sempre”. Uma resposta falsa, mas reconfortante. No dia anterior, ele se perdeu no caminho de uma loja que conhecia melhor do que todos nós. Antes disso, perto da barbearia onde ele corta o cabelo, meu padrasto olhou para mim (olhos vazios) e perguntou: “O que estamos fazendo aqui?”

Os flocos de memória se desintegrando como pulgas sob uma chuva de inseticida.

O que estamos fazendo aqui? O que estamos fazendo aqui? Eu forcei um sorriso. Está tudo ok, meu sorriso dizia. Mas meus ombros pesavam. “Cortar o cabelo, lembra?”, eu tentei orientá-lo. E ele (olhos vazios) respirou fundo.

Hoje pela manhã, quando soube de notícia, parece que meu padrasto chorou. Dizem que ele chorou. Deve ter chorado, ou sentido o mesmo vulto terrível que me paralisou ao volante por alguns minutos. Deve ter acontecido. Mas não conheço quem confirme a informação.

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8 comentários em “Superoito e a morte do cão

    Alê Marucci disse:
    junho 25, 2010 às 2:37 am

    Assim que li o título desse post, tive que criar coragem pra ler o texto.
    Daí comecei a ler os 3 ou 4 textos anteriores que ainda não tinha lido, até finalmente chegar a este.
    Lamento a perda. Recentemente uma das cachorrinhas da minha mãe morreu também de problema renal, e foi muito triste.
    Por isso e por tudo, força aí, meu querido.
    Beijo.

    Bruno M. Oliveira disse:
    junho 25, 2010 às 4:37 am

    Belo texto, Tiago.

    Ano passado um de meus cães morreu e eu também fui tomado por esse misto de tristeza e constrangimento.

    Para amenizar a dor da perda, nós acabamos lançando mão de argumentos racionais tais como “era apenas um cão”, “há tragédias infinitamente maiores” etc. – mas a realidade é que, por mais que tenhamos consciência de que existem males bem maiores que nos atingem a nós e aos outros, não há como ignorar a legitimidade desses “pequenos sofrimentos”.

    A comparação pode ser piegas, mas me parece verdadeira: é como perder um grande amigo.

    Um abraço.

    Emanoel disse:
    junho 25, 2010 às 5:03 am

    De fato, não é só um cachorro. Ninguém alimenta e sai para passear com pronomes indefinidos. O que faz cada relação ser especial é a diferença entre o meu cachorro, o seu cachorro e os outros cachorros vivos ou mortos, atropelados ou não.

    Experiência? Irrelevante. Arrisco dizer que nenhum de nós sabe lidar com a morte (talvez só depois de ter deixado de lidar com a vida). Também me calo, mas se é que vale de algo, te entendo.

    Tiago Superoito respondido:
    junho 25, 2010 às 10:20 am

    Obrigado, Alê.

    Bruno, acho que é mais ou menos por aí. Se bem que, nesse caso, era um amigo meio relapso. O cachorrinho era difícil.

    Emanoel, pra mim é o seguinte: lidar com a ideia da morte é cada vez mais fácil (as pessoas morrem, isso é natural, é a nossa única certeza, etc), mas parece ainda impossível lidar com o fato em si.

    Érico disse:
    junho 25, 2010 às 5:35 pm

    Pega um outro que passa.

    Tiago Superoito respondido:
    junho 25, 2010 às 5:50 pm

    Foi o que fizemos, Érico.

    jv disse:
    junho 28, 2010 às 4:47 pm

    me lembrou uma crônica muito boa, de um ebook do Alex Castro. se chama “Onde Perdemos Tudo”, vou colar aqui o começo:

    “A infância acaba, disse alguém, quando morre nosso cachorro. Somente então estaríamos prontos para os desafios da vida adulta. Pouco importa se somos doutorados ou casados: enquanto existe o cachorro — símbolo vivo de nossa adolescência — ainda moramos com os pais. Sua morte quebra esse último vínculo. Nada mais nos liga à casa paterna.

    Não sei quem bolou essa máxima e nem se concordo com ela. Estabeleço um parelelo diferente.

    Amigos humanos têm outros afazeres e outros amigos. Um dia, seus caminhos se descruzam e cada um vai viver sua vida. Talvez nunca mais se vejam.

    Um cachorro, entretanto, só tem o dono e seus caminhos são coincidentes: a vida do cachorro é a vida do dono e ele sempre ficará ao seu lado, até morrer. Então, com o fim, absoluto e irrecorrível, da amizade mais sincera que pode existir, a infância acaba.

    F. Scott Fitzgerald definiu a vida como um processo de demolição (“a process of breaking down”). Mas os grandes baques, súbitos e dramáticos, não são os importantes. Os verdadeiros, ele diz, vêm de dentro, golpes discretos que não sentimos até ser tarde demais. Perder um cachorro é apenas o episódio mais visível do processo de quebra: as inúmeras outras perdas que sofremos, menos finais e menos súbitas, essas demoramos para perceber. (…)”

    Tiago Superoito respondido:
    junho 28, 2010 às 10:28 pm

    Não sei se concordo com ele, JV, sobre essa história da morte do cão como um símbolo do fim da infância (minha infância acabou quando mudei de cidade, então não sou a pessoa mais indicada a comentar o assunto…). Mas bom texto.

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