2 ou 3 parágrafos | Toy Story 3

Postado em Atualizado em

Antes que perguntem: não chorei em Toy Story 3 (3.5/5). Nada, gente, lágrima nenhuma. Nem no finalzinho, que praticamente inundou o multiplex. Eu sei: a reação desapaixonada faz de mim um bruto. Mas vejam: nunca me afeiçoei aos meus soldadinhos do Comandos em Ação nem me vi obrigado a, aos 17, abandonar o ninho e transportar minhas tralhas para uma universidade da Ivy League (saí para morar sozinho, é, mas minha família está logo ali). Então este filme me parece apenas uma aventura sobre brinquedos falantes com algumas metáforas afetuosas sobre o valor da amizade (mesmo quando com seres de plástico) e doloridos ritos de passagem.

No filme, um adolescente vive um dilema: não sabe se guarda os bonecos no porão, se doa tudo para uma criancinha, se deposita os amiguinhos numa creche ou se os manda ao triturador de lixo. Enquanto isso, os bonecos entram em parafuso, coitados. Sei que esse conflito pode ser extremamente tocante e sei que ele nos diz tanta coisa sobre a aventura humana, mas preciso analisá-la com um pouco de distanciamento (tudo bem?). O que vejo no filme, acima de tudo, é a fase de acomodação da carpintaria da Pixar, com todos os truques a que tem direito. Eu já havia notado essa característica (que não chega a ser um problema) em Up – Altas aventuras, que começa maravilhosamente bem, mas acaba se acoplando a uma narrativa muito quadradinha e segura (traduzindo: eles não querem, não podem ou não sabem fazer um filme completamente lírico ou deliciosamente louco como os do Hayao Miyazaki).

Toy story 3, por isso, não me parece tão bem bolado quanto Toy story 2, apesar de funcionar (e odeio essa palavra, mas ela é muito precisa nesse contexto) muito bem, como uma máquina bem calibrada. O roteiro é todo esquemático, engraçadinho e quase tão satírico quanto as comédias da Dreamworks, com climas de fitas de presidiários (uma versão censura livre de O profeta, digamos) e cenas de ação até cruéis (se bem que a solução para o clímax tenso me frustrou completamente). Mas, apesar de ter deixado boas lembranças, o filme  me deixou com a impressão de ter visto um brinquedo sob medida, montado com peças de sucessos da Pixar: o coração mole de Up e Procurando Nemo, os hormônios de Os incríveis, a graça meio nonsense de Monstros S.A., etc. Tudo bem. Divertido até. A pipoca do ano. Mas prefiro a Pixar que deixa os diretores pintarem e bordarem: mais Brad Bird, menos Lee Unkrich.

Anúncios

9 comentários em “2 ou 3 parágrafos | Toy Story 3

    Diego Maia disse:
    junho 22, 2010 às 3:07 am

    Mal humorado as always. :D

      Tiago Superoito respondido:
      junho 22, 2010 às 3:13 am

      E cada vez mais, Diegão! Nem me esforço, hehe.

    Ailton Monteiro disse:
    junho 23, 2010 às 12:46 pm

    Eu concordo contigo, Tiago. E acho que vc gostou mais do filme do que eu. Dá uma passada lá no blog pra ver as minhas impressões quando puder.

    Tiago respondido:
    junho 23, 2010 às 2:04 pm

    Comentei lá, Ailton. E fui poupado do 3D fajuto: vi o filme em 2D mesmo.

    Bruno M. Oliveira disse:
    junho 25, 2010 às 4:52 am

    Acho o filme divertido (funciona bem, como você ressaltou), mas muito inferior aos dois primeiros, que são geniais.

    O que compromete bastante o filme é o desejo de agradar às crianças e aos pais, isto é, as piadas adultas inseridas gratuitamente no roteiro e as seqüências “eletrizantes” de ação.

    Concordo contigo: a Pixar só acerta em cheio quando não faz concessão ao gosto médio.

    Tiago Superoito respondido:
    junho 25, 2010 às 10:25 am

    Acho que os limites da Pixar estão sempre muito bem definidos, Bruno: eles não fazem filmes que fujam daquilo que eles entendem como o ‘aceitável’ pelo público desse tipo de filme – eles arriscam bem menos do que muita gente acredita que eles arrisquem. Então às vezes eles empurram um pouquinho esses limites (a primeira metade de ‘Wall-E’, os primeiros 15 minutos de ‘Up’), mas logo depois voltam ao modelo seguro, pra minimizar o risco. Ainda assim, acho que, dentro desses limites, o Brad Bird sabe se movimentar bem, e ainda coloca a marca dele.

    Adriana disse:
    junho 25, 2010 às 6:31 pm

    Adorei sua crítica!
    Normalmente as pessoas se deixam envolver demais por coisas fofas e bem feitas, mas não é só isso…

    Bruno M. Oliveira disse:
    junho 25, 2010 às 8:52 pm

    De fato parece existir uma “fórmula para entreter”, da qual os grandes estúdios de animação americanos não abrem mão. Mas, dentre os grandes (Pixar, Dreamworks, Disney etc.), acredito que a Pixar é a que ousa mais. Nunca como um Hayao Miyazaki, claro; mesmo porque trata-se de mercados, artistas, e culturas diferentes.

    Em todo caso, minha animação do ano ainda é “Como Treinar o Seu Dragão”. Gostei muito.

    Tiago Superoito respondido:
    junho 25, 2010 às 8:57 pm

    Pois é, Adriana, tem muita fofura calculada por aí…

    Bruno, também gostei do ‘Como treinar o seu dragão’. E é um dos poucos filmes em 3D que usam o recurso de uma forma pelo menos adequada.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s