Trecho | A onipotência do acaso

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“Desde o momento em que redescobriu o milagre de uma noite bem dormida, em que foi necessário uma enfermeira acordá-lo para o café da manhã, Axler começou a sentir que o pavor diminuía. Haviam-lhe ministrado um antidepressivo a que ele não se adaptou, depois tentaram outro medicamento, e por fim um terceiro que não tinha nenhum efeito colateral insuportável, mas se aquilo lhe fazia bem ou não, ele não sabia. Não conseguia acreditar que aquela melhora tinha alguma coisa a ver com os remédios ou as consultas psiquiátricas, com a terapia de grupo ou a arteterapia; tudo isso lhe parecia uma perda de tempo. O que continuava a assustá-lo, à medida que se aproximava o dia da alta, era que nada do que estava acontecendo com ele parecia ter a ver com coisa alguma. Como dissera ao dr. Farr, ele havia perdido sua magia de ator sem nenhum motivo, e era também de modo igualmente arbitrário que a vontade de dar fim à própria vida começou a diminuir, pelo menos por ora. “Nada que acontece tem motivo”, disse ele ao médico mais tarde naquele mesmo dia. “A gente perde, a gente ganha – é tudo acaso. A onipotência do acaso. A probabilidade de um revés. Isso, o imprevisível revés e seu poder.”

Trecho de A humilhação, de Philip Roth.

Um comentário em “Trecho | A onipotência do acaso

    Numa de Letra disse:
    maio 1, 2013 às 8:08 pm

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