Expo 86 | Wolf Parade

Postado em Atualizado em

Blogs são depósitos de bobagens, não são? Não tem editor olhando, então fulano se sente confortável para escrever qualquer sandice. Não tem produtor bancando, então sicrano vai lá e faz textos quilométricos, que não terminam nunca e mal fazem sentido. Quase não existe público, daí beltrano pode andar pelado na cozinha, pagando mico à vontade.

E você sabe disso, não? Você entende a lógica, certo? Você sabe que não deve levar-nos muito a sério, não é? Mas digo uma coisa: os melhores textos sobre Expo 86, o terceiro disco do Wolf Parade, serão encontrados em blogs. Sim, engula isto: em blogs.

(Talvez também em diários secretos de adolescentes, mas infelizmente não teremos acesso a eles. Não em microblogs, a menos que divididos em cinco ou seis sentenças febris)

Por quê? É que álbuns como este, arquitetados para provocar impacto imediato, excitação e surpresa, cobram respostas tão urgentes quanto o som que vaza nos fones. Escritas de madrugada, após a terceira audição. Rabiscadas no intervalo do almoço, com a pressa de quem tem que voltar logo ao trabalho. Confeccionadas no recreio, em bilhetinhos lambuzados de mostarda. É um disco que nos obriga a gritar alguma coisa sobre ele. Alguma coisa. E já.

O lançamento está marcado para 29 de junho. Anote na agenda. Nesse dia, você vai ler as avaliações de resenhistas profissionais que, em parágrafos objetivos, tentarão camuflar o baque provocado pelas primeiras audições do disco. Pobres almas. É para isso que servem as resenhas, certo? Explicar os porquês, ordenar comparações, contextualizar a obra e convencer-nos da relevância de alguns argumentos mui racionais que nos ajudam a defender nossas convicções.

Aposto que nove entre dez resenhas vão sublinhar o fato de que este disco foi gravado em apenas um mês, sem overdubs (no espírito “hey-ho-let’s-go”), e que soa mais direto, afiado e reluzente do que os anteriores. Não somos atirados, por exemplo, no pântano sinistro e anticomercial de At Mount Zoomer (2008), produzido pelo próprio grupo. Nem nas assombrações lindamente juvenis de Apologies to the Queen Mary (2005), um dos grandes discos dos anos 00.

Expo 86, dirão os resenhistas, soa mais como um statement, um atestado de “maturidade” (ou, vá lá, como uma correção de rota): após o “disco difícil”, a força criativa dos canadenses é condensada em um projeto mais acessível, meio que dançante, enérgico, arejado por sintetizadores e versos até compreensíveis (“Eu sou um desastre”, avisam, em In the direction of the moon, e desta vez conseguimos entendê-los!).

Depois do suicídio comercial, o renascimento.

Mas isto é um blog, ok? Então, por alguns parágrafos!, esqueça os críticos profissionais. Eles que se arranjem. Entender por que este é um belo disco não explica as sensações que ele provoca. Experimente ouvi-lo em volume altíssimo enquanto dirige nas vias da cidade: o golpe das guitarras equivale ao disparo de um airbag. Primeiro o susto, depois o conforto (e o conforto, creio eu, é provocado pela doçura dos sintetizadores, que amolecem canções como a tocante, deslumbrante Ghost pressure, e a lânguida Oh you, old thing).

Para quem havia se adaptado ao Wolf Parade arredio de At Mount Zoomer, o choque é ainda mais pesado. Naquele disco, produzido pela própria banda, os sons nos cobriam em lama e lodo: prog-rock para fitas de zumbis (e eu sou suspeito para falar sobre o disco; me afeiçoei pelo cachorro de três patas). Expo 86 é o oposto disso, o “lado a” para aquele “lado b”. É pós-punk para fitas de ação.

Quando fazemos algum esforço, conseguimos visualizar, entre uma faixa e outra, uma banda correndo dentro do estúdio, excitadíssima com as próprias canções, com pressa para gravar, mixar, concluir o trabalho e mostrar-nos o resultado (não à toa, eles pretendiam lançar um disco duplo – felizmente, a Sub Pop parece tê-los convencido a selecionar as cerejas). É, apesar dos versos ainda muito agoniados, um disco que sorri para si mesmo e para o público. Nada como o som de uma banda de rock no auge, feliz consigo mesmo.

E ainda me parece um mistério: como eles conseguiram forjar uma sonoridade tão coesa? Ao contrário dos álbuns anteriores, não é fácil identificar quais das canções têm a assinatura de Spencer Krug e quais pertencem a Dan Boeckner (claro, Spencer é o mais doentio da dupla, mas agora Boeckner não fica muito atrás). Todas parecem sonhar com uma jam session pirada com a participação de David Bowie, King Crimson, Gang of Four e Talking Heads.

Mas há como identificar a origem dessa confraria bizarra: aparentemente, Dan conseguiu convencer Spencer a usar os sintetizadores que ele adota no projeto The Handsome Furs. E Spencer, em retribuição, impregnou o disco com a agonia quase enlouquecedora do Sunset Rubdown. O importante é que todos saíram ganhando: o Wolf Parade, está mais claro do que nunca, é o lar para onde Spencer e Dan retornam após longas aventuras.

Mas pode não ter acontecido nada disso. Este texto hilariante de divulgação, assinado por Steve Martin (?), sugere que o álbum é uma ode à amizade: o título seria uma referência a uma grande exposição de ciência organizada em Vancouver, em 1986. Todos os integrantes, por coincidência, se conheceram naquela ocasião, aos 10 ou 11 anos de idade. E fizeram um pacto: formar um grupo de rock quando crescessem.

Invencionices à parte (mas olhe lá: eles até que têm um excelente senso de humor!), nunca as afinidades musicais dos quatro amigos soaram tão homogêneas. A parábola aloprada faz sentido. Expo 86 é o som de uma banda, não de compositores talentosos que jogam cartas de vez em quando. E, nesse reencontro, o que nasce é um animal tão feroz quanto adorável, um bicho de estimação com dentes pontiagudos. Nós amamos sentir medo dessa fera. 

“Eu tive um amigo que era um gênio, mas ninguém nunca escutou o que ele disse”, conta Spencer em What did my lover say? Pois bem: desta vez eles serão ouvidos.

É que a hora é esta. E, para a sorte de uma horda de blogueiros ansiosos (ainda impressionadíssimos, pelo menos por enquanto), o Wolf Parade não deixa o momento escapar.

Terceiro disco do Wolf Parade. 11 faixas, com produção de Howard Bilerman. Lançamento Sub Pop. 9/10

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26 comentários em “Expo 86 | Wolf Parade

    Pedro Primo disse:
    maio 16, 2010 às 4:34 pm

    Duas notas 9 num ano só? E ainda estamos na metade! Estou assim com o disco também, apesar de ter ouvido poucas vezes. É uma bagunça confortável. E é aquela coisa, na hora de escrever sobre o disco, a emoção falará mais alto aqui também.

    Ghost Pressure é linda.

    Tiago respondido:
    maio 16, 2010 às 4:40 pm

    Como diria Ridley Scott, um bom ano.

    Mas o texto é, principalmente, sobre a minha primeira impressão. E ainda estou muito impressionado com o disco.

    halalson disse:
    maio 16, 2010 às 5:45 pm

    Meu disco mais aguardado para 2010 acabou se tornando também o favorito, até aqui. Longa vida ao WP.

    Diego Maia disse:
    maio 16, 2010 às 6:58 pm

    “What did my lover say?” tem um riff “homenagem” a “Take Me Out” do Franz Ferdinand, hein.

    No mais, tô surpreso com sua empolgação. Pensei que o fato do disco ser bem acessível e dançante fosse te decepcionar.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 16, 2010 às 10:33 pm

    É, eu sou o cara que curte discos difíceis e despreza coisas dançantes. Ok.

    ALIÁS, Expo 86 é o disco que Tonight seria se o Franz Ferdinand fosse mesmo essa grande banda que vocês dizem que ela é. Hehe.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 16, 2010 às 10:34 pm

    Isso aí, Halalson, vamos juntar mais cinco ou seis pessoas e formar um fã-clube.

    Será que o pessoal do Planeta Terra não toparia trazer o Wolf Parade pro Brasil? Ouvir ‘Ghost pressure’ ao vivo seria emocionante.

    Diego Maia disse:
    maio 16, 2010 às 10:41 pm

    Sim, você é esse cara aí. Abs.

    Diego Maia disse:
    maio 16, 2010 às 10:42 pm

    Terra? Eles estão escalados pro Pitchfork Fest. Mais abs.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 16, 2010 às 10:44 pm

    Inveja! Deus é um sujeito injusto.

    E certo, Diego, vou anotar num post-it e colar no espelho do meu quarto para eu me reconhecer todos os dias: Tiago, o dos discos difíceis.

    Mateus disse:
    maio 16, 2010 às 11:06 pm

    Grande texto.

    André Luiz disse:
    maio 16, 2010 às 11:16 pm

    Só a capa desse disco já é maior que toda a discografia do Franz Ferdinand. ‘Ghost Pressure’ é um absurdo de linda, tô tendo uma relação de franca paixão com esse álbum.

    Mais uma vez: texto foda, Tiago.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 16, 2010 às 11:16 pm

    Valeu, Mateus.

    Mas acho que cometi o erro de jogar o hype do disco lá pra cima. Agora vai vir a galera dizendo que não é tão bom assim.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 16, 2010 às 11:18 pm

    Isso aí, André. A capa é uma belezura, e aposto que o Kapranos vai ouvir este disco e pensar: meu deus, é ASSIM que se usa um sintetizador!

    Diego Maia disse:
    maio 17, 2010 às 12:28 am

    Tiago e André, pra quando é o casório?

    Tiago Superoito respondido:
    maio 17, 2010 às 12:36 am

    Mexeu com Franz Ferdinand e o Diego já se ouriça todo. Take it easy, mermão!

    Diego Maia disse:
    maio 17, 2010 às 2:24 am

    O riff é igualzinho ao de Take Me Out. Não negue.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 17, 2010 às 2:36 am

    As duas bandas têm algumas referências parecidas (Gang of Four, Talking Heads), mas acho que a coisa termina aí.

    Diego Maia disse:
    maio 17, 2010 às 2:45 am

    E depois ouve o do Sleigh Bells e tenta entender aquele 8.7 da Pitchfork. Não dá.

    André disse:
    maio 17, 2010 às 3:26 am

    Obrigado.

    Pelo post.

    E por ter me apresentado à banda, dois anos atrás.

    Abraços do
    André.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 17, 2010 às 9:28 am

    Ainda não ouvi, Diego.

    Valeu, André. Brigadão. Eu te apresentei à banda, é? Que legal. Pelo menos meu blog serviu para alguma coisa.

    André Luiz disse:
    maio 17, 2010 às 1:25 pm

    Eu ri, Diego. Hahaha.

    Rodrigo disse:
    maio 17, 2010 às 1:34 pm

    bacana a resenha. só acho que 9 ficou parecendo uma nota de protesto, o que é normal acontecer atualmente com zilhões de bandas “boas”. synths para sempre, curti a Cave-o-sapien.

    Tiago Superoito respondido:
    maio 17, 2010 às 1:45 pm

    Não entendi a história da ‘nota de protesto’. Explique.

    Daniel Dalpizzolo disse:
    maio 18, 2010 às 7:09 pm

    Provavelmente chegou batendo em Titus Andronicus e derrubando The Monitor do posto de disco favorito do ano. Espetacular.

    Ronald disse:
    junho 1, 2010 às 3:43 am

    Adorei o texto Tiago. Cara, conheci WP em meados de julho do ano passado e conheci eles no “nada comercial” at mount zoomer, e cara eu amei! Sempre fui um pouco de bandas mais psicodelicas, que adoram misturar uns sons e fazer algo estranho que soe bem ( para mim pelo menos). Daí a banda se tornar uma das minhas top 3 foi questão de tempo. Estou muito ansioso para que o album seja lançado, vou comprar pela amazon e trazer ele pra cá, pra se juntar ao mount zoomer e o apologies to queen mary =D
    Esse album de fato, para ser como tu disse, a casa do Dan e do Spencer, após viajarem com seus projetos e isso lhes fez muito bem, e notável a mudança que eles tiveram de 2005 pra cá, eles estão se achando cada vez mais! Sorte nossa!
    Ah, comentando os comentários, Adoro Franz e tem um pouco de take me out em what did my lover say, mto pouco.
    Enfim, vamos curtir esse album foda que eles fizeram! xD

    […] Quatro velhos amigos numa sala (enquanto o mundo pega fogo). “Quando fazemos algum esforço, conseguimos visualizar, entre uma faixa e outra, uma banda correndo dentro do estúdio, excitadíssima com as próprias canções, com pressa para gravar, mixar, concluir o trabalho e mostrar-nos o resultado. É, apesar dos versos ainda muito agoniados, um disco que sorri para si mesmo e para o público. Nada como o som de uma banda de rock no auge, feliz com a imagem refletida no espelho” (16 de maio, texto completo) […]

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