Dia: maio 11, 2010

Crystal Castles | Crystal Castles

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Anote e não deixe faltar na sua lista de fim de ano: Crystal Castles pode até não se segurar como o melhor disco de 2010, mas será um dos poucos que, lá em dezembro, vão soar como um retrato muito vivo deste nosso tão estranho, tão efêmero, tão frenético, tão caótico mundo pop.

Pretensioso, eu? Mas é isso aí. Este é um disco que, antes de qualquer qualidade (ou defeito, certamente vão encontrar muitos), soa urgente como o noticiário das oito e meia. Não é sempre que acontece. Mais cedo ou mais tarde, você vai acabar se surpreendendo da mesma forma como eu me surpreendi.

Algumas bandas e artistas têm o talento (ou a sorte) de, talvez inconscientemente, capturar o sentimento de uma época. M.I.A e Vampire Weekend fazem isso quando viram a world music pelo avesso. Radiohead é o próprio sintoma de um período marcado por transformações aceleradas. Geniozinhos de laptop como o Flying Lotus e o Burial, por exemplo, foram gerados na placenta da microtecnologia. Performers mutantes, The Knife, Beirut e Liars espelham o que existe de mais instável num mundo imprevisível, desconfortável.

Adicione o Crystal Castles a esse clube. O duo, formado por Ethan Kath e Alice Glass, se fez conhecido por uma sonoridade bipolar — tão agressiva quanto delicada — que parecia combinar punk e electro. Alguns o chamavam de “digipunk”, outros de “techno-metal”. Mas eles nunca soaram como isso ou aquilo. O ponto de partida é o noise rock, mas eles não escrevem o próprio destino em pedra.

O segundo disco confunde ainda mais quem tenta classificá-los. Começa violentíssimo, sob poeira de ruídos agudos, e vai se reinventando até a última faixa: do shoegazing ao electropop, do hardcore a uma catarata de distorção que só pode ser classificada como tortura sonora. Tudo é possível. Nada faz sentido. O mundo vai acabar em 2012, salve-se quem puder.

O susto é premeditado (tudo ceninha, percebe?). O gosto pelo caos está no hardware do grupo. Gravado em uma igreja na Islândia, num chalé em Ontário (no Canadá, país de origem do duo) e numa loja de conveniência abandonada em Detroit, Michican, e em Londres, o álbum é desconexo de propósito. Quase por birra, não é nada conciso. Tem 14 faixas, algumas longas, e não se contentaria com menos.

A ideia, creio eu, é compactar todos os interesses de Alice e Ethan dentro de um CD-testamento. O resultado é uma mixtape perversa, com uma tracklist que nos deixa para sempre perdidos. Algumas grosserias são quase inaudíveis (caso de Doe deer, que ouço em volume máximo quando quero que o planeta exploda), outras são de uma sensibilidade doce, até radiofônica (aposto que Celestica vai rolar fácil nas rádios britânicas). “Siga-me para lugar algum”, convida Alice. É pra já!

Nas primeiras faixas, o disco se apresenta como um bicho de sete cabeças: os contrastes são intensos, chocantes, gratuitos. Aos poucos, como quem vai afinando uma rádio (indo e voltando nas estações mais acessíveis, sem medo de cair nas lacunas ruidosas que separam umas das outras), a banda encontra a sintonia e, da metade em diante, ele se transforma em uma outra criatura, esguia e autoconfiante. Minhas músicas favoritas estão nessa segunda metade: os jogos vocais em Violent dreams, o aperto claustrofóbico de Vietnam, o desespero sinistro de I am made of chalk, o cinismo fofo de Not in love.

Tal como o The Knife, o Crystal Castles usa efeitos especiais para criar personas e, assim, definir o perfil de cada canção. Cada uma delas parece abrir um capítulo diferente nesta saga. Talvez por isso o disco não aborreça e, até a última faixa, siga oferecendo novos mistérios. Mas, ao contrário dos suecos, existe uma aura familiar no som do duo — um traço humano, palpável — que permite ao ouvinte experimentar os prazeres mais simples do pop.

Nos anos 90, a década em que eu cresci, um disco como este seria tachado de irregular, sem forma, imaturo. Hoje, soa simplesmente apropriado: se você pudesse converter o noticiário em uma só música, como ela soaria? Aposto que, em alguns trechos, o barulho seria insuportável.

Segundo disco do Crystal Castles. 14 faixas, com produção de Ethan Kath. Lançamento Fiction Records. 8.5/10

Let’s write a book | Field Music

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Vamos escrever um livro? O novo clipe do Field Music, dirigido por Ollie e Rohan é uma colagem de pop art sem pé nem cabeça. Bacaninha, mas sério: eles precisam rapidamente de um amigo cineasta que faça justiça ao talento da dupla. Enquanto isso, repare como nossos adoráveis nerds poderiam muito bem descolar uma ponta em The Big Bang Theory.

Compass | Jamie Lidell

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De Jamie Lidell eu espero quase todo tipo de surpresas. Se o sujeito criasse um gênero e decidisse chamá-lo de neo-merengue ou de digisalsa, eu não me assustaria. Mas nada me preparou para um álbum caótico (na mais cruel das análises) e espontâneo (na mais generosa delas) como este Compass. É, numa descrição rápida, um fluxo de consciência em formato de música pop. Soa como uma novidade verdadeiramente inusitada – até para os parâmetros de um artista que sempre se portou como um menino irrequieto de três anos de idade.

Até hoje, Lidell era o nerd britânico, meticuloso, que controlava obsessivamente as próprias criações sonoras. Multiply, de 2005 (o primeiro álbum dele pelo selo Warp Records), ganhou logo o emblema “neo-soul”. Não era um disco conciso, mas todo ele se erguia sobre um conceito muito bem definido: o de contrabandear algumas heranças da black music (soul, funk) para o mundo pós-tudo das colagens eletrônicas. Uma operação quase matemática – para alguns, é um disco que soa frio, congelado em câmara de gás e bits.

Pode ser. Mas o admiro. Desde o início, os gostos de Lidell sempre me pareceram muito sinceros. Ele sabe que nunca será tratado como um autêntico soulman, mas não se contenta com o destino. Consigo imaginar os traumas sofridos por um adolescente de Cambridgeshire, branquelo, míope, que insistia em cantar como Otis Redding.

Mas, contra tudo e todos, no disco seguinte Jamie resolveu prestar uma homenagem até certo ponto sóbria, direta, afetuosa, aos ídolos setentistas: James Brown, Marvie Gaye, Otis e tantos outros. Fácil e polido como um antigo álbum da Motown, Jim (2008) assombrou o fã-clube. Era como se ele dissesse: vocês modernos que se virem com a tradição. Um disco agradabilíssimo, incompreendido, falsamente conservador (já que, de ponta a ponta, desafiava as regras da cartilha indie) e talhado para exibir a voz furiosamente negra de Jamie.

Só havia uma semelhança entre Jim e Multiply: eram discos apolíneos, arquitetados cuidadosamente, discos-experimentos, discos-conceito; mais para Prince e Beck, menos para James Brown e Ray Charles.

Em Compass, Jamie altera exatamente esse padrão: tenta criar um álbum menos planejado, mais “irracional”, mais “humano” (como se os outros não o fossem). As 14 canções foram escritas no período de um mês – e é exatamente assim que o disco soa.

A história do álbum começa quando Beck convidou Lidell para participar do projeto Record Club – uma reunião de amigos famosos cujo objetivo prático é regravar um grande álbum. Com Wilco e Feist, ele colaborou para a versão de Oar, de Alexander Spence. Entusiasmado com o clima da gravação, Jamie convidou a turma para gravar Compass. O disco, produzido por Chris Taylor (do Grizzly Bear), tem convidados como Beck, Feist, Gonzáles e Pat Sansone (do Wilco). Foi gravado em Los Angeles, Nova York e no Canadá.

Esse método mutante de criação está no DNA de Compass. Jamie tenta organizar a “grande bagunça que estava armazenada no laptop” (como ele próprio explica, no site oficial) e, sinceramente, nem sempre consegue. O que vale, no entanto, é o tamanho do empreendimento: desta vez, Jamie soa como o Prince dos anos 90, especificamente o de Chaos and disorder (aliás, ele bem que poderia ter roubado o nome daquele disquinho). Testar um ou outro conceito não é o suficiente: o rapaz quer tudo ao mesmo tempo, de preferência com um punhado de chantilly em cima.

Essa ânsia de multiplicar-se faz de Compass um disco exaustivo (de propósito, parece), confuso, enervante, looongo demais. Cada uma das faixas parece pertencer a a galáxia diferente. Completely exposed, a abertura, lembra um pouco a soul music quebradiça de Multiply, mas Your sweet boom, a seguinte, se aproxima das invencionices psicodélicas do Of Montreal. I wanna be your telephone é Prince dos mais alucinados, compactado nos ritmos mecânicos do Beck fase Modern guilt. The ring = blues-rock. E Gypsy blood é exatamente o que o nome indica: algo exótico.

Descrever cada uma das canções seria tão cansativo quanto ouvir o disco do início ao fim. Melhor pular para as combinações mais felizes: orientalismo chic + vocais emotivos + violões dedilhados por um aluno em fase de iniciação no instrumento + eletrônica hipnótica (a faixa-título, Compass), corinho sessentista + bateria endiabrada + funk rock à Red Hot Chili Peppers (You are waking), lamento doloridíssimo à Pearl Jam + arranjo letárgico (Big drift).

E (tirando algumas baladas até simplórias) a coisa fica ainda mais improvável.

O importante é que, a partir de agora, sabemos o seguinte: Jamie Lidell sabe fazer uma bagunça dos demônios. É corajoso. É um guerreiro. É um exemplo de vida. Faz o que dá na telha. E, em vez de criar um disco planejadinho para agradar aos críticos ranhetas que desprezaram Jim, dobrou o quarteirão e seguiu em frente. Bom para ele. Boa sorte! Agora, eu? Demorei um tempinho para perceber que essa bagunça não me satisfaz e, na maior parte do tempo, me deixa com saudades do músico obsessivo e perfeccionista (e às vezes frio, ok?) de Jim e Multiply. Talvez Compass seja o rascunho para uma nova fase – mais sangue, menos cérebro.

Talvez sim. E vou esperar essa primavera chegar. Por enquanto, o Jamie Lidell impulsivo de Compass me deixa mais frustrado do que desnorteado.

Quarto disco de Jamie Lidell. 14 faixas, com produção de Jamie Lidell e de Chris Taylor. Lançamento Warp Records. 6.5/10