Mês: março 2010

The big to-do | Drive-By Truckers

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O disco anterior do Drive-By Truckers, o genial Brighter than creation’s dark (2008) terminava com uma homenagem a John Ford. Soava apropriado, já que aquele álbum duplo soava como os planos abertos de um filme como Rastros de ódio: uma paisagem vasta, desolada, tomada por heróis ambíguos.

Mais modesto, o novo álbum da banda está mais para Onde os fracos não têm vez: um faroeste moderno, sangrento, com alguns detalhes surrealistas (e tente não lembrar da peruca do Javier Bardem em The wig he made her wear), e personagens amaldiçoados. Sentimos que, nesse breu, a tranquilidade pegou o trem e, preparem-se!, o céu vai continuar fechado por algum tempo.

É o décimo ‘longa-metragem’ dos Truckers, e talvez por isso ele pareça um pouco como um resumo de carreira, a afirmação de um estilo. Talvez estimulados pelo aniversário, eles recuperam o tom desencantado dos primeiros discos, as crônicas violentas, as polaróides de tipos marginalizados. Mas fazem o flashback sem abandonar a beleza selvagem e o lirismo do disco anterior, o melhor que eles já gravaram. No site oficial, o sexteto avisa: trata-se de um álbum de rock.

Daí a primeira surpresa: como pode um disco de rock do Drive-By Truckers conter um número quase ridículo de canções escritas por Mike Cooley? Diabólico, o homem sempre funcionou como uma espécie de Keith Richards para o Paul McCartney que existe em Patterson Hood (Cooley escreveu 3 dimes down, e quem a conhece sabe do que estou falando). A ausência de Mike é a sombra que pesa sobre o disco, ainda que Patterson surpreenda ao assumir o papel de principal roteirista da trama.

Mais do que nunca, Patterson parece celebrar um subgênero que a própria banda ajudou a sedimentar: o country aos frangalhos, torto e malvado. A canção-chave é, por isso, The fourth night of my drinking. O personagem, um bêbado que se maltrata prazerosamente todas as noites, é a personificação autoirônica da própria banda. “Tenho uma tendência por altos e baixos”, confessa o sujeito, depois de ter perdido o carro e o encontrado (por sorte!) em frente ao bar preferido.

Calculadamente, a ficção engendrada pelos Truckers se movimenta assim, atraída perigosamente pelo desastre. São histórias de almas penadas, cavaleiros solitários e perdedores. O disco começa pelo fim, com uma canção sobre morte narrada pela perspectiva de uma criança (Daddy learned to fly), e segue caminhando no ‘wild side’ da América, acompanhado de criminosos (Drag the lake Charlie), prostitutas (Birthday boy) e pastores escabrosos (The wig he made her wear). Nem os lamentos de Shonna Tucker (como You got another) oferecem redenção.

Discretamente, é um álbum também sobre o circo melancólico do rock. “Quando o último sair e a última nota se apagar e o último sonho morrer, apague a luz”, eles pedem, em After the scene dies. Mas o lado estranho dessa história é que esse réquiem vem embalado em riffs enérgicos, quase alegres (como em Daddy learned to fly, Brithday boy), que serviriam de música ambiente para steakhouses.

Talvez essa armadura sonora faça com que os Truckers entrem naquela categoria de bandas aparentemente banais que nunca serão descobertas pelos amigos do filho de Caetano Veloso: para chegar ao coração dessa banda, é preciso “assistir” às canções como quem vê um filme e, depois, notar que as sutilezas melódicas, a sujeira perversa com que eles manipulam o country e o southern rock.

The big to-do guarda esse tipo de enigma, ainda que sem a ambição do disco anterior. Ao elevar o prestígio do grupo, Brighter than creation’s dark fez com que Patterson, Mike e cia se sentissem mais confortáveis na pele dos Truckers. Mas estagnação seria uma palavra muito forte para definir esta fase: plenitude, taí um termo mais preciso para um disco tão seguro da própria mise-en-scene.

Não é um clássico. Longe disso. Mas aposto que Cormac McCarthy curtiria.

Décimo álbum do Drive By-Truckers. 13 faixas, com produção de David Barbe. Lançamento ATO Records. 7/10

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2 ou 3 parágafos | a-ha, uns chapas

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Depois do Guns N’ Roses, não sei se eu precisava de um show do a-ha. Mas me mandei pra lá. Fiquei um pouco emotivo no refrão de Take on me e sujei meu tênis numa poça de vômito (cor de beterraba). Acredito que consegui matar as células da minha pré-adolescência que sobreviveram ao bombardeio de Axl Rose.

Não foi um show ruim. Nem foi (como no caso do Guns) uma bela merda. Nada disso. Aos fãs brasilienses (todos loucos por um freak show de dimensões catastróficas), os noruegueses se mostraram estranhamente comuns. Uns chapas. Uns bróderes. A trilha sonora para esta performance é um mash-up de Ordinary world, do Duran Duran, com Common people, do Pulp. Tudo muito simplezinho. Enquanto Axl tenta macaquear os próprios tiques – como se 1991 fosse um estado de espírito, e não é! – este trio simpaticíssimo comete o crime de envelhecer junto com seu público, como se não dependesse dos velhos hits para sobreviver (ainda que dependa sim – as canções mais recentes soam como Keane meets Seal e, ora bolas, o pop é mesmo muito cruel). 

É a turnê de despedida, e eles agem como quem comemora o pedido de aposentadoria. Oh, folgas! Recesso por tempo indeterminado, manja? E o descanso vem a calhar. Lá pela quinta música, o vocalista anunciou que estava com uma infecção na garganta. Falou algo do tipo (e esta é uma tradução muito livre): “Olha, galera, o papai aqui está nas últimas, tem uma ambulância lá fora me esperando, as músicas vão ficar uma meleca, espero que vocês me ajudem cantando tudo o que vocês sabem. Ainda falta uma hora pra Take on me, vou avisando…” O estádio, coitado, caiu em desânimo. Mas eles têm sorte de contar com fãs muito educados (senhoras e senhores muito educados), que os ajudaram na agonia terrível de subir a Montanha dos Agudos Estridentes até que o maldito clipe de Take on me aparecesse projetado no telão (aliás, belo telão: de Discovery Channel a cartoons abstratos à Justice, teve de um tudo). Na maior parte do show, eu pude sentir a dor, o martírio do vocalista. Foi uma jornada muito tensa, exaustiva. O show deixou a sensação de que eles merecem férias. Era essa a ideia? Esses guerreiros. Esses chapas. Esses experts em Take on me. Eu me sensibilizo com a causa. E espero sinceramente que a ambulância tenha chegado a tempo.

Swim | Caribou

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Dan Snaith é PhD em matemática e vive numa família de acadêmicos. Mas, talvez como uma forma de vingança pessoal, grava discos que soam como o avesso de uma equação de física. A soma das melodias dá em resultados imprevistos, que não se repetem e, por isso, rejeitam a definição de um padrão. São o pesadelo de qualquer cientista.

Cada álbum de Snaith — que atendia por Manitoba, depois por Caribou — é uma biosfera instável, uma capítulo muito diferente do anterior. Daí que, para quem espera um novo Andorra, esta nova fase soará frustrante. Aviso logo: a nova aventura deixa para trás toda a atmosfera afável, de psicodelia sessentista (à Zombies, Beach Boys), que transformou aquele belo álbum de 2008 num pequeno rubi que todo mundo queria ter na estante da sala.

Os elogios ao disco foram unânimes. Para os mais pessimistas, o apogeu parecia representar o início de uma temporada mais tranquila para o músico. Ufa, aconteceu o contrário: o (relativo) sucesso inspirou Snaith a fazer as malas, pagar o bilhete e trocar o itinerário. Swim é um álbum de dance music.

Um gênero que, remodelado por um compositor que adora triturar clichês, é assimilado com absoluta liberdade. A transformação começou no planejamento do disco. Em vez de escrever as canções de forma linear (como aconteceu em Andorra), ele preferiu gravar pedacinhos de ruídos e melodias para, mais tarde, montar o quebra-cabeças. Durante o processo, descobriu que gostava das faixas mais dançantes.

Ainda assim, nada em Swim pode ser classificado de acordo com fórmulas de nichos dance. “As canções têm elementos que a dance music não costuma mostrar, ou não pode aceitar. Sempre sigo meus instintos, não me preocupo com gêneros”, disse Snaith. As canções são feitas de instrumentos que não soam como instrumentos, sons do ambiente, variações irregulares de volume, timbres exóticos e vocais que poderiam ter sido gravados de improviso. Não há como rotular essa sonoridade. É o que é.

Mas é, sem dúvidas, uma sonoridade com limites muito bem traçados. A ideia de um disco que soasse líquido, movediço (um conceito que acaba lembrando o formato de Person pitch, do Panda Bear), é praticada da primeira à última música. As faixas se movimentam em ondas baixas, às vezes atingindo ápices que quebram com força na areia (é o caso de Kaili, o clímax prematuro do disco).

Tal como Panda Bear, Snaith usa as técnicas da eletrônica com a sensibilidade de um fã de rock psicodélico. O fundamental, nos dois casos, é simular a sensação de transe, alucinação, sem abandonar alguns valores caros ao rock: os vocais emotivos, a melodia assobiável, a combinação de acordes que provoca amor à primeira audição (ou o efeito revigorante de uma barra de chocolate, caso de Odessa, lindona).

Depois da décima audição, não sei dizer se é um disco melhor ou pior do que o anterior. Snaith criou um ambiente tão trancado em si mesmo — no bom sentido — que as comparações perdem o sentido. Noto, apesar disso, que o compositor vai crescendo a cada disco, ganhando traquejo para criar faixas que duram o tempo necessário para obrigar que voltemos a elas.

E, se ainda não encontrei nenhuma canção tão tocante quanto Irene (a minha favorita de Andorra e uma das preferidas da década), os prazeres aqui são outros: o de flutuar no mar esverdeado de uma ilha virgem, selvagem, bonita de doer (mas impenetrável em certos trechos — nem todos os enigmas são moleza).

Não é uma onda perfeita. Mas duvido muito que Snaith procurava algo redondinho, previsível. Ele quer mais é cair na aventura. E quem quiser que vá seguindo.

Quinto disco de Dan Snaith/Caribou. Nove faixas, com produção de Dan Snaith. Lançamento Merge Records/City Slang. 8/10

2 ou 3 parágrafos | Ilha do medo

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No DVD de New York, New York (1977), Martin Scorsese conta que projetou o filme como uma espécie de experimento. A ideia era se apropriar dos grandes musicais hollywoodianos, mas com um olhar realista que estava muito em voga nos anos 1970. Uma América de arquitetura falsa — em miniaturas de neon — e sentimentos desvairados, imperfeitos. Acredito que o filme tenha incomodado muita gente (foi fiasco de bilheteria) por deixar a impressão de uma mistura heterogênea, muito desequilibrada (e curiosíssima, mas aí é outra história), entre dois cinemas.

Quando li que Ilha do medo seria um filme assumidamente artificial, inspirado num livro quase pulp de Dennis Lehane, fui correndo comparar aquele Scorsese (de 35 anos) com este aqui (já sessentão). E, como não?, lembrar da distância que separa o diretor de Last waltz (1978) do de Shine a light (2008), dois documentários sobre concertos de rock. No primeiro caso, ele filmou a despedida do The Band — um episódio que provocaria comoção independentemente da existência do filme. No segundo, preferiu encenar um show particular dos Rolling Stones — um momento cuidadosamente planejado para o filme (nas cenas finais, para acentuar esse tom de farsa, o diretor manipula a imagem com efeitos especiais).

Daí que Ilha do medo (4/5) me parece muito coerente com esse Scorsese de Shine a light (talvez este Shutter Island seja o grande filme dessa fase). O realismo é totalmente diluído num jogo de ilusões montado com as referências cinematográficas do diretor. Não é mais o caso de somar A (fantasia) e B (realismo), mas combinar uma infinidade de signos — filmes B, Hitchcock, surrealismo, horror, noir, romance — num redemoinho de imagens que acaba por derrubar o chão do espectador. Se não devemos confiar no narrador do filme, em quem acreditaremos? É esse tipo de incômodo — mais sutil, mais sofisticado — que Scorsese parece interessado em procurar.

Let go | jj

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Os suecos misteriosos do jj (que estão com disco novo na praça, jj 3) não gostam de dar entrevistas, se recusam a posar de astros, e, se pudessem, evitariam revelar os próprios nomes (mas anote aí: Joakim Benon e Elin Kastlander). O elegante clipe de Let go, dirigido por Marcus Söderlund, desfaz um pouco o enigma e explica por que a banda foi convidada para abrir shows do The XX nos Estados Unidos: este também é um mundo em preto, branco e vermelho-sangue.

Superoito, o rei da comédia

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Não sou um homem engraçado.

Mas sempre achei que sim. Sempre acreditei que esse fosse o caso. Desde muito cedo, ainda bem pequeno, quando aprendi a fazer barulhos estridentes com os beiços, encher minhas bochechas de ar até que quase explodissem, esticar a língua até o queixo e dançar feito um macaco dopado, com braços de fantoche. Minha mãe sorria. Minha avó rendia-se a elogios. “Esse menino é uma graça!”. Minhas tias obesas, que me apelidaram de Guigo, exclamavam bobagens superlativas. “Guigo é o máximo”. “Guigo é um menino muito esperto”. E aposto que, em segredo, admitiram: “Guigo é o novo Jerry Lewis!”.

Não tenho lembranças muito precisas daquela época – dois anos de idade! -, mas sei bem (como se fosse hoje) que eu sentia um tipo muito caloroso de satisfação quando as pessoas gostavam das minhas piadas. Meu troféu eram as risadas soltas, francas, demoradas. Eu me enchia de vaidade mesmo quando recebia sorriso com os truques mais tolos – e, nos meus primeiros anos de vida, quase todas as minhas gozações envolviam barulhos escatológicos.

Talvez minhas tias tenham encenado tudo com muito talento (ou simplesmente me mimado, já que Guigo era o homenzinho da casa), mas elas me convenceram de que eu era o rei da comédia. Aos cinco anos, eu contava anedotas com alguma habilidade. Era inaflível: eu sabia como criar uma atmosfera cruel de suspense e, depois, ir torturando as minhas vítimas até a frase final, hilariante e inesperada. Meu saquinho de gags não tinha fundo quando, no colégio, eu camuflava minha timidez na hora do recreio, contando histórias quilométricas, enervantes, que terminavam num golpe genial de humor barato, sujo, desaconselhável para menores.

Isso até os dez anos de idade, quando me entediei com as gracinhas de salão e decidi investir pesado no sarcasmo. Eu era o horror da ironia, das alfinetadas, dos comentários ácidos, das fofoquinhas malvadas. Acredito até que exorcizei toda a minha rebeldia adolescente nesses atos explícitos de escárnio. O poder de soltar a última gargalhada cínica fazia com que eu me sentisse um rapazinho muito inteligente, mas era um dom incompreendido. Mais tarde, notei que minha vocação era interpretada como arrogância.

Pior: notei que, ilusões à parte, não sou, nunca fui um homem engraçado.

Talvez todos os meus traumas de juventude tenham brotado aí, no dia em que encarei o espelho imaginário e percebi que nunca fui um bom palhaço. E que, para que crescesse como um adulto mais ou menos apresentável, eu não deveria me esforçar tanto para soar como um comediante decadente trancado num reality show de fiascos da stand-up comedy.

Toda a minha disposição para a sobriedade, porém, nunca vingou. O meu “eu palhaço” já havia devorado o meu “eu sisudo” e não havia nada que eu pudesse fazer para alterar esse placar. Uma guerra perdida. Daí que segui com esse jeito meio torto e vergonhoso, rindo das minhas próprias piadas e aproveitando todas as brechas do cotidiano para bolar trocadilhos e paródias que nunca sobreviveriam aos rascunhos de uma sitcom vagabunda.

Um humorista amador compulsivo, é claro, incomoda muita gente. Minha namorada detesta meu humor, que ela chama de “amargo e sacana”. Meus colegas de trabalho riem por educação. Meus amigos pedem para eu maneirar. Minha mãe é minha mãe. Minha irmã, como de costume, está pouco se lixando. Minhas tias escafederam-se no universo. E não converso com meu pai há uns seis meses.

O único que parece compreender essa compulsão é, curiosamente, meu padrasto. Digo curiosamente porque meu padrasto foi o homem que me ensinou a grande lição: bom mesmo é ser sério. Minha meta sempre foi simular o temperamento do sujeito. A ranzinzice elegante, a sobriedade à prova de deslizes morais, as risadas selecionadas com rigor. Um adulto feito. Esse era meu plano: vestir os sapatos muito bem engraxados do meu padrasto.

Daí o aspecto curioso dessa trama: desde que começou a perder a memória, consumido lentamente por uma das doenças mais terríveis do planeta, meu padrasto deixou de vestir os próprios sapatos. É um senhor de 55 anos que, a cada mês, regride algumas estações. Os momentos mais doloridos são aqueles em que ele próprio percebe que perdeu o controle das próprias ações. Não sabe (porque não consegue) mais tomar as decisões que, há alguns meses, pareciam automáticas. Quando percebe os sinais da própria doença, tranca o rosto e embranquece, depois fica quase amarelado, se recolhe no canto do sofá e (ele não diz, mas eu sei) se sente estúpido.

Tento passar muito tempo perto do meu padrasto porque sei que, nos dias mais desesperadores, ele precisa das pessoas que o amam naturalmente, sem esforço ou pena. Nos últimos meses, entendi que a melhor forma de lidar com a situação é tratá-la sem muita cerimônia. Conhecemos a doença intimamente: ela se instalou na nossa sala, ela sabe o caminho do quarto, ela brinca com nossos cachorros e, por isso, é inevitável que a encaremos como uma visitante desagradável, mas que chegou para ficar.

Quando encontro meu padrasto, o que nos une é (notem a ironia da coisa!) exatamente aquilo que nos afastava: o humor débil, ingênuo, paspalhão. Contar piadas nos distrai. Fazer graça de tudo (dos filmes que passam na tevê, das notícias narradas pelos jornais, nas trapalhadas dos nossos cachorros) nos aproxima de tal forma que começo a acreditar numa inversão de papéis que me parece bizarra: eu, o palhaço, virei exemplo para meu padrasto, o homem seríssimo.

Admito que, num primeiro momento, minha reação diante dessa nova mise-en-scene foi de total desconforto. Quando alguém repara que eu sou capaz de rir das minhas próprias piadas, fico envergonhado e peço desculpas. “Perdão, não consigo evitar.” Ver meu padrasto sorrindo com meu besteirol raquítico me deixa encabulado – mas, em segredo, também orgulhoso. É como se eu tivesse recuperado o narcisismo infantil que invadia a minha alma quando as minhas tias batiam palmas todas as vezes em que eu poluía a sala de estar e, logo depois, gritava babacamente: “Minha mão não está amarela!”

Com meu padrasto, eu volto a ser o rei da comédia. Um reizinho, vá lá. Um papel que aceito integralmente já que, nesse caso, é quase tudo o que posso oferecer a ele. A doença terrível nos deixa fracos, tensos, sem norte, sem chão, atados uns nos outros à espera de um futuro vazio. As esperanças existem, mas são traiçoeiras – preferimos não nos apegar a elas.

Daí que as risadas nos ajudam, estão na nossa torcida. A casa fica cheia quando gargalhamos. Sofremos com as luzes apagadas e sorrimos quando elas estão acesas. São os holofotes do palco. Até revezamos: eu sou o ator e meu padrasto está na plateia; meu padrasto é o ator e eu estou na plateia.

A risada do meu padrasto – e eu ainda não a conhecia! – hoje é meu ganha-pão e meu modelo. É meu remédio. O homem sorri de um jeito meio patético, engasgando, com os olhos fechados e os ombros girando freneticamente. É uma reação sem maldade ou culpa. Um riso sem destino, sem futuro, sem cobranças, arregaçado, soltinho na atmosfera.

É bonito de ver. E são nesses momentos ainda tão estranhos que eu – um homem nada engraçado – faço força para não chorar.

2 ou 3 parágrafos | E o Oscar foi para…

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Vi o Oscar aos pedaços, pela internet (não sei se perdi muita coisa, perdi?), mas preciso dar duas palavrinhas sobre o resultado. É que me incomoda muito essa conclusão (cada vez mais generalizada) de que a vitória de Guerra ao terror é um soco em Hollywood, um sinal de mudança, uma sandice da indústria. Calma lá. Não é bem o que acontece.

Desde o fim dos anos 80, a Academia aprendeu a lidar com as pressões criadas pelos próprios “independentes”, que passaram a investir em campanhas mais agressivas para emplacar produções e aquisições no Oscar (e o maior exemplo é a Miramax). Mas, já no fim dos anos 90, quando a própria Miramax já tinha sido comprada pela Disney, o conceito de independência ficou nebuloso. O que diferencia verdadeiramente esses filmes daqueles validados pelos grandes estúdios? Quem quer ser um milionário, Juno e Pequena Miss Sunshine, todos com o selo da Fox Searchlight (setor de um estúdio enorme), devem ser classificados como indies? E essa classificação, o que representa hoje além de um valor de marketing? Lembro de uma entrevista que fiz com o Todd Solondz, de Felicidade. “O único cineasta independente é o George Lucas, que controla todo o processo de produção dos próprios filmes”, ele comentou. É por aí.

Guerra ao terror é uma fita distribuída nos Estados Unidos pela Summit Entertainment, uma “pequena empresa” que lançou Crepúsculo e Lua nova. Me pergunto que, se num ataque de loucura dos integrantes da Academia, uma vitória dos vampiros adolescentes teria provocado manchetes em defesa dos independentes. Aposto que não. O que me interessa mais é notar como, nos últimos anos, a Academia tenta usar a (muitas vezes falsa) ideia de autenticidade associada aos “pequenos filmes” para recuperar prestígio e simular a aparência de uma festa relevante e séria, comprometida com um cinema supostamente adulto e legitimado pela crítica. Guerra ao terror cumpre todos esses requisitos. E (ainda que, no contexto, este seja um detalhe) calha de ser um belo filme.