Guns N’ Roses em Brasília

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O palco do Guns N’ Roses é um campo minado. Um rojão explode a cada 10 minutos. Ninguém está seguro. O bombardeio, quando chega, é tão extremo que solta algum cheiro de apocalipse. O estádio estremeceu? Em tempo de terremotos emmerichianos, não há como não ficar (pelo menos um pouco) estressado. Mas tudo é artifício. A terra treme, espalha fumaça, cospe fogo, dispara faíscas coloridas de festas juninas e, depois do vigésimo estouro, estamos anestesiados. É só um show de rock.

Antes de começarmos, um rápido flashback: comprei ingresso para o show do Guns N’ Roses (domingo à noite, no ginásio Nilson Nelson, Brasília) talvez disposto a reencontrar o Tiago meninão que, em 1991, queria ser Axl Rose. Chamem de masoquismo. Minha pré-adolescência, como muitas outras, foi estranha. Ainda não entendo como, naquela época, eu conseguia amar simultaneamente os hits medonhos do Information Society, Roxette, Skid Row, The Simpsons (sing the blues!), Paula Abdul, New Kids on the Block e… Guns N’ Roses. November rain era minha Bohemian rhapsody.

Dois anos depois, eu me envergonharia disso tudo. É natural. A pré-adolescência, como eu ia dizendo, pode ser pavorosa. Daí que entrei no ginásio, 30 anos no meio da testa, com aquela aparência esnobe de quem assiste a um megashow de rock com o distanciamento de quem se submete uma “experiência pop”. Ã-hã. Mal sabiam que o Tiago pré-adolescente, tinhoso e cruel, pulsava de saudades, faminto por sucessos radiofônicos moribundos. O show de abertura (Sebastian Bach!) provocou arrepios de nojo e nostalgia. 18 and life é mesmo um horror, mas diz muito sobre o babaca sentimental que eu era naquela época (e que ainda está um pouco vivo, e vaso ruim não quebra).

O que mais me agrada na ideia de escrever textos em blogs é que temos o direito de mandar os bons modos às favas: desculpem-me os fãs mais talibãs e os adeptos tardios da axlmania, mas o show do Guns N’ Roses em Brasília foi uma bela merda. Uma fedida, imensa, cafona, barulhenta, estúpida, bela merda. Mas, antes que o primeiro fanático grude este post numa comunidade odiosa do Orkut, peço para que reparem no adjetivo: uma bela merda não é qualquer merda. E, quando eu digo que o show foi uma bela merda, estou fazendo uma espécie de elogio. Acreditem em mim.

No início dos anos 90, essa fanfarronice ganharia o apelido da moda: farofa. Como todo legítimo espetáculo farofeiro, a turnê do Guns não tem limites. Perde a medida logo nos primeiros cinco minutos. É Onde vivem os monstros dirigido por Baz Luhrmann. A produção escolheu uma banda de heavy metal de Brasília para abrir os trabalhos, mas a quem eles querem enganar? Guns N’ Roses nunca escondeu no armário a quedinha por Queen, Elton John e Kiss. Se existe uma definição para esse som escancaradamente festivo, seria algo como glam-hard-rock. Sabe Extreme? Sabe Mr. Big? Axl Rose pairou sobre tudo isso feito um urubu-rei.

Não é um show que pede licença, e isso me agrada. Axl Rose não mira o cérebro, mas o intestino. Daí as explosões desagradáveis no palco. Que irritam. E pregam sustos no público. Daí a chuva de confete e serpentina. E a lista de pedidos estranhos à produção (muito champanhe, alguma cachaça, toalhas brancas). As imagens nonsense exibidas no telão (em You could be mine, o que significam as cenas de corrida de Fórmula 1, tio Axl?). Os solos ridiculamente exagerados. Cada música é devassada numa escala monumental. Impossível sobreviver às 2h45 de show sem ficar pelo menos um pouquinho cansado.

Eu admito: fiquei exausto. Às 2h45 da madrugada, quando Axl deixou o palco, tudo o que eu queria era deitar meus neurônios num balde de gelo.

Lá pela terceira música, quando meus tímpanos zuniam com o eco de uns cinco cabeções-de-nego, notei que o Guns N’ Roses que estava no palco não era exatamente o Guns N’ Roses da minha pré-adolescência. Não é nem poderia ser. A banda estava totalmente remodelada (um septeto formato por tipinhos calculadamente exóticos) e o próprio Axl era um avatar inflado daquele ídolo que, lá por volta de 1994, morreu e voltou na pele de um esquisitão obcecado por new metal e política chinesa.

E àqueles que me perguntam se o Axl ainda canta, respondo o seguinte: não sei. Pergunte a outro. Da arquibancada, ouvíamos absolutamente tudo (a bateria, a percussão, os chocalhos, o piano, a metralhadora de bombinhas, os ruídos bizarros à rock industrial), menos a voz de Axl Rose. Não é curioso? O que esperamos encontrar de aparentemente genuíno num show do Guns N’ Roses é a figura de Axl, a celebridade-problema, o monstro congelado no início dos anos 90, o Macaulay Culkin crescido. E tudo o que vimos foi um sujeito de bandana gesticulando agoniadíssimas canções de amor. Um videokê.

Coisas assim acontecem, eu sei. Shows são imprevisíveis, eu sei. Lembro de um da Marisa Monte: espremido na beirada da arquibancada, não consegui ver o palco (que estava aprisionado por um freezer luminoso de arte moderna) e não ouvi o som (cheio de delicadezas sussurradas). Em Brasília, no ginásio Nilson Nelson, esse tipo de coisa acontece com certa frequencia.

Sorte a minha que, no caso do Guns, consegui entender o que acontecia no palco. Os músicos improvisam melodias engraçadinhas (o tema de James Bond, David Bowie, Pantera cor de rosa) enquanto Axl some no camarim (e ele sumia tantas vezes que começamos a suspeitar que ele estaria assistindo ao Oscar e tocando nos intervalos da transmissão). Axl retorna e intercala um hit com uma faixa desconhecida de Chinese democracy. Bombas explodem. É uma guerra, é uma guerra, e ela continua assim por quase duas horas.

A banda (cover) o acompanha com muita precisão. No telão, vemos imagens de meninas depressivas e suicidas. Axl, para quebrar a rotina, vai ao piano e toca November rain. O povo chora, mesmo sem ouvir a voz do moço. Daí ele toca Patience (e dá a deixa pra todo tipo de piada maldosa – esperamos 1h30 para a montagem do palco). O povo se emociona e grita “esta é minha música!”, mesmo sem ouvir a voz do sujeito. Ele sai do palco e volta. Canta outra faixa obscura do Chinese democracy. E termina com Paradise city, que reprisa o entusiasmo com que recebemos o momento bombástico e irado da noite, Welcome to the jungle. Chove serpentina. É carnaval na farofalândia. Axl, bonachão, pede desculpa aos pais que precisam levar os filhos ao colégio. Muita gente boceja. 

E é isto: um showzaço escroto e safado e muito ca-fo-na que esfrega na nossa cara o quão grosseiro era o nosso gosto musical em 1991. Tomem isto. Dancem com isto. Chorem com isto. E ainda houve quem disesse que Brasília nunca viu um evento tão grandioso, tão espetacular, tão bonito e poderoso. Então é isso que vocês querem, é? Farofa, suor e rock ‘n’ roll? Nós, brasilienses, ainda seremos devastados pelo nosso complexo de inferioridade.

Para mim, funcionou como uma espécie de terapia. Agora entendo por que, na minha autobiografia íntima, pulo essa temporada confusa da minha vida. Para todos os efeitos, nunca tive 11 anos de idade. Nunca comprei fitas cassete do Guns N’ Roses. Nunca usei bandana em bloco de carnaval. E nunca, em nenhum momento, juro que não quis ser Axl Rose quando eu crescesse.

Quero menos ainda. Pelo menos até o dia em que o fantasma da minha pré-adolescência resolver me atazanar de novo. Eu era um menino muito estúpido, já disse isso? Mas e o Poison, ainda faz turnês?

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16 comentários em “Guns N’ Roses em Brasília

    hans disse:
    março 9, 2010 às 3:13 am

    Daqui a 20 anos sentirá vergonha dos discos que idolatra hoje.

    Felipe Queiroz disse:
    março 9, 2010 às 5:44 am

    Não acredito que você perdeu uma cerimônia tão empolgante quanto o Oscar para ver o Macaulay Culkin crescido… ahahaa

    Guns N’ Roses pra mim era o Slash, o Axl me incomodava com as suas poses afeminadas.

    Daniel disse:
    março 9, 2010 às 5:57 am

    Me senti totalmente identificado. Eu tbm queria ser Axl Rose. Eu tbm vi o show de 1991, eu sabia as letras inteiras de Patience (até aquela baforada do Axl no fim da música, imagina como aquilo não devia ser inflamável), Welcome to the Jungle, Paradise City.

    Eu não sei se Chinese Democracy é bom ou ruim, mesmo tendo ouvido. Como poderia, com aquelas toneladas e toneladas de instrumentos escondendo as canções? O que eu posso dizer é que foi um dos discos mais longos da minha vida (tive que ouvir aquela desgraça até o fim, pq ia escrever sobre ele. Foi heróico).

    Só faço uma ressalva. Por uma única razão, acho q o Guns paira acima daquela horrenda geração hard rock…farofa (inevitável) dos 80’s. Essa razão na verdade é um disco: Appetite for Destruction. Passados esses anos todos, vc já o re-ouviu? Faça a experiência. Abraços !

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2010 às 10:25 am

    Será, Hans? Não sinto vergonha dos discos que eu curtia quando eu tinha 14, 15 anos. Acho que as coisas ficam complicadas e estranhas na fase da vida em que ainda estamos formando nosso gosto – e o texto é sobre ela.

    Felipe, vá lá: o Oscar não foi nada empolgante. E o show do Guns bem que poderia se chamar “Guerra ao terror”, haha.

    Daniel, e o engraçado é que eu não detesto o Chinese Democracy! Não acho que seja um disco ruim, ainda que, sim, ele seja um dos álbuns mais megalomaníacos do mundo. Não voltei a ouvir o Apetite, mas lembro perfeitamente dele. E é um bom disco. Concordo, o Guns estava acima dos imitadores. Mas existe um elemento patético no estilo da banda e na forma como ela reflete os excessos daquela época (pré-grunge) que os fãs não deveriam ignorar (da mesma forma como há algo muito ridículo na grandiloquência do Oasis, outra banda que marcou minha adolescência e, ao contrário do Guns, de que gosto ainda hoje).

    Mas, no show, encontrei muitos fãs meio xiitas, e agora começo a ficar com medo de que eles encontrem este blog e toquem o terror.

    hans disse:
    março 9, 2010 às 12:55 pm

    Sim, superoito,

    Ainda faltam 5 anos pra você começar a sentir vergonha dos discos que ouvia aos 15 anos.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2010 às 12:57 pm

    Ok, Hans. Estou no aguardo!

    Alê Marucci disse:
    março 9, 2010 às 1:48 pm

    Seu texto me convenceu: vou ao show!
    Rolou um arrepio só de ler os hits que a banda tocou.
    Ao contrário de você, não tenho vergonha alguma do meu estragado gosto musical pré-adolescente. ;)
    Beijo.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2010 às 2:03 pm

    Então vá fundo, Alê. E leve a bandana!

    Pedro Primo disse:
    março 9, 2010 às 2:51 pm

    Guns N’ Roses nunca me pegou, tive uma época rápida de Use You Illusion, mas passou rápido. Mas até pouco tempo eu gostava de Muse e vendia a banda como se fossem os novos Beatles (isso me da vergonha hoje em dia, auhahu).

    Quando eu falar mal dos discos do Animal Collective daqui a 20 anos pode mandar me enterrar (risos).

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2010 às 3:17 pm

    O show do Guns lembra muito o show do Muse. Mas vamos comparar assim: o do Muse é Cirque du Soleil; o do Guns é circo de cidade do interior em véspera de ano-novo.

    hans disse:
    março 9, 2010 às 4:28 pm

    aaahhhhh, demorou, mas entendi. O negócio aqui é Muse, Animal Collective, Placebo e tal, misógenos, enfim.

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2010 às 5:13 pm
    Ailton Monteiro disse:
    março 12, 2010 às 7:40 pm

    O Guns foi a banda de início do meu gosto por rock barulhento. Por isso marcou tanto. Mas aí depois veio o Faith No More no Rock in Rio 2 e eu deixei o Guns de lado. Ou quase. Mas de vez em quando ouço o Appetite for Destruction. Belo disco.

    Tiago Superoito respondido:
    março 13, 2010 às 11:27 am

    Eu também gostava muito de Faith no More nessa época.

    rodrigo disse:
    maio 7, 2011 às 12:54 am

    Isso nao e uma banda cover,isso e guns n roses!!!!tem caras tipo vc q acham q determinada fase da vida tem q durar para sempre.sua mamorada e a mesma de qdo vc era adolescente,se e q vc teve(tem) namorada???muitas coisas mudaram de la p ca ne??inclusive o Guns!!! vc e mais um dakeles ranzizas q se axam melhor q os outros e adoram criticar as coisas e dar uma de superentendido!!!Porra se nao gosta da fase atual pra q diabos compra um ingresso caro e espera um tempao p ver o Axl???numa boa se nao ta afim de fogos e estadio tremendo va ver o show da ivete sangalo meu filho…
    Bom prefiro ver o Guns com qualker formaçao do q deixar de ve los e sei q podia ser como for o show q vc iria falar mal…no mais Get in the ring mothefucker!!!

    Cris disse:
    outubro 26, 2012 às 11:38 am

    vai tomar no cú por que no show em São paulo foi uma realização do meu sonho não acredito prdi meu tempo lendo o seu post ridículo, seu escroto.

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