2 ou 3 parágrafos | E o Oscar foi para…

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Vi o Oscar aos pedaços, pela internet (não sei se perdi muita coisa, perdi?), mas preciso dar duas palavrinhas sobre o resultado. É que me incomoda muito essa conclusão (cada vez mais generalizada) de que a vitória de Guerra ao terror é um soco em Hollywood, um sinal de mudança, uma sandice da indústria. Calma lá. Não é bem o que acontece.

Desde o fim dos anos 80, a Academia aprendeu a lidar com as pressões criadas pelos próprios “independentes”, que passaram a investir em campanhas mais agressivas para emplacar produções e aquisições no Oscar (e o maior exemplo é a Miramax). Mas, já no fim dos anos 90, quando a própria Miramax já tinha sido comprada pela Disney, o conceito de independência ficou nebuloso. O que diferencia verdadeiramente esses filmes daqueles validados pelos grandes estúdios? Quem quer ser um milionário, Juno e Pequena Miss Sunshine, todos com o selo da Fox Searchlight (setor de um estúdio enorme), devem ser classificados como indies? E essa classificação, o que representa hoje além de um valor de marketing? Lembro de uma entrevista que fiz com o Todd Solondz, de Felicidade. “O único cineasta independente é o George Lucas, que controla todo o processo de produção dos próprios filmes”, ele comentou. É por aí.

Guerra ao terror é uma fita distribuída nos Estados Unidos pela Summit Entertainment, uma “pequena empresa” que lançou Crepúsculo e Lua nova. Me pergunto que, se num ataque de loucura dos integrantes da Academia, uma vitória dos vampiros adolescentes teria provocado manchetes em defesa dos independentes. Aposto que não. O que me interessa mais é notar como, nos últimos anos, a Academia tenta usar a (muitas vezes falsa) ideia de autenticidade associada aos “pequenos filmes” para recuperar prestígio e simular a aparência de uma festa relevante e séria, comprometida com um cinema supostamente adulto e legitimado pela crítica. Guerra ao terror cumpre todos esses requisitos. E (ainda que, no contexto, este seja um detalhe) calha de ser um belo filme.

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13 comentários em “2 ou 3 parágrafos | E o Oscar foi para…

    jv disse:
    março 9, 2010 às 2:23 pm

    é um filme ok. bastardos é bem melhor.

    jv disse:
    março 9, 2010 às 2:24 pm

    mas realmente, boa analise essa da relação com filmes ‘independentes’…

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2010 às 2:30 pm

    É, eu também prefiro o “dependente” Bastardos Inglórios.

    barchilon disse:
    março 9, 2010 às 7:23 pm

    talvez não seja, assim como na música, Indie um novo gênero de cinema. Há o indie-pop, indie-rock, indie-hiphop, que mesmo quando se tornam bandas de grandes gravadoras, continuam com a rotulação indie. No caso, Crepúsculo nunca poderia ser Indie. Já Guerra ao Terror, sim. E isso mostraria que esse gênero está ganhando espaço. Só faltaria, então, definir o que é Indie. Filmes de baixo orçamento que fogem de alguma forma do padrão imposto pelos estúdios para fazer dinheiro? Viajei?

    Tiago Superoito respondido:
    março 9, 2010 às 8:41 pm

    Mas esse ‘padrão’ dos estúdios é bem subjetivo, né, Barchilon? Eu estava lendo agora uma entrevista com a Kathryn Bigelow e ela comenta que, apesar de ter dirigido quase sempre por produtoras pequenas, só teve liberdade completa em pouquíssimos casos: Near dark, Estranhos prazeres e Hurt locker.

    Diego disse:
    março 10, 2010 às 12:24 am

    Preciso o seu comentário. Guerra ao Terror é pequeno se comparado a Avatar, mas tá dentro da mesmíssima indústria.

      henrique disse:
      março 12, 2012 às 9:04 pm

      e mesmo tem vez que sim

    Tiago Superoito respondido:
    março 10, 2010 às 1:18 am

    Não dá pra descontar o fato de que foi produzido por estúdios pequenos, mas, na hora da campanha do Oscar, acho que são outros os fatores que mais contam.

    Filipe Furtado disse:
    março 10, 2010 às 11:24 am

    Na verdade a Summit não teve nada a ver com a produção do Hurt Locker. Eles compraram os direitos de distribuição nos EUA, exatamente como a Imagem comprou aqui. O filme foi financiado por um investidor frances. Posso estar enganado, mas acho que foi o primeiro vencedor do Oscar bancado 100% por financiamento estrangeiro.

    Agora eu concordo com ponto do Tiago de que a oposição era meio esquisita até porque independente de qualquer outra coisa, ninguém na Fox interferiu em nada que o Cameron fez. Alias, dado os recursos que ele tinha em mãos, Avatar certamente é o mais proximo entre os 10 indicados de ser exatamente aquilo que o cineasta imaginou.

    Se tem algo interessante neste sentido é que dos 10 indicados, somente 3 (Up, bastardos e Avatar) foram 100% financiados po estudios (sejam grandes ou pequenos).

    Tiago Superoito respondido:
    março 10, 2010 às 12:50 pm

    Filipe, mas isto está no texto: a Summit distribuiu o filme nos EUA. E cara, na hora de fazer campanha pro Oscar, o distribuidor conta e MUITO. É fundamental, aliás. É só lembrar das vitórias de Cinema Paradiso e Meu Pé Esquerdo (distribuídos pela Miramax, com campanha fortíssima pré-Oscar). Ou da campanha da Sony pro Central do Brasil. Slumdog millionaire… São tantos os casos que nem vou ficar listando.

    E a Bigelow contou que não teve inferferência nenhuma no Hurt Locker e fez o filme com a condição de ter direito ao corte final.

    Tiago Superoito respondido:
    março 10, 2010 às 12:53 pm

    E pelo menos a informação que está no IMDB é que o filme foi produzido por cinco companhias, três delas dos Estados Unidos.

    Tiago Superoito respondido:
    março 10, 2010 às 1:30 pm

    Trecho de matéria do Hollywood Reporter, Filipe:

    “To earn its gold, “Hurt Locker” had to break what producer Greg Shapiro called “The Iraq War Curse,” referring to all the movies touching on that conflict that had failed to find an audience. It had to weather attacks in the media and from some in the military who questioned the realism of how it portrayed the bomb removal unit.

    The film also drew censure for the behavior of one of its producers, the first to be banned from attending the Academy Awards. And it had to win with backing from Summit Entertainment, a relatively new and small distributor that had never before won an Oscar.

    The path that “Hurt Locker” took was anything but standard. After Summit picked up domestic distribution in September 2008, it put the movie on the shelf because its release schedule was crowded. Then Summit opened “Hurt Locker” in the summer as counterprogramming instead of in the fall, when most serious dramas get a showcase launch.

    Summit turned the Oscar campaign strategy over to PR firm 42 West, where veteran campaigner Cynthia Swartz called the shots. Swartz was criticized for waiting until early December to send out the DVDs, even though the whole strategy revolved around getting the movie seen by as many voters as possible.

    She also had to get attention from Academy voters and guild members for a movie without any marquee names and a subject that put off many people already weary of a war that never seemed to end.

    What Swartz did right was to center the campaign around Bigelow, a woman who directed with as much glory and guts as any man, and to feature writer/producer Mark Boal for his screenplay and real-life story as a journalist who was embedded with a bomb disposal unit in Iraq.

    She had bound copies of the “Hurt Locker” script sent to every member of the WGA, earning guild honors for the original screenplay and the same award at the Oscars.”

    henrique disse:
    março 12, 2012 às 9:05 pm

    eituque

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