Have one on me | Joanna Newsom

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Conheço gente que acha Joanna Newsom um desastre. Um erro. Quase um nojo. Eu digo é mais: a mulher é insuportável.

Eu mesmo, que viro um menino desamparado quando ouço a harpa da moça, reconheço que é mesmo difícil olhar nos olhos desse furacão. Nós conhecemos uma multidão de cantoras e compositoras que estão por aí, desnorteadas, perdidinhas, à procura de um estilo, uma voz, um raio de personalidade. A maioria não encontra nada. A arte de Joanna Caroline Newsom, exceção entre exceções, é tão particular que machuca. Dá medo. Provoca alguma raiva (e uma pontinha de inveja, que ninguém é santo).

Joanna Caroline Newsom tem 28 anos, canta como só ela canta (naquela voz agudíssima e às vezes alienígena que põe muito marmanjo nervoso), compõe como só ela compõe, toca harpa como só ela toca e escreve álbuns que, por mais que você tente mapear as comparações fáceis (Joni Mitchell, Kate Bush, Vashti Bunyan), soam radicalmente diferentes de tudo o que você ouve no blog e na rua e na rádio e no elevador e na loja de roupas e na feira hippie.

Não existe outra Joanna Newsom. Entendeu o drama? E, aos que ainda se amedrontam diante desta mulher com franja de menina, recomendo que pode ser uma boa ideia (e note que não estou forçando nada) começar a conhecê-la desse modo meio inocente, quase tolo, nada irônico, nem um pouco sacana, sem a predisposição de encontrar um modelo formatado de musa indie, diva folk, nerd excêntrica, celebridade cult, outsider de butique. Ela não é nada disso (ainda que possa ser categorizada injustamente com todos esses adesivos).

O culto a Joanna Newsom – que existe e pode ser irritante como qualquer culto a qualquer astro pop (e odiamos as fãs mais descabeladas de um Marcelo Camelo, não odiamos?) – tem muito a ver com a forma como ela abre a porta do quarto e nos deixa entrar. Simples. E complicado. A música de Joanna é de um intimismo profundo, que exige total cumplicidade do ouvinte e, por isso, provoca um tipo muito sensível de conexão sentimental. O fã ouve um disco de Joanna como quem lê compulsivamente as páginas de um romance delirante escrito em primeira pessoa. Está enfeitiçado desde o prólogo.

É por isso que todas as estranhezas da moça, que podem soar imperdoáveis (e insuportáveis) para os infiéis e não-iniciados, são imediatamente perdoadas pelos súditos. A esses, recomendo que tomem um certo distanciamento, nem que por alguns minutos. O que eles vão encontrar? Uma caligrafia que não é bem folk, não é exatamente barroca, não é tão etérea quanto parece e que às vezes soa como a trilha sonora para uma versão lisérgica de Branca de Neve e os sete anões. Um conto de fantasia cuja protagonista parece habitar o nosso mundo e, se tivéssemos muita sorte, poderia ser a nossa vizinha.

Esse contraste que entre a atmosfera onírica das canções de Joanna e o tom pessoal do discurso pode não ter ficado muito claro no disco anterior, Ys (2006), um impressionante ciclo de melodias dividido com o auteur e arranjador Van Dyke Parks. Aquele era um álbum obsessivamente ornamentado – um (lindo) quadro na parede, uma obra-prima pensada como obra-prima. Have one on me é um disco mais espontâneo, menos carregado de ambições e, para minha surpresa, ainda mais apaixonante.

Mais uma vez, Joanna mostra um desejo imenso de jogar com aquilo que conhecemos como um formato tradicional de álbum. Ys tinha a quantidade de canções de um EP, mas soava monumental como uma obra conceitual do fim dos anos 1960. Have one on me, por sua vez, é um disco triplo (e, à exceção do Prince e do Magnetic Fields, quem comete uma sandice dessas?) com a duração de um CD duplo e organizado como três mega-EPs. Mais inusitado ainda: um disco triplo que aproveita o espaço amplo para se espreguiçar, abrir lacunas entre os acordes, tecer pequenas variações melódicas, deixar o tempo passar, espairecer.

Se Ys soava como a obra de uma artista que precisava imediatamente definir uma visão de mundo e se impor acima dos formatos mais convencionais do pop, Have one on me acaba por parecer muito mais sereno (no estilo) e complexo (nos temas e emoções despertados por cada canção). Talvez você não acredite, mas é o álbum mais convidativo – e talvez o melhor – que ela gravou.

O que surge no disco é uma compositora mais permeável e generosa, disposta a assimilar uma diversidade de ideias sem medo de desviar do caminho que resolveu seguir. O disco oscila entre delicadas canções curtas como a perfeitinha On a good day e monumentos folk como No provenance. Há temas históricos (Have one on me é aparentemente sobre Lola Montes) e confissões muito íntimas (Easy, um poeminha belíssimo sobre as inseguranças do amor).

Talvez mais importante é como Joanna desta vez compartilha o disco com uma banda, que caminha junto dela e, quando necessário, preenche as brechas da harpa e do piano com violões, bateria, instrumentos de sopro. Tudo até meticuloso – como na deslumbrante You and me, Bess, que permite até a inclusão de um coro. Sabemos que esse processo de abrir-se ao mundo é sempre muito perigoso – mas Joanna cumpre o desafio sem perder nada daquilo que, para os ouvintes que se deixam atropelar pelas canções, sempre soou esquisito e radical.

Lembro que, quando Ys foi lançado, as resenhas mais furiosas comparavam o álbum ao que há de mais exibicionista e esnobe no rock progressivo dos anos 70. Temi que Joanna Newsom acabasse por levar em conta esse tipo de comentário. Mas não. Have one on me, gravado em Tóquio com produção da própria Joanna (e, em seis faixas, mixagem de Jim O’ Rourke), surpreende fãs e detratores. Talvez para o mal. Interessa (a mim, pelo menos) a forma decidida como Joanna segue uma trajetória de completa independência criativa. “Eu não vou voltar, agora que o caminho está mais claro”, ela avisa, em On a good day.

E a sensação de liberdade, de não dever satisfações ou se obrigar a algum tipo de concessão, contamina de tal forma este álbum triplo que, lá pelos 60 minutos de viagem, tudo o que eu consigo ouvir nele é beleza bruta, beleza estranha, beleza sutil, beleza que emociona, beleza nos detalhes mínimos, beleza que não se sabe de onde vem, beleza inclassificável, beleza dura, beleza fácil, beleza difícil, beleza insuportável. Outra beleza.

Daí em diante, lá pelos 80 minutos, Joanna está completamente no controle. É um disco dela é para ela. E o que resta a nós, os pobres súditos, é o prazer de sermos conduzidos para um lugar infinitamente misterioso.

Atualização (3 de março): Depois da décima audição, dá pra bater o martelo: You and me, Bess é a música mais bonita do mundo.

Terceiro disco de Joanna Newsom. 18 faixas, com produção de Joanna Newsom. Lançamento Drag City. 9/10

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20 comentários em “Have one on me | Joanna Newsom

    Mariana disse:
    março 2, 2010 às 2:05 pm

    Confesso que fiquei com um pouco de receio quando soube que o álbum teria 2 horas de duração. Aí. Não foi preciso ouvir até a metade pra qualquer tipo de receio ser esquecido. O álbum é lindo. Acho que há tempos eu não ouvia algo tão. Tão. Como você disse, uma outra beleza. Ela tá de parabéns e você também, pelo belo texto.

    Tiago respondido:
    março 2, 2010 às 2:16 pm

    Também fiquei com receio, Mariana. Mas é um disco muito mais “fácil” do que dá a entender. E me vi reprisando várias das músicas para ouvir de novo um ou outro momento muito bonito.

    É o melhor disco do ano e, se algum outro batê-lo, isso significa que estamos num ano extraordinário.

    Felipe Queiroz disse:
    março 2, 2010 às 6:29 pm

    As músicas são muito boas! Mas acho que elas funcionam bem melhores separadas do que em conjunto. Duas horas é fogo!

    Diego disse:
    março 2, 2010 às 6:53 pm

    Duas horas é fogo até em filme.

    Vou pular a Joanna.

    Tiago respondido:
    março 2, 2010 às 6:53 pm

    Acho que ela separou em três discos por causa disso mesmo, Felipe. Ao contrário do Ys, este disco não é pra ser ouvido de cabo a rabo.

    Ok, Diego…

    Daniel Melo disse:
    março 2, 2010 às 8:46 pm

    Estou digerindo o disco lentamente… E lentamente ele vem me conquistando.

    Mariana disse:
    março 2, 2010 às 11:55 pm

    Apesar de que o disco não seja pra ser ouvido de cabo a cabo, achei impressionante a qualidade em qualquer ponto do álbum todo.

    E é verdade, ainda é março mas já tô chamando de melhor do ano. :)

    Pedro Primo disse:
    março 3, 2010 às 12:09 am

    Já ouvi umas quatro vezes e ainda não tenho uma opinião concreta, preciso ouvir sem estar fazendo nenhuma outra atividade. Mas tenho a impressão de que a voz dela não é mais tão irritante quanto dos álbuns anteriores, parece mais acessível. Daqui a um ano eu comento aqui minha opinião madura. (risos)

    O Imprevisivel disse:
    março 3, 2010 às 1:09 am

    Eu quase comecei a escutar o disco hoje, num link de streaming do npr, deu preguiça pela duração, mas fiquei bem curioso.

    daniel pilon disse:
    março 3, 2010 às 2:10 am

    Muito bom o texto. Fiquei com disco a semana passada inteira, Joanna é genial.

    Tiago Superoito respondido:
    março 3, 2010 às 2:26 am

    É, Pedro, tens que tirar duas horinhas do seu dia pra ouvir o disco. Obrigatório.

    Pedro Primo disse:
    março 3, 2010 às 3:04 am

    Aproveitando o embalo, você tem twitter Tiago?

    Filipe Furtado disse:
    março 3, 2010 às 8:09 am

    Sei não mas este papo de que algo é o melhor do ano em março sempre é esquisito vide o surto coletivo entorno do MPP no fim de 2008 (a despeito de eu gosyar muito mesmo daquele disco).

    Tiago Superoito respondido:
    março 3, 2010 às 9:58 am

    Tenho sim, Pedro: @superoito.

    Filipe, eu quis dizer que, até agora, é o melhor do ano. E não sei se sua comparação é boa: o “surto coletivo”, no caso do Animal Collective, não foi tiro n’água.

    halalson disse:
    março 5, 2010 às 7:57 pm

    Também o meu disco do ano até aqui. Vi essa mulher ao vivo em Porto Alegre em 2008, e minha condição de fã triplicou. Caso com ela.
    P.S.: Outro belo álbum é o novo da Basia Bulat, grande, grande.

    Dino disse:
    março 10, 2010 às 5:59 pm

    Vi esta menina ao vivo em Lisboa
    a partir desse dia nunca mais fui o mesmo!
    Obrigado Joanna por inundares os meus sonhos de cor. Quando for grande caso contigo.

    Heloisa disse:
    março 18, 2010 às 3:09 am

    Tudo que ela faz se torna pedra preciosa.

    Joanna é um verdadeiro gênio. “Magnífica” não descreve.

    fernando disse:
    abril 10, 2010 às 10:32 pm

    achei que ela está tão segura do trabalho dela que se permitiu até cantar “bem”. esse disco é um primor, é tão bem feito, bem cuidado. e a capa e linda…
    e por mais que pareça o contrário, esse é um disco pra se ouvir de dia e com as janelas de casa abertas.

    mas não tem jeito! a melhor música do mundo é “Good Intentions Paving Company”.

    =]

    gustavo disse:
    dezembro 5, 2010 às 1:38 am

    Seguindo as listas de melhores álbuns que brotam aos montes, finalmente conheci o som dessa cantora. Escutar o álbum não foi fácil, até porque fiquei preso no primeiro disco, escutando over and over, como se eu não quisesse sair daquele mundo. O terceiro disco é realmente mais livre, parece que ela está brincando de tocar (mentira, não é possível que seja tão fácil assim), e eu só admirando. Perfeito, e ótima resenha!

    Ah, e a primeira estrofe da música ’81 é uma das coisas mais lindas que já escutei até hoje! *.*

    […] Visões de Joanna (num disco onde, se aceitarmos o convite, podemos morar por um bom tempo). “A sensação de liberdade, de não dever satisfações ou se obrigar a algum tipo de obrigação, contamina de tal forma este álbum triplo que, lá pelos 60 minutos de viagem, tudo o que eu consigo ouvir nele é beleza bruta, beleza estranha, beleza sutil, beleza que emociona, beleza nos detalhes mínimos, beleza que não se sabe de onde vem, beleza inclassificável, beleza difícil, beleza insuportável. Outra beleza.” (2 de março, texto completo) […]

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