Superoito express (18)

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Gorilla manor | Local Natives | 8

Quando ouvi este disco de estreia do Local Natives pela primeira vez, admito que não me animei muito: este quinteto de Los Angeles exibe as próprias referências musicais com o entusiasmo meio ingênuo de um adolescente que, na parede do quarto, pendura cartazes coloridos das bandas favoritas. Daí que não é preciso bater um papo com sujeitos para entender que eles amam os climas misteriosos dos discos do Radiohead, o (falso) descontrole do Pixies, o transpop do Talking Heads (via Vampire Weekend), a emotividade do Arcade Fire e os ventos interioranos de uma balada do Band of Horses. Tudo muito bonito e organizadinho. Mas não seria o caso de abandonar esta banda e ir direto às fontes?

A resposta é um grande não. O “problema” é que, pelo menos para a parte do público que acompanhou o rock dos anos 90 e 00, Gorilla manor despertará tamanha familiaridade que poderá provocar dois tipos extremos de reação: amor imediato ou desconfiança. Dê uma chance ao amor, ok? E note como é interessante a forma como eles conseguem interpretar as próprias referências com muita franqueza, como quem revira as gavetas, escreve uma carta de amor aos ídolos e pede passagem.

Dito isso, taí um début elegantemente ambicioso, com uma obra-prima irresistível (Airplanes, que é tão emocionante quanto Funeral, do Band of Horses), canções obsessivamente buriladas e, mais importante, o ânimo daquelas bandas que apostam tudo em planos incríveis, gigantescos, talvez ridículos. Nisso também lembra Arcade Fire (ou Guillemots, hein?). Fiquemos com a boa lembrança.

Black noise | Pantha du Prince | 7

Nunca entendi o que há de tão extraordinário ou particular na microeletrônica de Hendrick Weber — e olha que tentei os dois discos anteriores dele, que oscilam entre o sublime e o letárgico —, mas Black noise me obrigou finalmente a entrar na sintonia do alemão. Não é um álbum tão acessível quanto parece (a participação de Panda Bear em Stick to my side, a música mais pop que o Pantha du Prince já gravou, pode provocar interpretações equivocadas), mas faixas como Lay in a shimmer e Behind the stars mostram um estilo que se torna mais compacto, seguro e melodioso sem perder a carga de invenção que sempre esteve associado a ele. Para quem gostou do disco mais recente do Four Tet, é um desafio que vale todo o esforço.

Falling down a mountain | Tindersticks | 6.5

Este álbum do Tindersticks, um dos mais sortidos da banda, me decepcionou um pouco — talvez por ter me lembrado de como o Lambchop se apropria de referências mais ou menos parecidas (country, folk, soul music, lounge, easy listening) e, com elas, faz discos infinitamente mais enigmáticos do que este. Falling down a mountain soa como uma tarde de férias na companhia de Stuart Staples, confortável e até despretensioso, com um ar de trilha sonora (reflexo da experiência de Staples no ramo) e até momentos de pausa na habitual melancolia (Harmony around my table é o susto da vez). Não dá pra recusar um disco desses, mas não me peçam para cair de amores por ele.

Turn ons | The Hotrats | 6

Pelo menos por aqui, eram grandes as expectativas para este projeto de Gaz Coombes e Danny Goffey (ambos do Supergrass) que, com produção de Nigel Godrich (Ok computer, Sea change), se dispõe a reinventar maravilhas como I can’t stand it (Lou Reed), Big sky (The Kinks) e E.M.I. (Sex Pistols). Mas acaba que Turn ons soa como muitos álbuns do gênero: as versões não trazem nenhum insight muito particular e fica a impressão de que as homenagens renderiam mais em palco (e aí todos cantaríamos juntos e haveria drinks de graça e choraríamos de emoção e seria o melhor dia das nossas vidas) do que em disco. A boa sacada: Bike, do Pink Floyd, com neon e glitter.

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4 comentários em “Superoito express (18)

    Pedro Primo disse:
    fevereiro 23, 2010 às 9:41 pm

    Impressionante como quase todas as faixas do Gorilla Manor tem um refrão memorável. Minha favorita é Cubism Dream (i did it for you/i did it for me).

    Já ouviu o novo da Joanna Newsom? Não achei melhor que o Ys, mas ficou bem bonito (e parece meio country).

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 23, 2010 às 9:44 pm

    Pedro, o disco é muito bom mesmo e daria um texto mais longo.

    Sobre Joanna Newsom: estou ouvindo. Len-ta-men-te. Tenho que tirar um tempo e dar um mergulho. Por enquanto, parece bom sim.

    Felipe Queiroz disse:
    fevereiro 24, 2010 às 3:06 am

    De primeira também não vi nada de mais no Local Natives, mas a sonoridade é tão simpática que você acaba se entregando. Ótimo álbum indie.

    Não sei da onde vou tirar tempo pra ouvir o novo da Joanna Newsom como ela merece. Ainda estou devendo uma passada pelo The Knife. Esses artistas estão muito ousados.. ahaha

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 24, 2010 às 3:15 am

    É overdose de ambição, acho que nem eles estão aturando mais… A primeira banda que lançar um disco de 25 minutos vai ganhar os corações do planeta, haha.

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