Tomorrow, in a year | The Knife

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Quando o The Knife anunciou que escreveria uma ópera inspirada no livro A origem das espécies (1859), de Charles Darwin, muitos se apressaram a enxergar ali uma anomalia pop. Mas vamos lá, gente! Pelo menos para mim, sempre pareceu óbvio que as descrições do naturalista britânico acabariam engolidas por um disco do Flaming Lips. A diversidade biológica! A evolução! A árvore da vida! A viagem do HMS Beagle! Os tentilhões de Galápagos!

No mundo pop, os mais destemidos também sobrevivem. Daí que o duo sueco teve a ideia primeiro e, numa colaboração com Mt. Sims e Planningtorock, escreveu as 15 faixas que compõem o álbum duplo Tomorrow, in a year, cujo repertório foi criado inicialmente para uma performance encenada pelo grupo dinamarquês Hotel Pro Forma. Depois de uma pesquisa exaustiva sobre a vida e a obra de Darwin, o Knife escreveu a primeira ópera da carreira.

No site da banda, Olof Dreijer comenta que não havia assistido a uma única ópera e desconhecia o significado da palavra libretto. Mas, num intensivão por conta própria, aprendeu tudo sobre os “gestos dramáticos” e, depois de um ano, finalmente conseguiu se emocionar com a interpretação de uma soprano. Talvez o grupo Hotel Pro Forma estivesse procurando algo do gênero: uma ópera desajeitada, virgem, naturalmente experimental, mais ou menos o que Lars von Trier buscava quando escalou a Björk para escrever as canções do musical Dançando no escuro.

É claro que, em casos como esses, só a experiência completa só é possível para quem assiste ao resultado da combinação entre música e performance. Em disco, Tomorrow, in a year soa lacunar. Quando ouvimos o som de cachoeiras e passarinhos piando, tudo o que podemos fazer é imaginar alguma cachoeira ou alguns passarinhos piando. Azar dos ouvintes pouco criativos. Sorte de quem comprou ingressos para as apresentações de Estocolmo, encerradas anteontem.

Talvez melancólico com o fim da jornada, o The Knife entrou em estúdio e resolveu registrar essa ópera-minimal (!) em CD. O resultado, previsivelmente, é o disco mais (espere um momento enquanto busco uma palavra gentil) desafiador desde Embryonic. Um projeto experimental com alguns respiros pop.

Para provar que não fujo dos desafios, ouvi o disco da forma como o The Knife recomenda no site da banda: com headphones e máxima concentração. É uma viagem insólita e entediante, adianto, mas que faz justiça ao caráter exploratório do conceito. Fica evidente que o The Knife se embrenhou por territórios desconhecidos (há trechos de passarinhos ou cachoeiras que foram gravados na Amazônia!) e aprendeu algo sobre ópera. Várias das canções são interpretados com pompa e agudos agudíssimos. As letras traduzem o espírito de descoberta e espanto que, sim, está no coração de A origem das espécies.

Ouvi o álbum de uma vez só, como se não houvesse como comprar ingressos para outras sessões, e saí do espetáculo com a impressão de que fui recompensado pelo esforço. A primeira metade do disco, talvez de propósito, soa quase impenetrável: ruídos minimalistas são sobrepostos a som ambiente e colorido new age, distorcidos por sopranos e valorizados por um registro curioso da natureza (há uma faixa que flagra um passarinho aprendendo a cantar, em diferentes estágios).

O segundo CD, mais amistoso, inclui uma canção arejada que poderia entrar no próximo álbum pop do The Knife, Colouring of pigeons, e mais divagações sobre biologia, sementes e as relações entre Darwin e a filha Anne.

Se o objetivo era captar a dimensão quase asfixiante da obra monumental de Darwin, o The Knife chegou perto. Tomorrow, in a year é um gigante construído com pedacinhos delicados. Apresenta, para os mais pacientes, um jeito inusitado de olhar o mundo, como se pela primeira vez. Não é um disco que eu ouviria várias vezes (talvez duas faixas e olhe lá), mas aposto que ele não quer ser ouvido várias vezes. Não é um álbum pop. Depois do primeiro contato, a tendência é que a sensação de familiaridade dilua a aura de mistério que cerca esse sonho de Darwin.

Então, e falo sério, siga meu exemplo: não ouça novamente. Desista. Fique com o primeiro gosto. E, exaurido, contente-se com as boas e más lembranças dessa estranha, impossível expedição.

Ópera escrita pelo The Knife, com Mt. Sims e Planningtorock. 15 faixas. Lançamento Rabid Records. Qualquer nota/10 (mentira, é 6).

8 comentários em “Tomorrow, in a year | The Knife

    Diego disse:
    fevereiro 3, 2010 às 11:18 pm

    Nem baixei.

    Daniel Pilon disse:
    fevereiro 4, 2010 às 12:27 am

    Se eu ficar só com o primeiro gosto, vai ser daqueles bem azedos.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 4, 2010 às 1:05 am

    Eu não tenho paciência pra ouvir tudo de novo. Talvez ano que vem. Mas também não tenho muita paciência pro Embryonic.

    Felipe Queiroz disse:
    fevereiro 4, 2010 às 2:34 am

    Estou esperando a oportunidade de ouvir tudo de uma vez sem pausa. Só ouvi Colouring of Pigeons, que é espetacular! Depois dessa, não tem como não encarar.

    Tiago Superoito respondido:
    fevereiro 4, 2010 às 4:45 pm

    Colouring of pigeons é muito boa.

    The Monitor | Titus Andronicus « meu nome não é superoito disse:
    fevereiro 12, 2010 às 8:00 pm

    […] 12, 2010 por Tiago Superoito Confesso que eu ainda estava me recuperando de um certo projeto sobre a vida e a obra Charles Darwin quando esbarrei no segundo disco do Titus Andronicus, The Monitor. Que trata da Guerra Civil […]

    E Secco disse:
    julho 5, 2010 às 3:57 am

    Acho um trabalho fantástico, bem diferente do putz putz que a maioria estaria esperando. Se faz completo apenas nos sons.

    Cleber Albuquerque disse:
    dezembro 4, 2011 às 5:07 am

    vão me jogar pedra? vão me botar no hospício? chamar de pedante? conheci The knife por este trabalho e AMEI. entenderam? AMEI. E SOU VICIADO NESSA VIAGEM TODA. NÃO PARO DE ESCUTAR GEOLOGY. e curti todos os outros trabalhos anteriores deles.

    abraço.

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