Superoito express (17)

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Hidden | These New Puritans | 8

O segundo disco do These New Puritans é a trilha sonora não-oficial (e ok, não-intencional) para De olhos bem fechados, de Stanley Kubrick. Talvez inspirados pela jornada de Tom Cruise na noite escura, o quarteto inglês escreveu um ciclo de canções que oscila entre o delirante (juro que não entendi a letra de Hologram, que lembra um Thom Yorke depois da terceira dose de Red Bull) e o operístico (We want war é um espetáculo em 3D com início, meio, fim e pelo menos duas variações de humor).

Vivemos numa época que exige muito de bandas de “art rock” — o conceito parece ter se diluído em todo canto (o disco novo da Shakira, por exemplo: tem gente dizendo que é um bocadinho arty). O TNP banca o desafio sem medo de engasgar com o próprio veneno. Daí que Hidden soa, nos momentos mais bizarros, como uma colaboração insana entre System of a Down, TV on the Radio, M.I.A. e Why. Seria só virtuosismo e falta de noção, não fosse o feixe de melancolia que amolece todas essas loucas melodias.

There is love in you | Four Tet | 7.5

Desde o inesquecível Rounds (2003), Kieran Hebden me decepcionava por compor dentro dos limites de uma zona de segurança que, para ele, parecia cada vez mais confortável. O novo do Four Tet mostra um geniozinho novamente irrequieto, ainda que se movimentando em direção a uma eletrônica mais previsível. É o álbum menos irregular que ele já gravou, sim, mas também o menos aventureiro. Dito isso, Hebden reencontra o equilíbrio entre dance music, sensibilidade ambient (Brian Eno adoraria tudo isso), um senso de melodia próximo do pop e barulhinhos quase sempre sublimes. Os melhores momentos do disco são também alguns dos maiores do ano: a fantasmagórica Angel echoes, a sensual Love cry, a hipnótica Sing. Diante dessa trinca, nem dá para reclamar muito.

Broken Bells | Broken Bells | 6

Devo admitir que sujeitos hiperativos e agoniados como Brian Burton — o seu, o nosso Danger Mouse — me incomodam um pouco. É que, apesar dos esforços para despertar simpatia, eles simplesmente não conseguem se concentrar. Daí que, pouco depois de trocar pílulas coloridas com o Sparklehorse no disco Dark night of the soul, cá está o moço novamente entre nós, à frente de mais um projeto interessante porém prematuro. No caso desta parceria com James Mercer (The Shins), o bolo também sai do forno meio solado: as canções, que não fogem da fórmula do Shins, ganham uma maquiagem apressada do produtor e DJ. Poucas respiram, como o single The high road (Beck cuspido e escarrado) e a maresia psicodélica de Sailing to nowhere, cujo título resume o disco.

Scratch my back | Peter Gabriel | 3

Se a ideia era criar uma longa, lenta marcha fúnebre para a música pop, Peter Gabriel conseguiu: difícil ouvir este disco até o fim sem ficar com a impressão de que o sujeito está matando alguma coisa. Produzido por Bob Ezrin (The wall), esta coleção aleatória de covers bate em duas teclas: ora soa como muzak superproduzido (com arranjos apoteóticos de cordas), ora como um pocket show movido a piano e voz. Os novos arranjos são enigmáticos: só pode ser irônica a forma como Gabriel infla uma canção do Magnetic Fields e ameniza todo o drama que existe nas confissões de Bon Iver ou em Heroes, de David Bowie, que abre o disco. A interpretação é sempre triste, cabisbaixa, como quem pede desculpas pelo golpe baixo. Mas taí: na próxima ida ao dentista, talvez você ouça uma música do Arcade Fire.

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12 comentários em “Superoito express (17)

    pedroprimo disse:
    janeiro 27, 2010 às 1:05 am

    Tô baixando o do Four Tet, você já ouviu o “Astro Coast” do Surfer Blood? Tô ouvindo agora, bastante interessante.

    E, é triste ver o Peter Gabriel falhando feio assim.

    Filipe Furtado disse:
    janeiro 27, 2010 às 1:47 am

    Hidden merecia uma nota maior.

    Surfer Blood é legal.

    Felipe Queiroz disse:
    janeiro 27, 2010 às 3:04 am

    Não esperava tanto assim de These New Puritans. Despertou minha curiosidade, irei ouvir.

    Já Broken Bells eu achei bem fraco, enquanto que álbuns covers raramente são bons. O The Flaming Lips, por exemplo, arruinou a música “Money”, de Dark Side Of The Moon

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 27, 2010 às 11:51 am

    Estou ouvindo o Surfer Blood, Pedro, e parece bom. Pois é, é triste o que acontece com o Peter Gabriel. Mais triste ainda é tentar ouvir o disco dele até o fim. O anterior, ‘Up’, já era medíocre.

    Filipe, desencane das notas: de 8 pra cima estamos no paraíso.

    Não ouvi ainda o do Flaming Lips, Felipe. Ainda estou tentando digerir o ‘Embryonic’.

    Felipe Queiroz disse:
    janeiro 27, 2010 às 1:16 pm

    Sei como é. Até hoje tento digerir Monoliths and Dimensions, do Sunn O))), mas paro a cada 5 minutos.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 27, 2010 às 1:20 pm

    Sei como é, esse também está entalado aqui.

    Filipe Furtado disse:
    janeiro 27, 2010 às 5:37 pm

    Deixa eu ser chato hehe o Beat Pyramid merecia mais que 8 e o Hidden é melhor hehe

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 27, 2010 às 5:43 pm

    Legal, Filipe. 10,5 pra ele, então!

    Daniel Dalpizzolo disse:
    janeiro 27, 2010 às 7:21 pm

    Minha nota para Hidden também foi oito, por razões diferentes a mesma do disco anterior. Independente disso, assim como o Filipe, também prefiro o segundo.

    Quanto ao disco cover do Lips, gostei bastante. Mesmo. Apesar dos vocais de Money.

    Tiago respondido:
    janeiro 27, 2010 às 7:31 pm

    Não dei muita bola pro primeiro, mas acho que eu daria um 7.

    Rodrigo disse:
    janeiro 28, 2010 às 5:43 am

    O fato é que todos esses discos se tornarão insignificantes quando minha Joanna lançar seu disquinho triplo.

    Tiago Superoito respondido:
    janeiro 28, 2010 às 11:30 am

    Aposto que teve gente espumando quando soube da notícia, Rodrigo. Eu, que sou fã, já reservei umas três semanas pro disco dela.

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