Diário | Superoito no Festival de Brasília

Postado em Atualizado em

Anotações sobre os filmes do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Minha semana será integralmente dedicada à mostra. Infelizmente, não terei tempo para escrever textos grandes. Se eu sobreviver, estarei dentro deste post até quinta que vem.

'Lula, o filho do Brasil': começamos mal

24/11

Premiação | Era o que se esperava do júri (formado por, entre outros, Caio Gullane e Flávio Tambellini): a consagração de um cinema de forte apelo popular. É proibido fumar levou oito prêmios do júri oficial (melhor filme, roteiro, atuações e crítica, entre os principais) e Filhos de João ficou com um prêmio especial de júri e júri popular. Evaldo Mocarzel levou o Candango de direção por Quebradeiras e A falta que me faz foi ignorado. Entre os curtas, uma surpresa: Ave Maria, de Camilo Cavalcante, levou o prêmio principal. Mas Recife frio, do Kleber Mendonça Filho, saiu com júri popular, direção, crítica e o Saruê, entregue pela equipe do Correio Braziliense ao melhor momento da edição.

23/11

A falta que me faz | Marília Rocha | 7 | A história do encontro entre uma equipe de cinema e quatro adolescentes da Serra do Espinhaço, no norte de Minas. Aparentemente simples (e plácido), mas de engenharia complexa, o doc impressiona pela relação de cumplicidade criada entre quem faz o filme e as pessoas que aparecem na tela. No fim da viagem, notamos que não há mais distância entre esses e aqueles: as incertezas das personagens são também nossas. O melhor longa exibido na edição do festival – e um que eu gostaria de ver novamente.

E os curtas Azul (5), de Eric Laurence, que me lembrou muito o lirismo calculado de Casa de areia, e o doc sobre o universo brega Faço de mim o que quero (4), de Sérgio Oliveira e Petrônio Lorena, que é uma colagem de tipos excêntricos.

Hoje sai o resultado. Espero que Recife frio e A falta que me faz levem alguma coisa.

22/11

É proibido fumar | Anna Muylaert | 6 | Uma crônica paulistana saborosa que, subitamente, desvia para uma trilha mais sombria e menos plausível. Soa como uma versão soft de Durval discos – aqui, também prefiro o lado A ao lado B.

E os curtas Carreto (6), de Marília Hughes e Claudio Marques, que acerta no tom de delicadeza, e A noite por testemunha (4.5), de Bruno Torres, que reconstitui um caso chocante (o assassinato de um índio em Brasília por um grupo de adolescentes de classe média) com perplexidade e truques visuais de fitas de ação.

21/11

Homem mau dorme bem | Geraldo Moraes | 4 | Folhetim de beira de estrada – truncado e ingênuo demais para ser levado a sério  (mas, em matéria de humor involuntário, é nota 10).

E os curtas Verdadeiro ou falso (5), de Jimi Figueiredo, que é uma piada cínica sobre relações amorosas, e o genial Recife frio (8.5), de Kléber Mendonça Filho, um falso documentário hilariante (e assustador) que imagina um futuro friorento para a cidade pernambucana. Um dos melhores filmes que vi no Festival de Brasília desde quando acompanho a mostra, em 1992 (e o Kléber usa extamente a mesma sinfonia de Beethoven que rola em Presságio: mera coincidência?).

20/11

Quebradeiras | Evaldo Mocarzel | 5.5 | Depois de dirigir uma dezena de documentários socialmente inflamados (com muitas entrevistas, diálogos), Mocarzel tenta uma “ruptura radical” e usa tom lírico, câmeras estáticas, planos longos, cenas de natureza exuberante, silêncios e tudo o que supostamente distancia a arte do jornalismo. Esforço curioso, mas fico com a impressão de que o cineasta troca uma fórmula por outra.

E os curtas Dias de greve (5.5), de Adirley Queirós, que tem o mérito de filmar Ceilândia de dentro para fora (mas a ficção parece genérica), e Ave Maria ou Mãe dos sertanejos (6), de Camilo Cavalcante, que edita imagens do sertão num fluxo musical que deixa tudo mais interessante.

19/11

Perdão, mister Fiel | Jorge Oliveira | 5 | Uma boa reportagem sobre o caso Manoel Fiel Filho e a tortura militar no Brasil – o depoimento do Lula, por exemplo, vale mais que todo o longa do Fábio Barreto. Mas a “aula de História” mostra total desinteresse pela linguagem do cinema e, por isso, parece deslocada no festival. A cenas de dramatização dos fatos, no estilo Linha direta, são risíveis.

E os curtas Bailão (6), de Marcelo Caetano, que é um doc com ótima ideia (dar voz a uma geração que nasceu e continua à margem de tudo) e só, e Água viva (4), de Raul Maciel, projeto universitário cheio de metáforas “criativas” e “sensíveis” sobre o desabrochar da sexualidade.

18/11

Filhos de João, admirável mundo novo baiano | Henrique Dantas | 5.5 | O filme não é tão sofrível quanto o título: existe uma qualidade doméstica, afetuosa neste doc sobre os Novos Baianos que quase compensa a superficialidade do projeto. Para iniciados, é dispensável (e o excesso de trechos engraçadinhos de depoimentos me lembrou Glauber, o filme – Labirinto do Brasil). Mas é um retrato arejado, leve, apesar de tudo.

E os curtas Homem-bomba (4), de Tarcísio Lara Puiati, que falha no salto do realismo para a fantasia, e Amigos bizarros do Ricardinho (5.5), de Augusto Canani, que é divertido e tudo, mas deveria se chamar Quero ser Wes Anderson.

17/11

Lula, o filho do Brasil | Fábio Barreto | 4.5 | Acompanho o Festival de Brasília desde 1992 e esta foi a sessão de abertura mais concorrida (e desorganizada) que vi. O Teatro Nacional, que lota com cerca de 1,3 mil pessoas, recebeu 1,8 mil convidados – com área VIP de 400 lugares para o governo federal. Antes da projeção, Luiz Carlos Barreto fez um discurso apocalíptico e avisou que todos os espectadores ali entulhados corriam perigo de tragédia. Ninguém deu bola para a recomendação, muitos o vaiaram e o filme começou nesse clima de excitação e feira-do-milho típicos do festival. O curioso é que, durante o filme, a plateia não se manifestou em nenhum momento – no desfecho, os aplausos foram protocolares. O que aconteceu?

O longa tem sim potencial para blockbuster (sabemos que o público adora ir ao cinema para conhecer histórias de pessoas que ele já conhece), é produzido com a “sofisticação” de uma minissérie da Globo e carrega no melodrama (volta e meia, acaba despencando no dramalhão mesmo). Muitos compararam a 2 filhos de Francisco e, de fato, o filme de Zezé & Luciano parece ter sido tomado como molde: a trama simplifica a biografia do presidente fechando o foco na relação entre Lula e a mãe, interpretada por Glória Pires. Mas acredito que, se Breno Silveira dirigiu aquele filme com visível comprometimento (é, apesar de tudo, um esforço que soa sincero), Fábio Barreto recorta e cola trechos da trajetória de Lula como quem soma peças de uma máquina numa linha de montagem. Não é tão emocionante quanto assistir a cenas de arquivo da posse (que, aliás, são usadas no filme).

Pior: a jornada toda é narrada de forma unidimensional e, por isso, enfadonha. A família Barreto faz uma ode tão escancarada a Lula (que representa todas as qualidades mais nobres do povo brasileiro: teimosia, determinação, capacidade de superação, etc) que, ainda que não tenha sido preparado como propaganda eleitoral, este filmezinho oficioso pode muito bem ser usado como tal.

Anúncios

8 comentários em “Diário | Superoito no Festival de Brasília

    FILIPE disse:
    novembro 18, 2009 às 1:18 pm

    ESSE FILME É PROPAGANDA SIM. DESCARADA. O BARRETO É UM PILANTRA MESMO…

    Zeca disse:
    novembro 18, 2009 às 2:24 pm

    Concordo em parte, como o filme seria usado de campanha eleitoral se o Lula não pode mais se reeleger? A história dele agora é só uma história. A Dilma não tem ligação com essa história para fazer uso dela.

    Quanto às questões do filme ser um melodrama, e de tornar a reputação do Lula sobre humana, concordo.

    Tiago respondido:
    novembro 18, 2009 às 2:30 pm

    Mas o Lula vai fazer campanha pra Dilma, não? Não acredito nesse tipo de teoria da conspiração, mas que o filme ajuda nesse clima favorável ao presidente e a quem ele apoia, ajuda. Ainda mais se fizer muito sucesso (e aposto que vai acabar fazendo). Só gostaria de saber se a Globo vai exibir na Tela Quente em julho/agosto.

    Chico Fireman disse:
    novembro 18, 2009 às 8:18 pm

    Fabio Barreto, né? Não tinha jeito. Melhor continuar com “Entreatos”.

    Tiago Superoito respondido:
    novembro 19, 2009 às 4:57 pm

    Pois é, Bela Donna feelings.

    guilherme disse:
    novembro 26, 2009 às 2:57 am

    7,5 pra hora da estrela?

    VOCÊ É LOUCO? filmeco da porra do caralho, caramba.

    guilherme disse:
    novembro 26, 2009 às 2:58 am

    comenta o do duda valente, por favor.

    pode ser azedo, não se preocupe, todo mundo tá esnobando esse filme.

    Tiago Superoito respondido:
    novembro 26, 2009 às 11:47 am

    Quase rolou um 8, Guilherme.

    Puts… Fica pra outra hora. Gostei do filme. Só não tenho muito a acrescentar ao debate.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s