Mês: agosto 2009

Arraste-me para o inferno

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Drag me to hell, 2009. De Sam Raimi. Com Alison Lohman, Justin Long, Lorna Raver e Reggie Lee. 99min. 7/10

Imagino que o trailer de Arraste-me para o inferno foi criado para soar engraçado. Não foi? Depois de esquartejar o filme numa centena de pedacinhos sangrentos e nojentinhos, a peça publicitária encerra com o alerta de que o público verá o “retorno do verdadeiro horror” (ou algo assim, nessa linha apocalíptica e boboca).

Não me peça para explicar o sentido de “verdadeiro horror”. Mas, descontado o exagero, entendo o raciocínio de quem produziu o teaser: numa época em que o gênero parece ter se transformado em playground para uma gentalha oportunista do naipe de Michael Bay (mais um remake anódino de slasher-movie e aposto que as calotas derreterão mais aceleradamente), talvez a equipe de publicitários da Universal Pictures tenha apenas imaginado uma forma de nos alertar que veríamos um filme de horror genuíno. Digamos.

Ainda assim, eles estão um tanto quanto errados: Arraste-me para o inferno me parece um terror café-com-leite, concebido para um público que era fã do gênero aos 12, 13 anos de idade – mas que hoje, aos 30, só consegue encará-lo como uma brincadeira inofensiva. Um metahorror. Um terrir na tradição de Fome animal, de Peter Jackson, e da terceira sequência que o próprio Sam Raimi dirigiu para Evil dead, de 1981.

Escancaradamente, e com doçura e bom humor, o diretor nos convida para um trem-fantasma de segunda mão, que revisa a própria trajetória no gênero (e fica a impressão de que, nas idas e vindas ao dark side, Raimi passou três décadas dirigindo o mesmo filme de terror): em Evil dead, cinco amigos eram atormentados por demônios, à solta num chalé infernal. Aqui, uma funcionária de seguradora é amaldiçoada por uma cigana, que provoca todo tipo de alucinação macabra contra a pobre alma.

Seria mais ou menos o mesmo filme, ou uma sequência bastante fiel àquele filme, não fosse por um detalhe: entre Evil dead e Arraste-me para o inferno, Raimi cresceu, amadureceu (também como cineasta, ainda que isso não conte tanto quanto parece), dirigiu três episódios de Homem-Aranha e firmou-se como um dos diretores de entretenimento mais eficientes e poderosos de Hollywood. O novo filme mostra, no mínimo, a distância que separa o autor de 2009 daquele que apareceu em 1981.

Para os fãs do original (estou entre eles) e do cinema de horror dos anos 1980, propõe uma experiência que, sim, é irresistível: olhar no retrovisor da cultura pop e rir da paisagem refletida. Não sei se faz tanto sentido para um público que hoje tem 15, 16 anos. Na sessão em que vi o filme, a maioria simplesmente não entrou no jogo. Entendo a reação: o longa de Raimi mira uma geração específica, que cresceu assistindo a fitas VHS de O exorcista, A profecia e Poltergeist – para sorte dele, a maior parte dos críticos em atividade faz parte dessa turma.

Nesse ponto, o projeto é explícito: abre com uma vinheta retrô da Universal; em vez dos serial killers desmiolados, o diretor aposta no horror do sobrenatural (um nicho meio démodé). O uso excessivo de efeitos sonoros, que martela todas as cenas de susto, os litros de gosma verde-limão, a heroína naive (num determinado momento, ela é descrita apenas como uma “mulher de bom coração”, e é o suficiente)… Tudo conspira para uma homenagem distanciada (já que satírica) a uma onda do cinema de horror que ficou perdida lá no início dos 80.

É um flashback divertido, mas que deixou em mim um certo incômodo. O esforço de Raimi parece um tanto estéril: ele não dirige um “verdadeiro horror”, mas um horror pela metade, que conhece os códigos mais superficiais do gênero, mas teme um mergulho profundo no lodo, na angústia, na agonia. Li numa entrevista que Raimi tem medo de fitas de terror. Este é um filme um tanto amedrontado – talvez receoso de dar um passo além e de perturbar verdadeiramente o espectador (o espírito do gênero não seria esse?).

O que fica é uma piada até engraçada, conduzida com segurança e boas intenções por um cineasta que brinca num cercadinho muito seguro e tranquilo. Os 15 minutos finais, antes do desfecho, lembram mais para o tom à Charles Dickens de Homem-Aranha que a arruaça adolescente de Evil dead. Para quem acompanha o diretor, é interessante notar como um autor correto e adulto lida com um projeto despretensioso – não dá muito certo, mas é uma tentativa reveladora.

E que, no mais, resulta num filme de verdade, vivo – e isso, sabemos muito bem, é quase uma anomalia dentro do nosso circuito-zumbi.

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Superoito e a questão do estacionamento

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O apartamento onde moro fica no final de um corredor longo e estreito. Hoje fiz o cálculo: do elevador à porta são quase 60 passos. Parece uma eternidade, um martírio, mas prefiro encarar a localização com algum otimismo. Meu quarto-e-sala fica grudado à lixeira do prédio (isto é: desovo minha bagunça quando e como bem entendo, de cueca amarela furada às três da madrugada, e tudo isso me dá uma sensação refrescante de liberdade), bem perto da saída de emergência (sou dos que preferem ficar bem perto das saídas de emergência) e, no mais, a caminhada até o elevador dá um belo de um exercício físico.

Gosto dele. Do corredor.

Morar no fundilho do prédio também traz outra vantagem: a janela da sala não dá para uma parede acinzentada, mas para a rua, para o horizonte, para o mais extraordinário e terrível vazio. Quando bato de frente com o cenário (tão plácido!), às vezes esqueço que vivo num cubículo. E isso melhora o meu dia, de alguma forma.

Quando me mudei para o apê, sem lenço e sem documento, pensei que seria só isso: eu e o apê, o apê e eu. Logo fui surpreendido por um elemento estranho: o vizinho.

Descobri num susto. Era sexta-feira, quase oito da manhã. O interfone tocou. E foi também aí quando descobri que eu tinha um interfone e, repare!, ele fazia barulho.

– É o Tiago?

– É. O Tiago.

– Está acordado?

– Um pouco.

– É da portaria. Parece que você bateu no carro do seu vizinho.

– Meu vizinho?

– O da frente. O seu vizinho da frente. Ele tem um carro preto. Parece que você bateu no carro preto do seu vizinho.

– Impossível.

E bati o interfone. Eu estava assustado. Meus sonhos são muito vívidos. Eu estava sonhando. Nada daquilo parecia real. Primeiro, um interfone. Depois, um vizinho. E um carro preto. Uma batida. Eu era o culpado. Eu era o culpado? A situação toda parecia extremamente irreal.

O interfone tocou novamente.

– Tiago, seu vizinho está na garagem. Ele mediu a batida com uma fita métrica e parece que foi você mesmo. Você bateu. Mesmo.

– Não lembro de ter batido em ninguém. Falo a verdade.

– Mas foi você. Eu desci até a garagem, eu vi a batida. Desci duas vezes. Foi você.

Em vez de prolongar a discussão, decidi vestir um trapo e ir à cena do crime. Eu realmente não lembrava de ter batido no carro de ninguém. As vagas da garagem são todas muito apertadas, mas sou cuidadoso.

Foi ali, naquela situação meio esdrúxula, que vi meu vizinho pela primeira vez. Um sujeito baixo, de rosto redondo, devia ter uns 28 anos, cabelo rigorosamente aparado e penteado para a direita. Usava uma camisa branca sem mangas por dentro da calça – e na camisa havia letras coloridas que formavam as palavras “Engenharia Mecânica”. Lembrei que eu nunca me dei bem com pessoas que usam camisa branca sem mangas por dentro da calça. Tomei aquele estranho como um inimigo e fui me irritando com ele pouco a pouco.

– Desculpe o incômodo, mas você bateu no meu carro.

– Eu bati no seu carro? Ontem é que não foi.

– Se não foi ontem, foi anteontem. Mas que bateu, bateu.

– E você vai provar?

– Veja. Aqui, uma fita métrica.

– Eu sei. Uma fita métrica.

– Então observe. A altura da batida no meu carro é exatamente a mesma desse arranhão aqui no seu carro (e, enquanto o sujeitinho explicava, eu só conseguia ler as palavras “Engenharia Mecânica”).

– Pode ter sido coincidência.

– Não pode. Olhe bem. O formato da batida. É redonda e pequena. Agora veja o arranhão no seu carro. É redondo e pequeno.

– Certo. Mas isso prova tudo?

– Isso prova tudo. A fita métrica. Você quer chamar a polícia?

– Não, óbvio que não. Polícia, meu deus. Entenda isso: eu não lembro de ter batido no seu carro. Não lembro. E você não me conhece. Não me conhece. Se você me conhecesse, saberia que não saio batendo nos carros dos meus vizinhos. Não sou desse tipo.

– Sei.

– É verdade.

– E então?

Decidi desistir da briga. Era manhã de sexta-feira, eu precisava vestir uma roupa decente e ir trabalhar.

– Olha… Você tem a prova de que eu bati. Eu não tenho provas de que não bati. Você venceu. Ponto seu. Leve o carro ao mecânico e veja o preço do conserto. Depois me ligue. No interfone. E é uma batida tão pequena que ninguém nem vê.

– É que comprei o carro mês passado e –

– Então faça o orçamento. Tem outra forma?

Ele guardou a fita métrica, provou o gostinho de uma vitória tola, deu um sorrisinho cruel e tudo o mais. Nesse momento, no entanto, notei que ele estava um pouco constrangido com a situação toda. Uma batida de nada, quase invisível, havia rendido uma discussão capaz de arruinar a relação entre dois vizinhos. Ficamos parados ali na garagem por alguns desconfortáveis minutos. Ele resolveu mudar de assunto. Mudar o tom. De thriller sanguinolento para um ameno buddy movie.

– Você mora aqui há muito tempo?

– Não. Poucos meses. Você?

– Dou aula. Engenharia.

– Certo. Certo.

– Que situação, hem?

– Pois é.

– Desculpe por ter ligado tão cedo, é que meu carro, o carro é novo, é meu, o meu carro, sabe como é…

– Sei como é. Tudo bem. Eu é que tenho que pedir desculpas. Bati no carro. Bati sem saber, mas bati. Acontece. Vivendo e aprendendo. E agora tenho que correr pro trabalho está tarde e outro dia a gente resolve tudo vai terminar bem vão consertar é só uma batidinha de nada você vai ver tchau e até mais prazer em conhecer abraço adeus.

Passei uns três meses sem falar com o meu vizinho. Falei com meus amigos sobre o vizinho, a camisa sem manga por dentro da calça, a fita métrica, a batida estupidamente minúscula, e eles acharam graça, que coisa, Tiago, que azar, que coisa, logo você, ninguém merece. Ele nunca comentou sobre o orçamento do conserto. Eu nunca perguntei. Ficamos assim. Outro dia, notei que ele recebia visita. Quando entrei no corredor, vi uma cena inusitada: o vizinho estava ao lado da lixeira, posando para uma foto, com a mãe e o pai e possivelmente a irmã de uns 16 anos. Notei que ele ficou envergonhado com a situação e tomei aquilo como uma espécie de vingança. Entrei no meu apê com um sorriso sádico pregado no meu rostinho diabólico.

O tempo passou. E, durante esse tempo, tentei contato com outros vizinhos. Mas é complicado. Não sei se isso acontece em outras cidades, mas existe em Brasília uma espécie de código social que dificulta as relações de vizinhança. É um estereótipo, sim, mas que sempre cercou a minha experiência brasiliense. Eu vivi o lugar-comum. Na pele. Desde que cheguei à cidade, aos 12, fiz amizade com pouquíssimos vizinhos. Um deles era um fã de heavy metal que me pedia para traduzir os versos do Iron Maiden. Ainda assim, era uma amizade apenas protocolar. Ele tentava me convencer de que a obra do Iron Maiden era uma forma superior de arte (eu fazia de conta que acreditava), eu tentava convencê-lo de que Billy Corgan era o messias (e ele fazia de conta que acreditava), e era isso.

Noto que, nesse ponto, nada mudou. Quando nos cruzamos no corredor, eu e meus vizinhos desviamos olhares, trocamos preguiçosos “ois” e respiramos fundo na torcida para que o elevador chegue rápido e nos livre do encontro incômodo com o desconhecido. Com o desconhecido que mora no apartamento ao lado. No prédio onde moro, não somos muito sociáveis. Não queremos ser incomodados. Somos terrivelmente individualistas e auto-suficientes. E estamos muito bem desse jeito, obrigado.

E poderia ser diferente?

Anteontem, por uma dessas coincidências que não significam coisa alguma, encontrei meu vizinho na garagem. Eu estava chegando de carro, ele também. O encontro seria inevitável. Pensei até em fazer um desvio, sair do prédio, tomar um sorvete e retornar em cinco, dez minutos. Mas decidi encarar a vida como ela é. Estacionei cuidadosamente o carro. Ele fez o mesmo. Acenei e ele, assustado, respondeu com um aceno desajeitado. Estávamos, veja isso!, nos comunicando – e desconfio que, com aqueles acenos típicos de uma vida social saudável, quebramos duas ou três regras definidas pela reunião do condomínio.

Eu tentei encerrar a aproximação ali. Saí do carro discretamente, abri a mala, tirei minha mochila e duas sacolas de supermercado. Notei que meu vizinho estava tirando do carro dele uma mochila e duas sacolas de supermercado. Percebi que a imagem do meu vizinho com uma mochila e duas sacolas de supermercado era um tanto patética, mas logo reparei que eu talvez parecesse igualmente patético. Fiquei um pouco perturbado com a comparação e apressei o passo para o elevador. Ele veio atrás. Apertei o botão do elevador com ansiedade. Mas o elevador não chegou e acabamos nós dois ali, eu e meu vizinho. Eu e o desconhecido. E o silêncio.

Eu devia ter feito um comentário engraçadinho. Mas não havia nada a comentar com o panaca que me acordou às oito da manhã por causa de uma batida idiota.

Para minha surpresa, ele resolveu puxar assunto.

– E então, está gostando de morar aqui?

– Sim, sim. Mais ou menos. Enfim. E você?

– É. Até que sim. É bom. É silencioso. É até muito bom.

– Mas aí vão construir o shopping e daqui a pouco…

– É. Vão construir o shopping e daqui a pouco…

O elevador chegou. Entramos.

– Dizem que o shopping fica pronto em novembro ou dezembro.

– Ouvi falar que é dezembro.

– Já disseram novembro.

– Vai ser um inferno.

E o corredor, longo que só ele. 60 passos.

– Vai ser um inferno.

– É. Vai ser um inferno.

– Vai ser um inferno.

20 passos. Na sacola de supermercado, ele levava alface e consegui notar umas latas amarelas de não-sei-o-que (talvez milho, ou mostarda).

– Só espero que resolvam a questão do estacionamento.

– A questão do estacionamento é importante. Espero que resolvam.

– Espero sim. A questão do estacionamento.

– Que resolvam a questão do estacionamento logo.

– É a mais importante.

Então chegamos. Nos despedimos sem deixar ganchos para próximos episódios. Com alívio. Estava encerrado o encontro. Um confronto difícil. Um épico de Hollywood. Mas nos saímos razoavelmente bem. Com palavras educadas e ocas, provamos para nós mesmos que podemos ser vizinhos até bastante civilizados. Em dois meses, estaremos jogando cartas e abrindo garrafas com os dentes na companhia de outros vizinhos educados e civilizados e tão ocos e tão desajeitados e tão trancados por dentro quanto eu e o desconhecido da porta à frente. Desmentimos a lenda urbana e fizemos de Brasília uma cidade calorosa, simpática e cortês. Viu só? Não é impossível.

No dia seguinte, quando eu estava prestes a sair para o trabalho, o interfone tocou. E tocou de novo. O barulho era mais estridente do que eu imaginava. Deixei tocar. Tocou de novo. Pensei em atender. Pensei duas vezes. O danado gritava. Num salto de dois metros, peguei minha mochila, arrumei meu cabelo, molhei as plantas, abri a janela (tão plácido!), meti a chave na porta. O bicho barulhento ficou gemendo na sala. Eu, que não sou bobo, parti.

Charmaine Champagne | The Fiery Furnaces

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Já que eles estão com tudo (pelo menos neste blog), aí vai o clipe novo do Fiery Furnaces, que ilustra muito bem a nova fase da dupla, mais direta e sociável. Não é meu favorito, e há músicas mais bacanas no ótimo I’m going away, mas soa mais interessante que quase tudo o que eu vi nesses últimos meses.

Superoito e a cidade vazia

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Você conhece Brasília?

Se não conhece, recomendo o seguinte itinerário: agende a passagem de avião para um domingo à noite. Ao desembarcar, tome um táxi para o final da Asa Norte. Ao motorista, peça especificamente que ele siga pelo Eixão. Por volta das nove, dez da noite, haverá alguns carros na pista. Alguns, não muitos. É uma pista bastante larga, seis faixas. Garanto que, num domingo como outro qualquer, ela nunca parecerá suficientemente movimentada.

Para uma experiência completa do trajeto, preste atenção a estas instruções. Primeiro, repare a extensão da via. Note como ela parece seguir indefinidamente, com postes que brilham feito estrelas mortas. Depois, vire o pescoço para a direita e observe o desenho dos prédios. Uma paisagem estranhamente ordenada, que sugere assepsia e civilidade. Não? Na altura da rodoviária, faça a sugestão ao condutor: ‘tome o Eixinho, por favor’.

Para chegar ao Eixinho Norte, você verá rapidamente a Esplanada dos Ministérios, a Catedral e, bem lá ao fundo, o Congresso Nacional. Faça de conta que isso tudo é uma miragem. Eles nunca existiram. O Teatro Nacional é uma nave de brinquedo daquelas que você ganhava de presente de Natal quando tinha seis anos de idade e era início dos anos 1980 e a ceia parecia um filme previsível e agradável. Esqueça o teatro.

Esqueça as memórias (por um segundo). Estamos no Eixinho Norte. Os prédios cresceram e quase nos engoliram, estão todos maiores (ainda uniformes, só que maiores). Seis andares. Ordem e progresso. Olhe para o alto. As antenas são tão pequeninas e finas e discretas que talvez não sirvam nem para os passarinhos, vá saber. Veja o meio-fio, a passagem de pedestres. E, neste momento, perceba que não há pedestres na calçada. Eles não estão na rua. Eles não estão em lugar algum. Talvez estejam em casa (as luzes dos apartamentos, provas do crime, estão acesas).

Na parada de ônibus há duas ou três almas, mas elas não parecem pertencer àquele ambiente e por isso se sentem desconfortáveis – enfeitiçadas pelos relógios de pulso, quanto tempo falta para? Na altura da 312, peça para o taxista descer a tesourinha (ele sabe muito bem o que isso significa, não se preocupe), siga até a superquadra e indique o bloco B. Pague a corrida e ofereça gorjeta.

Ao lado do bloco B existe um gramado que, há alguns anos, era maior do que é hoje. Antes, a quadra ao lado não estava habitada. Hoje está. Os prédios têm seis andares, os jardins apareceram da noite pro dia (mas são muito bonitos, acredite) e os carros que entram e saem são quase todos do ano. Ainda assim, existe uma parte do terreno não foi alterado – e imagine aí um espaço vazio onde caberiam cinco ou seis campos de futebol – e ele lembra a minha adolescência. Foram tardes e mais tardes na janela, olhando para aquela área oca, serena, um deserto amarelado cravado na cidade planejada.

Sempre me pareceu um erro de cálculo. Aquela área vazia. Como pode? Uma capital tão perfeitamente serena, tão perfeitamente organizada. E aquilo. Aquele rasgo no meio do nada. O terreno baldio. O mato crescendo. As crianças se escondendo no mato. Os meninos e as meninas se escondendo alegremente no mato. Os trombadinhas assaltando as velhinhas no mato e tudo o mais. O terreno é tema de algumas lendas que o taxista não saberá explicar a você, infelizmente (e não há guias turísticos decentes nesta cidade, por incrível que pareça). Dizem que, numa madrugada fria de junho, uma mulher se perdeu no meio do mato e descobriu um fosso fundo e largo que brilhava e dava no fim do mundo (ou em algum lugar muito distante, não lembro direito). Quando eu era mais novo, eu olhava pela janela e via um fim do mundo bastante plácido. Hoje tenho 30 anos de idade.

Não moro mais lá. Minha avó mora. Vez ou outra, volto àquele prédio para dar carona à velhinha. Paro o carro no estacionamento e fico por uns minutos observando aquele matagal todo. Continua o mesmo, apesar de tudo. Nem a capela que construíram há uns seis meses (um prédio baixo no formato de um hexágono) conseguiu acabar com ele. Não sei se vai durar muito tempo, mas aquele vazio todo ainda está lá para me lembrar dos dias mortos da minha adolescência. Eu passava tanto tempo na janela. Pensando no quê?

Domingo passado foi assim. Deixei minha avó no apartamento, segura, na paz de deus, com os anjinhos e todos os santos, e fiquei alguns minutos diante do terreno baldio, paralisado. Não encontrei respostas para absolutamente nada. Os dias têm sido assim: perguntas. Antes disso, de quase desabar no terreno vazio, passei a manhã na casa da minha mãe. Calado. Não sou um sujeito calado. Mas eu estava calado. Ando calado. E um pouco apático, mas acima de tudo (e isto é o mais estranho) calado.

As pessoas perguntam se estou bem. Digo que estou. Não existe outra alternativa. Eu sou o homem da casa e não posso esmorecer. Percebi isso há uns dois, três dias: eu devo assumir o posto de homem da casa. O homem da casa. Eu. O homem da casa. Tiago, o homem da casa. Minha família é pequena e está ruindo. A doença do meu padrasto, a instabilidade da minha irmã, a velhice da minha avó, o todo peso quase insuportável que descarregamos nos ombros da minha mãe. Tudo ali, exposto de uma forma extremamente crua. Na hora do almoço, quando eu estava prestes a voltar para o apartamento pequeno e frio onde moro, minha mãe pediu para que eu ficasse por lá, naquela casa ampla com cachorros e horta. Que passasse a semana. Que me derramasse no quarto, talvez para sempre. E foi um apelo tão sincero, tão simples e sincero, que tive que engolir saliva para não chorar.

Eles precisam de mim. Ou seria mais correto imaginar que eles querem, querem muito que eu participe disso tudo, dessa tragédia muda, do entardecer dessa família, desse ato final dolorosamente longo e triste? “Você vai sair assim, antes dos créditos finais?”, e fico com a impressão de que me fazem essa pergunta sempre quando saio.

Mas saio. Continuo saindo. E por enquanto me pergunto o que acontece, o que vai acontecer comigo e com eles e com todos os que conheço. Não há respostas e não faço ideia se todas elas aparecerão num flash, pipocando e me cegando instantaneamente. Foi o que senti naquela tarde de domingo. O terreno vazio, as pistas silenciosas e uma dificuldade tremenda de entender por onde devo seguir e o que devo fazer a partir de agora. É a hora. Nada parece seguro. Deus não existe. E a cidade não tem alma. É de concreto, com seis andares e um lindo jardim falso.

O problema talvez seja meio tolo: eu não cresci (ainda). Não estou pronto. Preciso de um tempo. Tomar fôlego, não sei. Ainda busco as soluções que eu encontrava quando era adolescente. Ainda quero abandonar tudo e passar a tarde morta olhando por uma janela. Pensando o quê? Ainda acredito que, quando a minha aeronave perder o rumo, saltarei num colchão confortável e sairei da catástrofe ileso, protegido. Deve ser isto: secretamente, ainda tento me convencer de que, apesar de tudo, existe uma zona de conforto e que este período de turbulência terminará em serviço de bordo e num pouso tranquilo.

Por isso não consigo falar no assunto. As pessoas me perguntam: está tudo bem? E eu: está tudo bem. Quando desabafo, desabafo para poucos. Depois, me sinto mal. Como se eu tivesse inventado uma história sobre a minha vida. Uma história em que ainda não acredito. Talvez seja uma questão de tempo.

E é isto. Recomendo que você dê três ou cinco passos dentro do terreno baldio e olhe para cima. Para a janela do terceiro andar. Lá estou eu. Em seguida, caminhe até a entrada da quadra. É um trajeto curto e que não cansa, três minutinhos. Recomendo os taxistas da região, que cobram caro, mas são confiáveis.

Tome o Eixão e siga para o aeroporto, de olhos fechados. A cidade não existe mais. Você não deve olhar nos olhos dela. E, no mais, você já a conhece. Em 20 minutos, no máximo, estaremos no aeroporto. Coma uma empada no setor de desembarque e beba suco de laranja. Compre uma revista amena ou um livro de 150 páginas. Ouça uma música não muito pesada. Tome o voo de volta. E aqui estamos de novo: boa viagem, até mais.

Superoito express (11)

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Vocês devem ter percebido: o blog agoniza. Alguns disquinhos que ando ouvindo (só para não perder o hábito).

Time to die | The Dodos | 7 | Me faz pensar no quanto estamos acostumados a não sermos surpreendidos por nossos ídolos. Time to die é quase o oposto de Visiter, o álbum que revelou o Dodos em 2008 – e por isso, apenas por isos, pode soar estranho (e olha que nem comecei a falar sobre o novo do Arctic Monkeys…). Se aquele era um disco expansivo, um bloco de rascunhos com (lindas) arestas de ideias, o novo sai em busca de precisão, coesão. É outra história. O produtor, Phil Ek, arredonda o som da banda (agora um trio, com vibrafone) da mesma forma como havia feito com o Band of Horses (produziu os dois discos deles), o Shins (Chutes too narrow) e o Fleet Foxes. Pode parecer menos desafiador – e mais compacto, ordinário -, mas garanto que, com algumas audições, faixas como The strums e (principalmente) Fables começarão a soar tão surpreendentes (e aventureiras, repare na sobreposição nervosa de violões, vibrafone e percussão) quanto as do álbum anterior. Em síntese: um irmãozinho imaturo, mas bastante simpático, do Grizzly Bear. 

Ambivalence avenue | Bibio | 7.5 | Até agora, eu desconhecia completamente o produtor britânico Stephen Wilkinson, o Bibio – tudo o que eu lia sobre ele me desanimava (resumindo: muita gente boa o comparava aos imitadores da eletrônica in natura do Boards of Canada e Four Tet). Ambivalence avenue me deixou com vontade de fuçar os outros álbuns do sujeito. O disco, lançado pela Warp Records, oscila entre o folk cru e uma eletrônica desencarnada, mas espanta mesmo quando combina esses dois extremos com uma pegada emotiva, doce e doméstica (aposto que até Jack Johnson adoraria faixas como Lovers’ carvings). Chega a lembrar o transe sixties de Andorra, um disco do Caribou que eu adoro. Não é tudo aquilo, mas chega perto.

Catacombs | Cass McCombs | 7.5 | Outra boa descoberta: um trovador de carreira longa (já tem cinco discos) e que, como o Bibio, resolveu lançar um álbum mais direto e franco. No caso, Cass compõe uma declaração de amor muito tocante à esposa dele. Os versos são tão pessoais que provocam até algum constrangimento: é como se grudássemos o ouvido na porta para ouvir uma conversa íntima. Duas das canções são tão fortes (Dreams come true girl e You saved my life) que sustentam o disco inteiro (e o desfecho, com Jonesy boy e One way to go, é quase singelo, sem tanta sofisticação, mas também adorável). Perfeito para quem, como eu, sente saudades dos projetos solo do Archer Prewitt (ou dos últimos capítulos de John Lennon).

Telekinesis! | Telekinesis | 6 | É curioso que a Merge Records (casa do Arcade Fire, Spoon, Caribou) tenha apostado num projeto unidimensional desses, ora lembrando os primeiros discos do Weezer, ora Strokes. Produzido por Chris Walla (do Death Cab for Cutie), a estreia de Michael Lerner (o faz-tudo do Telekinesis) só faz sentido quando se entende as limitações de uma sonoridade muito à vontade com clichês de indie rock. Dito isso, é mais enérgico que a média.

Skyscraper | Julian Plenti | 5 | Paul Banks se esconde sob um pseudônimo, mas acaba soando exatamente como aquele vocalista do Interpol que conhecemos tão bem. O álbum tem a aparência de uma coletânea de lados B, pouco arriscado (nos momentos de maior ousadia, como a faixa-título, Banks nos revela que anda ouvindo Bon Iver e só) e até cansativo. O single, Fun that we have, mantém a atmosfera do terceiro álbum do Interpol: canções melancólicas para o fim de uma festa.